
Desculpe, meu prezado amigo, o pouco que lhe tenho escrito ultimamente. Com a grande indulgência que tem tido comigo, a aturar os meus desabafos e até a dar-me alguns conselhos, não há agradecimentos que cheguem. Com certeza que não pensou que, finalmente, se tinha visto livre de mim. É verdade que não tenho seguido sempre as suas recomendações, mas acredite que valorizo em muito a sua paciência e a sua amizade. Hoje, aconteceu-me uma coisa pouco habitual, acordei muito cedo. Imagine que ainda não eram sete horas, e já não conseguia dormir. Há muitos anos que isto não me acontecia, desde o fim do meu namoro com a Natália. Na altura, tive noites em que mal dormia. Deitava-me, estava horas a dar voltas na cama, dormitava um pouco, e acordava logo. De manhã, levantava-me, abria a porta do quarto devagarinho, escutava e sentia a Heloísa na cozinha ou na sala, já a bulir. Voltava logo para a cama, e, curiosamente, às vezes conseguia então ferrar num sono profundo, depois de me aperceber que lá estava ela, como sempre, entregue à faina de todos os dias. E isto apesar de saber que, se eu dormia mal, ela então nem dormia. Foi sempre assim, enquanto não rompi com a Natália. Foram uns tempos difíceis, pode crer.
Amanhã é terça-feira, o dia em que combinámos ir à faculdade lanchar com a Maria da Luz. Tem toda a razão, é por isso que ando a dormir mal. Meto-me na cama, leio um pouco, habitualmente umas linhas dos meus cadernos, copiadas dos apontamentos da minha amiga (que agora, não há dúvida, é mais do que isso), e nem assim consigo pregar olho. Normalmente, não chego a ler seis linhas. A noite passada, revi todas as notas das duas últimas aulas. Mas hoje às seis da manhã já tinha despertado. Agora, mal passa das sete. A minha mãe dorme profundamente, que ainda há pouco constatei.
Entretanto, a questão do Álvaro parece estar encaminhada. Não tenho feito visitas nocturnas à Maria Antónia, pois estou muito em baixo de dinheiro. E ainda por cima amanhã vou ter de pagar o lanche. Não posso deixar que seja a Maria da Luz a fazê-lo. Entretanto, ontem ao jantar, a Heloísa contou-me, com muitos detalhes pelo meio, que a Josefa e o Bráulio, o marido, foram falar com o comandante da esquadra da Encosta, e que ele prometeu que ia mandar alguém à pensão da D. Generosa, a apurar o que se passava. Parece que lá na esquadra já havia informações sobre os acontecimentos. Aliás, insistiu a minha mãe várias vezes, eles conhecem muito bem a pensão. Volta e meia vão lá deixar raparigas que não têm onde ir dormir. Vêm não se sabe de onde, chegam a Lisboa, com umas ideias fantásticas e, no dia seguinte, estão sem vintém. Um homem ainda pode dormir na rua, mas uma mulher… A Heloísa abanava a cabeça.
Fiquei um pouco encolhido quando ela referiu que um homem pode dormir na rua. Vi-me a mim próprio, a um dia ter de dormir na rua. Fiquei logo como no outro dia, cheio de calafrios. A minha mãe deve ter sentido alguma coisa, poismudou de conversa. Perguntou-me:
– Falaste hoje com a Maria da Luz? Confirma-se o lanche para terça-feira?
– Sim, telefonei-lhe. Ela foi passar o fim de semana à Covilhã, mas já tinha chegado. Terça-feira, saímos daqui logo a seguir ao almoço, e estamos na faculdade lá para as três. Estamos um bocadinho na biblioteca e depois vamos para a esplanada do estádio. Vais ver que gostas.
– Muito bem. A ver se à uma hora já estamos a almoçar.
Falámos ainda muito tempo dos vizinhos (ela muito e eu muito pouco, como sempre), e a minha mãe ainda me resumiu a tarde que tinha tido no café. Consegui evitar que ela me reproduzisse a parte respeitante à análise da telenovela Brava Mulher, que estreou esta semana na Chic.
Perdoe-me, caro amigo, a reprodução de todos estes pormenores. Mas é por isto tudo que estou um pouco nervoso, e a dormir mal. Receio que amanhã o lanche corra mal, que, sei lá, a minha mãe e a Maria da Luz se desentendam, e eu ainda tenha de as apartar. Vai dizer que tudo isto são fantasias minhas, que elas ainda se vão entender. Oxalá tenha razão.
