(Continuação)
De volta ao país de Gales, em 1938, moram primeiro numa casa sem banheiro e sem conforto, mas a que chamam Eros, em Laugharne, com vista para as ruínas de um castelo. Depois, alugam Sea View – Vista do Mar –, uma estranha construção de três andares perto da colina de Sir John que mais parece uma casinha de criança. Como não amar o cinza das águas e o cinza do céu dessa região?
Now the heron grieves in the weeded verge. Through windows
Of dusk and water I see the tilting whispering
Agora a garça se lamenta nas margens sem ervas. Pelas janelas
Do crepúsculo e da água vejo a garça murmurante que se inclina
No ano da guerra, em 1939, surge a coletânea O Mapa do Amor. Segundo Fraser, esse é o único conjunto de poemas da obra de Dylan Thomas que contém alguma crueldade ou obscenidade. Seriam as suas pièces noires, onde o mal se faz presente. E em termos junguianos, pode-se dizer que o poeta, nessa fase, estava absorvendo e superando a própria Sombra.
Já com um filho pequeno, passam quase toda a guerra em Londres, sob os impiedosos bombardeios que não pouparam nem a distante Swansea. Data dessa época a maior parte dos programas que Dylan fez para a BBC. E é curioso lembrar que o primeiro de uma série sobre a América Latina, que foi ao ar em 1940, era sobre o Brasil e o Duque de Caxias.
Bastante conhecido, o poeta agora é criticado. Acusam-no de obscuridade, hermetismo, imagens complicadas, metáforas estranhas. Qualificam sua poesia como surrealista. Dylan se defende: os surrealistas são partidários da escrita automática, brotada diretamente do Inconsciente. E ninguém é mais consciente e obsessivo com o som e com a forma do que o galês. Paul Ferris, seu outro grande biógrafo, garante que um amigo viu duzentas versões de um mesmo poema de Dylan Thomas.
O exemplo mais evidente da obsessão com a forma – e com a rima – do poeta está no prólogo de seus Collected Poems, que é preciso observar, é claro, no original. Neste poema de 102 versos, a última palavra do primeiro verso rima com a última do último; a última do segundo, com a última do penúltimo, e assim por diante, para, exatamente no meio, o som de farms encontrar-se com arms.* (*[R1] , e o verso EE E E o [R2] verso é To Wales in my arms, – para Gales, em meus braços). Não há escrita automática no mundo que produza tal perfeição formal. No poema “A conversa das preces”, de Mortes e Entradas, há uma rima interna rebuscadamente elaborada, que forma um ziguezague com as rimas finais de cada verso, além do poema ter sido construído quase todo com monossílabos. E extraordinária é a ausência total de monotonia. Assim como na forma musical da variação é preciso olhar com cuidado a partitura para descobrir como um tema se fragmenta, muda de ritmo, quase desaparece, na poesia de Dylan Thomas precisamos olhar a escrita muitas vezes para termos a dimensão, ou ao menos uma idéia do trabalho criativo, de sua mestria no ofício. Como ele mesmo se definia, era um sofrido artesão de palavras, tortuoso e ardiloso, que soube usar todos os recursos ao seu alcance: velhos truques, novos truques, trocadilhos, gíria, palavras justapostas ou portemanteau, paradoxos, alusões, assonâncias, dissonâncias, rimas tortas, ritmos quebrados, tudo o que pudesse mergulhá-lo cada vez mais fundamente no prazeroso – e tão penoso – delírio de criar. Um poeta devia ter esse direito. De onde quer que as imagens fossem extraídas, fossem elas arrancadas do eu marinho mais profundo, antes de serem derramadas no papel, tinham contudo de passar pelo intelecto, pela técnica, pela arte.
E todo esse esforço, o intrincado processo, para que serve afinal? “Para a celebração do homem que é, ao mesmo tempo, a celebração de Deus”.6
Ao contrário de W. H. Auden e de T. S. Eliot, Dylan Thomas não vivia num mundo conceitual, nem sua coerência era uma coerência de conceitos. Não era um especulativo, nem um metafísico; não pretendeu explicar o mundo, quis cantá-lo. Sua poesia é rito, celebração. É um visionário, como Rimbaud. Para ele, segundo Fraser, os opostos polares são, em algum nível, igualmente sagrados; sagrado é o gavião, sagrada é a pomba.
We are the sons of flint and pitch.
O see the poles are kissing as they cross.
Somos os filhos do sílex e do breu.
Ó vede os pólos que se cruzam a beijar-se
Entre 1942 e 1945, Dylan fez muitos documentários, entre os quais um sobre bombardeios, considerado mórbido demais para o público, que afetou profundamente seu espírito e sua imaginação. Isso explicaria, em parte, o retorno dos temas e das paisagens da infância em seus poemas tardios.
(Continua)

