SOBRE A LÍNGUA PORTUGUESA – 1 – por Manuel Simões

É um tema recorrente neste blogue – o da língua portuguesa e as suas origens. Temos leitores em todos os países de língua portuguesa e, portanto, este é um assunto com grande importância para todos os luso-falantes. A partir de hoje e durante alguns dias vamos apresentar alguns textos e vídeos sobre esse assunto. Começamos com este texto de Manuel Simões. Já o publicámos antes, com leves diferenças. Voltamos a editá-lo, pois parece-nos um bom ponto de partida para um eventual debate. Continuamos amanhã com um vídeo comentado por Carlos Durão.

Como aconteceu com outras línguas românicas, o português (e o galego) foi o resultado da evolução do latim transplantado no ocidente hispânico pelas legiões e pelos colonizadores romanos (202 a.C.), isto é, o latim falado, o“sermo cotidianus” ou “latim vulgar”, enriquecido mais tarde pelo latim “culto” da escrita administrativa e jurídica, da literatura e da terminologia científica.

Como referiu José Pedro Machado, «pouco sabemos dos idiomas que o latim vulgar veio encontrar na Hispânia, incluindo os das zonas onde, passados séculos, viria a utilizar-se a nossa linguagem» (“Breve História da Língua Portuguesa”, s/d, p. 8). No entanto, sabe-se que as populações autóctones da faixa ocidental atlântica eram, em parte, de origem celta (os “Gallaeci”, secção central e centro-meridional) e em parte talvez de cultura ibérica, ou melhor celto-ibérica (os “Lusitanos”, secção centro-meridional e meridional).

A coexistência do latim com as línguas autóctones acabou por produzir uma série de alterações como, por exemplo, nas províncias romanas da “Gallaecia” e da “Lusitania”, onde a língua dos conquistadores teve que confrontar-se com um substrato não homogéneo, produzindo uma interacção linguística com resultados diferentes, consoante os contactos com os falares celtas ou com os falares lusitanos.

As invasões germânicas e árabe confirmaram mais tarde a diversidade primitiva, com a separação entre uma Galiza dominada pelos suevos e depois só marginalmente arabizada, e uma Lusitânia primeiro visigótica ( os visigodos chegaram à Hispânia por voltas do ano 414) e depois longamente sob o domínio muçulmano( Tarik desembarcou em Gibraltar em 711). Ao Norte, o dinamismo das línguas celtas e a limitada presença de centros urbanos deram ao latim uma marca inovativa, com a presença limitada de arabismos; o Sul, talvez pela mais intensa latinização inicial, conservou melhor, entre os chamados “moçárabes”, o vocalismo e o consonantismo latinos, acolhendo, porém, numerosos arabismos (quase exclusivamente lexicais), dada a prolongada presença muçulmana.

A história do português – como de todas as línguas hispânicas – é de facto marcada por um acentuado “setentrionalismo” fonético e fonológico e, ao mesmo tempo, por um notável “meridionalismo” lexical, quer dizer, as modalidades linguísticas formadas sobre e do latim nos reinos setentrionais, estenderam-se progressivamente, seguindo os exércitos cristãos, para o centro e para o sul do país, absorvendo e quase anulando o “moçarábico”, o qual, todavia, foi o veículo de transmissão, na nova língua em formação, de numerosos termos árabes e mais raramente “moçárabes”.

A divisão da antiga “Gallaecia” em dois condados (Galiza a Norte e “Portu Cale” a Sul) teve como consequência a reconquista dos territórios árabes pelo condado do Sul, o de “Portu Cale” – que se estendia entre os rios Minho e Douro – excluindo o outro, que se fechou sobre si próprio, embora, do ponto de vista linguístico, o facto não tenha tido grande relevância, visto que a língua imposta pelo conquistador durante a marcha para o Sul foi a língua de tipo “galego”. E contemporânea ao impulso meridional dos outros reinos cristãos da península ibérica, a reconquista do território até aoTejo (culminada com a tomada de Santarém em 15 de Março de 1147 e de Lisboa em 14 de Outubro do mesmo ano) desloca progressivamente para o centro do país o eixo político e linguístico do antigo condado “Portucalense”, deslocamento reforçado pela sucessiva expansão no Alentejo e no Algarve. Entretanto, já alguns anos antes, o reconhecimento papal de Portugal como reino independente tinha decretado a definitiva separação política, que se tornará progressivamente também linguística e cultural, entre a Galiza e Portugal.

De qualquer modo a reconquista subverte a ordem da Hispânia romana e da suevo-visigótica, visto que as novas unidades políticas e linguísticas não coincidem com nenhuma das divisões administrativas antigas: a Galiza é só uma parte da “Gallaecia”, que compreendia também as actuais regiões das Astúrias, do León setentrional e de Castela, tal como a Lusitânia, que se estendia até às actuais províncias de Salamanca, Mérida e Talavera de la Reina. Isto significa que o reino fundado por D. Afonso Henriques unifica territórios diversos, os quais formaram o espaço ao longo de quase toda a faixa ocidental da península.

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Bibliografia consultada:

G. Tavani, Preistoria e protostoria delle lingue ispaniche, L’Aquila, 1968;

Ivo Castro, Curso de história da língua portuguesa, Lisboa, 1991;

José Pedro Machado, Breve História da Língua Portuguesa, Lisboa, s/d.

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