BREVE HISTÓRIA DA LÍNGUA PORTUGUESA (excertos) – 2- por José Pedro Machado

 (Continuação)

 

Retalharem e dividiram entre si boa parte destas terras: a Lusitânia e a Cartaginense para os Alanos, uma porção da Galécia para os Vândalos, mas a maior extensão para os Suevos. Da Bética apossaram-se os Silingos, ramo dos Vândalos. Alguns territórios ficaram fora do domínio daqueles invasores, continuando, portanto, entregues a hispano-romanos.

Linguisticamente, estas foram invasões com escassos efeitos sobre os falares que vieram encontrar aqui. Apenas aos Suevos, que se detiveram mais tempo em territórios hoje pertencentes a Portugal, se atribuiu a imposição de alguns vocábulos, como broa, feltro e laverca, o que afinal carece de confirmação.

Cerca de 414 foi a vez dos Visigodos. Conseguiram dominar a Hispânia, mas adaptando-se ao que nela vieram encontrar. Para isso também contribuiu o facto de a sua romanização já estar bastante avançada quando aqui chegaram. Daí facilidades tanto para o seu estabelecimento como para, em curto espaço de tempo, serem assimilados pela população hispano-romana. A influência que exerceram nos usos e costumes de aquém-Pirenéus foi reduzida, incluindo o aspecto idiomático. Só lhes podemos agradecer alguns vocábulos comuns, além dos também poucos aqui recebidos por via do latim castrense ainda em tempos de efectivo domínio romano, como albergue, elmo, trégua, guerra, etc. Isto porque, como se sabe, o exército imperial também aceitava o alistamento de soldados visigodos. Não abundam os exemplos dessa exportação local do idioma visigótico no que respeita a nomes comuns, ao contrário do que se verifica na toponímia, pois é elevado o número de nomes se sítios por eles legados. Estes oferecem duas particularidades: muitos originariamente eram antropónimos; grande parte dos peninsulares estão situados no Noroeste desta Península. […] Afinal os 300 anos de domínio de todos estes germanos cedo romanizados linguisticamente pouco nos legaram, ao contrário do que ia acontecer com a invasão seguinte.

***

Em 711, Tárique, à frente de um exército muçulmano, desembarcou e estabeleceu-se junto do rochedo que por isso passou a denominar-se Gibraltar, do árabe jebalTariq, «monte de Tárique». Começava uma das mais profundas alterações na vida peninsular, sob o ponto de vista linguístico com particularidades curiosas. A nova presença (durou cerca de nove séculos) em nada alterou a fonética, a morfologia e a sintaxe dos falares neolatinos então aqui em uso; ao contrário, muito enriqueceu os respectivos léxicos, com nomes comuns e com formas onomásticas, sobretudo topónimos; na antroponímia pouco se lhes ficou a dever e mesmo desse pouco a maior percentagem teve vida breve.

No caso português, ficaram elevada percentagem de substantivos, raros adjectivos e creio que só um advérbio (debalde). O seu número foi aumentando com o andar dos anos, até ao século XII; isto é, aumentava à medida que as armas portuguesas reduziam a área dos territórios sob domínio islâmico. No Vocabulário Português de Origem Árabe apresento (p. 155) uma tentativa de balanço dessa importação lexical. E assim temos por quantidades: século IX, 1; século X, 9; século XI, 17; século XII, 36; por especialidades: guerra, 18; vida rural, 7; comércio, 6; vestuário, 6; impostos, 5; cargos públicos, 5; objectos domésticos, 5; vida urbana, 4; plantas, 3; alimentação, 2; nomes dos animais, 1.

Em relação à actualidade verifiquei o desaparecimento de 34, ao passo que 29 continuam em uso. Mas a invasão islâmica, se em curto espaço de tempo conseguiu a unidade política da Hispânia, em breve aparecia dividida em duas partes, a da Cruz e a do Crescente, com fronteiras imprecisas, ao sabor da sorte das armas.

Duas partes, cada uma depois subdividida, chegando-se às numerosas cidades-estados, por vezes de existência efémera nas zonas de obediência à fé islâmica. Com condicionalismo e restrições, em Portugal manteve-se esse contacto entre as duas populações, enquanto os Mouros não emigraram, uns, ou não foram assimilados, outros.

Voltámos a contactá-los em algumas das regiões onde chegámos levados pela empresa dos descobrimentos. Daí o nosso léxico reforçar-se com mais elementos árabes em Marrocos e depois no Oriente.

Por outro lado, não esqueçamos o quanto emigrantes da Ásia Menor já impuseram à língua portuguesa no Brasil, tanto nomes comens como antropónimos.

Fontes da mesma natureza mas situadas em diversos locais, todas só a enriqueceram na área lexical, dadas as diferenças de mecânica e de estrutura entre os dois idiomas. Reconheça-se ainda que de longe a parcela mais rica e mais significativa foi a conseguida no Ocidente hispânico. A Galécia romana, depois sueva, logo integrada na monarquia visigoda, cedo revelou características próprias que explicam e justificam a sua existência. Quando sofreu o assalto de tropas islâmicas, já se reconhecia a persistência das subdivisões previstas e reconhecidas pelos Romanos, encabeçadas por Lucus e Bracara, separadas pelo Minius. A primeira tornar-se-ia a Galiza, integrada depois na Espanha, com a decadência de Lugo (o sucessor do conventus de Lucus) e o elevado prestígio de Santiago de Compostela. A segunda impôs-se com a sua capital em Braga (a conservar a autoridade e a designação do outro conventus, o de Bracara).

Duas regiões que se prestigiaram, como prestigiaram em conjunto o Noroeste da Península, cada qual com o seu dialecto da variante neolatina que foi o galego-português. Por aí sofreu-se o domínio político germânico, breve mas que por lá deixou nomes de povoações; depois o intenso e duradouro domínio muçulmano na Península, breve por ali, cujo idioma, o árabe, como se viu, deixou nas terras portucalenses (cristianizadas e independentes a partir das zonas bracarenses) numeroso e variado vocabulário (nomes comuns e topónimos), mas nada, acentue-se, nos campos da morfologia, da fonética e da sintaxe. Imposição das tão diferentes estruturas dos dois idiomas em presença. Isto enquanto o legado linguístico dos Romanos se impunha, enriquecia e ilustrava com os resíduos de dominadores e o contributo cultural de mosteiros erguidos onde julgados necessários. A Reconquista fazia-se com armas e impunha-se com a cultura. O latim dos cultos voltava a prestigiar-se perante o popular numa das suas modalidades modernas, a que se chama português.

 (Continua)

 

 

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  1. DOCUMENTO HISTÓRICO—-

    Jornal «O MUNDO PORTUGUÊS», Rio de Janeiro, 28 de Setembro de 1958//TEXTO INTEGRAL//ENTREVISTA “ESQUECIDA” DO GENERAL HUMBERTO DELGADO

    (ortografia meio brasileira, meio portuguesa. )OLIVENÇA E O GENERAL HUMBERTO DELGADO [NOTA À MARGEM DO TEXTO ORIGINAL:nasc. 15-maio-1906 em Torres Novas, freg. Brogueira/fal., assassinado, pela Polícia Política Portuguesa P.I.D.E., a 13 de fevereiro de 1965, próximo de Olivença, em “Los Almerines”, diante de São Rafael; FIM DA NOTA]

    (fotografia: o General falando com um jornalista, com a legenda:«O Gen. Humberto Delgado falando a O MUNDO PORTUGUÊS»)(1.ª Página)

    COMO FALOU, A “O MUNDO PORTUGUÊS”, O ANTIGO CANDIDATO À PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA – DEVEM TODOS OS PORTUGUESES SER GRATOS AS BRASILEIROS PELA SOLIDARIEDADE MANIFESTADA NESSA JUSTA E PATRIÓTICA CAUSA

    Lisboa, setembro de (19)58 (Da Delegação) – Serenado o ambiente de paixões que todos os atos eleitorais justificam, em Portugal e em toda a parte do mundo, adquirida a calma com que devem ser enfrentados todos os assuntos, quis a reportagem de O MUNDO PORTUGUÊS escutar a palavra do General Humberto Delgado, cuja carreira de soldado é das mais brilhantes que se conhecem, sobre o caso de Olivença, que tanto vem interessando (Página interior) todos os portuguêses e os seus irmãos brasileiros.

    Fomos encontrar o ilustre militar num cenário apropriado, pois o local tinha ao fundo a Bandeira do «Grupo Dos Amigos de Olivença», o que nos inspirou a não perder a oportunidade de uma breve palestra com Sua Ex.cia, tão certos estamos de que este digno português deseja, tanto como nós, ver solucionada a situação de Olivença, que a Espanha administra, contrariando os Tratados que ela mesma assinou. Encetamos, pois, as nossas perguntas:

    O MUNDO PORTUGUÊS – Como encara V. Excia a criação do Grupo Brasileiro dos Amigos de Olivença?

    General Humberto Delgado – É a mais viva demonstração de que o Brasil vibra intensamente pelos eventos e anseios da Pátria Irmã, a despeito da distância e dos interêsses geo-políticos que nos separam. Como português, sinto-me profundamente sensibilizado e reconhecido a todos os que têm tomado parte nesta sentimental idéa, particularmente aos senadores e deputados que dela participam, como sejam os senhores Luiz Teixeira, Benjamim Farab e muitos outros.

    O MUNDO PORTUGUÊS – Acredita que a Espanha reconsiderará de sua atitude e entregará, como deve, Olivença?

    General Humberto Delgado – Sem tergiversar, direi: acredito que a Espanha um dia entregará Olivença; porém, não creio que o faça espontaneamente, sem pressão nossa.

    O MUNDO PORTUGUÊS – Acredita V. Excia que os governos dos dois países teriam facilidade em resolver amigàvelmente o caso de Olivença?

    General Humberto Delgado – Depende dos governos. Os atuais, pelas ligações contratuais diplomáticas que estabeleceram e pelas extraordinárias afinidades dos seus regimes, estão, no meu entender, em excelente posição para dar início imediato a tais negociações.

    O MUNDO PORTUGUÊS – Se V. Excia tivesse sido eleito Presidente da República, que diligências faria para a devolução de Olivença?

    General Humberto Delgado – Em primeiro lugar é necessário que se saiba que o Presidente da República, pela atual Constituição, só tem uma função concreta: nomear e demitir o Presidente do Conselho de Ministros [NOTA À MARGEM DO TEXTO: Primeiro-ministro;FIM DA NOTA]. Todas as outras se expressam em eufemismo. Uma delas é a de que dirige a política externa, quando se sabe muito bem que êle não pode dar um passo nesse terreno, sem a referenda [SIC] exigida pela Constituição, o que compete ao Presidente do Conselho e ao ministro da respectiva pasta.Dentro deste quadro, direi que procuraria estabelecer as directivas mais convenientes para que o Govêrno, logo que estabilizado em sua nova forma, apresentasse à Espanha a necessidade de se estabelecerem negociações no sentido em causa. A Espanha nada teria que se admirar,pois, perdida a Praça de Olivença em 1801, pelo Tratado de 1815 bem especificado ficou que aquela deveria voltar ao país a que pertencia. E a Espanha sabe igualmente que continuamos a não aceitar a delimitação de fronteiras naquela área. Nada teria que se admirar, enfim, quando pretende reivindicar Gibraltar, que perdeu em 1704, apesar de concordar deixá-la nas mãos dos inglêses. A Espanha fidalga, cujo espírito cavalheiresco se retrata na criação de um «Dom Quixote», a Espanha, terra dos «filhos de algo», deve ser a primeira a compreender a fidalguia dos outros.

    O MUNDO PORTUGUÊS – Como Presidente da Assembleia Geral do «Grupo dos Amigos de Olivença», que medidas pensa que êsse grupo deve tomar no presente momento?

    General Humberto Delgado – Apresentar ao Govêrno o pedido para que sejam [abertas?] imediatas negociações com Espanha. Claro que só aquêles que vêem o assunto superficialmente poderão julgar que a entrega do território não contém problemas importantes e demorados a resolver, tais como os de propriedade, nacionalidade, e outros inerentes às minorias e aos direitos do homem. Mas o que importa é assentar na aceitação do princípio de que sejam entabuladas negociações.

    O MUNDO PORTUGUÊS – Considera o caso de Olivença um caso local em relação à ordem geral, ou um caso geral em relação ao caso universal?

    General Humberto Delgado – É uma pergunta um pouco embaraçosa… Mas, como sabe, passo rápido sobre os embaraços… Claro que, semelhantes ao caso de Olivença, haverá outras, embora menos típicas. Visto assim, entraria pois na categoria do caso geral. Contudo, apresenta um saber especìficamente local, pois que oferece diminuta importância territorial, comparada ao «espinho sentimental…». Esta característica sentimental resuma [?] clara da sua posição geográfica além do Guadiana, rio que poderia tomar-se como fronteira natural. De fato, porém, Portugal é muito mais uma unidade política do que geográfica, por mais que cientistas ou sonhadores nos queiram convencer da existência de uma evidente zona geo-morfológica no jardim ocidental da Europa…

    O MUNDO PORTUGUÊS – Já havíamos escutado aquilo que supomos realmente importante para os nossos leitores. As palavras de um General ilustre, de um aviador distinto e de um português leal, merecem todo o nosso respeito. Aqui as deixamos ao devido apreço.

    [FIM DO “ARTIGO”]

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