CONTOS & CRÓNICAS – MAIS UMA CARTA DE MAURÍCIO VILAR – por João Machado

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Escrevo-lhe só a esta hora, quase duas da manhã, porque cheguei a casa tardíssimo.Ontem, logo a seguir ao almoço fiz a frequência, e depois fui levar a Maria da Luz a casa. Fez-me entrar, arranjou um opíparo lanche, e a seguir sentou-se ao pé de mim, começou-me a falar da vida dela, e é melhor ficarmos por aqui. O resto não lhe conto, porque a discrição é um princípio que tenho sempre presente, sobretudo nas minhas relações com as senhoras. Acredite que a Maria da Luz é uma rapariga muito interessante, apesar de não ter grandes dotes de beleza.

Eram quase dez da noite quando me despedi dela. Quando cheguei a casa, a minha mãe dormia em frente à televisão. Sentei-me e mudei o canal. Acordou imediatamente, espantada.

– Maurício, onde estiveste? É tão tarde.

– Olá, mãe. A frequência acabou mais tarde, porque nos deram mais tempo para escrever. – Esta foi inventada, porque não queria contar que tinha lanchado com a Maria da Luz.

– Comeste alguma coisa?

– Sim, uma sanduíche no bar. Mas bebo a tua sopinha, que cheira bem.

– Trago-ta já.

Bebi a sopa, procurando mostrar que estava esfaimado. Quando acabei, a Heloísa já estava mergulhada novamente na telenovela, uma história muito complicada de duas senhoras brasileiras, muito ocupadas a darem cabo da vida uma à outra. Pelo menos foi o que conclui do pouco que vi. Não me sentia inclinado a continuar a acompanhar a história, e assim que percebi que a minha mãe dormia, levantei-me com todo o cuidado para nãoa acordar, e, como tinha uns trocos comigo, fui até ao café.

Fechei a porta silenciosamente e, enquanto descia a escada, ia pensando em como a minha mãe, apesar de dormir todo o tempo em frente à televisão, conhece profundamente as tramas das várias telenovelas, de tal modo que é sempre a explicadora máxima das dúvidas que se levantam sobre as peripéciasdiárias, quandosão discutidasnas conversas na Esplendorosa. A D. Gertrudes Acabadinho e a D. Josefarecorrem a ela constantemente para obterem esclarecimentos precisos. Pensando nestas matérias complexas, fui até à pastelaria que ainda estava aberta apesar da hora tardia, comas mesas da esplanadatotalmente ocupadas. Ainda não era meia noite e, como não fazia vento, o tempo estava um pouco abafado. Entrei, e felizmente o ar condicionado estava a funcionar. Fui até ao balcão, e dirigi-meao senhor Serafim, que é ali empregado há muitos anos.

– Boa noite, Sr. Serafim. Posso beber um café e um whisky, por favor?

– Porque não havia de poder? Esteja à vontade.

Paguei e fui-me sentar numa mesa vaga. A sala da Esplendorosa é grande, e está dividida por um mostruário em vidro e metal, cheio de garrafas e caixas de chocolates (julgo que são chocolates, não tenho a certeza, pois nunca procurei vê-los de perto). A mesa fica mesmo em frente à porta. O Sr. Serafim trouxe o café e o whisky, e eu comecei a saboreá-los. Tentei recordar o meu dia, que tinha sido bastante positivo, em vários aspectos.Sentia já uma agradável sonolência. De repente, oiço uma autêntica casquinada do outro lado do mostruário:

– D. Henriqueta, – exclamou uma voz que reconheci imediatamente. –olheque o cafezinho vai tirar-lhe o sono.

Espreitei cuidadosamente por entre as garrafas e as caixas de chocolates. A voz aguda era a da Maria Antónia! Estava ali tomando café com a sua patroa, D. Henriqueta, a D. Josefa da mercearia, o marido desta, o Sr. Joaquim, e uma senhora que me pareceu já ter visto em qualquer parte, mas não reconheci imediatamente.

Fiquei sentado mais uns minutos, muito quieto. Do outro lado, o convívio continuou animadamente. Não procurei acompanhar a conversa, até porque não gosto de bisbilhotices. Respirei fundo, levantei-me o mais discretamente que pude, acenei para o Serafim, que enxugava pires e chávenas ao balcão, e esgueirei-me porta fora.

Subia a rua, já quase ao pé de casa, quando consegui recordar-me de quem era a senhora que confraternizava com a Maria Antónia e restantes convivas, do outro lado do mostruário. Era a dona da pensão, perto da Almirante Reis, onde era “atendido”, pela Maria Antónia e outras “colegas”! Veja bem onde estou metido! Felizmente, que quando cheguei a casa, a minha mãe continuava a dormir em frente à televisão, que dava um programa desportivo, a que ela nunca deve ter ligado absolutamente nada.

 

 

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