(Continuação)
Retalharem e dividiram entre si boa parte destas terras: a Lusitânia e a Cartaginense para os Alanos, uma porção da Galécia para os Vândalos, mas a maior extensão para os Suevos. Da Bética apossaram-se os Silingos, ramo dos Vândalos. Alguns territórios ficaram fora do domínio daqueles invasores, continuando, portanto, entregues a hispano-romanos.
Linguisticamente, estas foram invasões com escassos efeitos sobre os falares que vieram encontrar aqui. Apenas aos Suevos, que se detiveram mais tempo em territórios hoje pertencentes a Portugal, se atribuiu a imposição de alguns vocábulos, como broa, feltro e laverca, o que afinal carece de confirmação.
Cerca de 414 foi a vez dos Visigodos. Conseguiram dominar a Hispânia, mas adaptando-se ao que nela vieram encontrar. Para isso também contribuiu o facto de a sua romanização já estar bastante avançada quando aqui chegaram. Daí facilidades tanto para o seu estabelecimento como para, em curto espaço de tempo, serem assimilados pela população hispano-romana. A influência que exerceram nos usos e costumes de aquém-Pirenéus foi reduzida, incluindo o aspecto idiomático. Só lhes podemos agradecer alguns vocábulos comuns, além dos também poucos aqui recebidos por via do latim castrense ainda em tempos de efectivo domínio romano, como albergue, elmo, trégua, guerra, etc. Isto porque, como se sabe, o exército imperial também aceitava o alistamento de soldados visigodos. Não abundam os exemplos dessa exportação local do idioma visigótico no que respeita a nomes comuns, ao contrário do que se verifica na toponímia, pois é elevado o número de nomes se sítios por eles legados. Estes oferecem duas particularidades: muitos originariamente eram antropónimos; grande parte dos peninsulares estão situados no Noroeste desta Península. […] Afinal os 300 anos de domínio de todos estes germanos cedo romanizados linguisticamente pouco nos legaram, ao contrário do que ia acontecer com a invasão seguinte.
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Em 711, Tárique, à frente de um exército muçulmano, desembarcou e estabeleceu-se junto do rochedo que por isso passou a denominar-se Gibraltar, do árabe jebalTariq, «monte de Tárique». Começava uma das mais profundas alterações na vida peninsular, sob o ponto de vista linguístico com particularidades curiosas. A nova presença (durou cerca de nove séculos) em nada alterou a fonética, a morfologia e a sintaxe dos falares neolatinos então aqui em uso; ao contrário, muito enriqueceu os respectivos léxicos, com nomes comuns e com formas onomásticas, sobretudo topónimos; na antroponímia pouco se lhes ficou a dever e mesmo desse pouco a maior percentagem teve vida breve.
No caso português, ficaram elevada percentagem de substantivos, raros adjectivos e creio que só um advérbio (debalde). O seu número foi aumentando com o andar dos anos, até ao século XII; isto é, aumentava à medida que as armas portuguesas reduziam a área dos territórios sob domínio islâmico. No Vocabulário Português de Origem Árabe apresento (p. 155) uma tentativa de balanço dessa importação lexical. E assim temos por quantidades: século IX, 1; século X, 9; século XI, 17; século XII, 36; por especialidades: guerra, 18; vida rural, 7; comércio, 6; vestuário, 6; impostos, 5; cargos públicos, 5; objectos domésticos, 5; vida urbana, 4; plantas, 3; alimentação, 2; nomes dos animais, 1.
Em relação à actualidade verifiquei o desaparecimento de 34, ao passo que 29 continuam em uso. Mas a invasão islâmica, se em curto espaço de tempo conseguiu a unidade política da Hispânia, em breve aparecia dividida em duas partes, a da Cruz e a do Crescente, com fronteiras imprecisas, ao sabor da sorte das armas.
Duas partes, cada uma depois subdividida, chegando-se às numerosas cidades-estados, por vezes de existência efémera nas zonas de obediência à fé islâmica. Com condicionalismo e restrições, em Portugal manteve-se esse contacto entre as duas populações, enquanto os Mouros não emigraram, uns, ou não foram assimilados, outros.
Voltámos a contactá-los em algumas das regiões onde chegámos levados pela empresa dos descobrimentos. Daí o nosso léxico reforçar-se com mais elementos árabes em Marrocos e depois no Oriente.
Por outro lado, não esqueçamos o quanto emigrantes da Ásia Menor já impuseram à língua portuguesa no Brasil, tanto nomes comens como antropónimos.
Fontes da mesma natureza mas situadas em diversos locais, todas só a enriqueceram na área lexical, dadas as diferenças de mecânica e de estrutura entre os dois idiomas. Reconheça-se ainda que de longe a parcela mais rica e mais significativa foi a conseguida no Ocidente hispânico. A Galécia romana, depois sueva, logo integrada na monarquia visigoda, cedo revelou características próprias que explicam e justificam a sua existência. Quando sofreu o assalto de tropas islâmicas, já se reconhecia a persistência das subdivisões previstas e reconhecidas pelos Romanos, encabeçadas por Lucus e Bracara, separadas pelo Minius. A primeira tornar-se-ia a Galiza, integrada depois na Espanha, com a decadência de Lugo (o sucessor do conventus de Lucus) e o elevado prestígio de Santiago de Compostela. A segunda impôs-se com a sua capital em Braga (a conservar a autoridade e a designação do outro conventus, o de Bracara).
Duas regiões que se prestigiaram, como prestigiaram em conjunto o Noroeste da Península, cada qual com o seu dialecto da variante neolatina que foi o galego-português. Por aí sofreu-se o domínio político germânico, breve mas que por lá deixou nomes de povoações; depois o intenso e duradouro domínio muçulmano na Península, breve por ali, cujo idioma, o árabe, como se viu, deixou nas terras portucalenses (cristianizadas e independentes a partir das zonas bracarenses) numeroso e variado vocabulário (nomes comuns e topónimos), mas nada, acentue-se, nos campos da morfologia, da fonética e da sintaxe. Imposição das tão diferentes estruturas dos dois idiomas em presença. Isto enquanto o legado linguístico dos Romanos se impunha, enriquecia e ilustrava com os resíduos de dominadores e o contributo cultural de mosteiros erguidos onde julgados necessários. A Reconquista fazia-se com armas e impunha-se com a cultura. O latim dos cultos voltava a prestigiar-se perante o popular numa das suas modalidades modernas, a que se chama português.
(Continua)
