Texto JF, Edição 102, Novº 2014 www.jornalfraternizar.pt.vu
Decidiu a Academia Pontifícia das Ciências homenagear o papa Bento XVI, agora emérito, mas nada distraído dos passos dados pelo seu sucessor. A homenagem consistiu em mandar fabricar um busto em bronze, para pôr à adoração dos fiéis, não na Basílica de São Pedro, o Negador-mor de Jesus e o seu principal Tentador/Satanás, mas noutros locais frequentados por gente de primeira, a fina intelectualidade católica, de mãos bacteriologicamente limpas, porque, na realidade, mais do que sujas de sangue, o das suas inúmeras vítimas que crescem cada vez mais em número e em humilhação, na mesma proporção em que a intelectualidade cresce em grandeza e em distanciamento da realidade/verdade, sempre incómoda, porque interpeladora, desinstaladora.
À homenagem, associou-se outro peso pesado, o papa Francisco, o tal que escolheu o nome de Francisco de Assis, mas sempre de olhos postos no pai dele, na sua gigantesca fortuna e na sua decisiva influência no mundo dos negócios. Papa emérito exige presença de papa em exercício. Ou a homenagem não é homenagem que se apresente. O mais espantoso é que o papa Francisco não se poupou nos piropos ao seu antecessor e espia, na Cúria, uma vez que Bento XVI só aceitou sair do trono, com a condição de manter até à morte todas as honras de papa em exercício, ficar a viver no Vaticano, numa enorme mansão 5 estrelas, manter ao seu serviço dia e noite as mesmas freiras que o serviam quando estava em exercício de funções, juntamente com o seu secretário, a quem, antes de resignar, teve o cuidado de entronizar entre os graúdos da Cúria, num lugar que lhe dá permanente acesso a tudo o que é decisivo no dia a dia do papado.
Os elogios do papa Francisco são tantos e tais, que garantem, desde já, que Bento XVI seguirá o exemplo de João Paulo II e será canonizado, pouco depois da sua morte, uma vez que acaba de ser já canonizado em vida pelo fabricador de santos, n.º 1, o papa de Roma. Até os crimes da pedofilia do clero que Bento XVI encobriu e estimulou outros bispos a encobrir, e os crimes de perseguição aos teólogos católicos da teologia de libertação, mais todas as falcatruas com que ele pactuou na Cúria romana e que conhece como ninguém, sem nunca as ter dado a conhecer à igreja e ao mundo, apenas ao seu sucessor, acabam transubstanciados em outras tantas virtudes heróicas pelo papa Francisco.
Um mínimo de decoro, no papado, é coisa de todo impensável. Para alguma coisa os clérigos se arrogam do poder de transubstanciar as hóstias e o vinho do cálice das missas em corpo e sangue de Cristo, e dá-lo a comer e a beber aos grandes fabricadores de vítimas, e também a estas. Àqueles, para que sejam cada vez mais eficazes nos seus crimes; a estas, para que sejam cada vez mais resignadas na sua condição de vítimas. O busto em bronze fica, assim, a atestar ao mundo toda a podridão que grassa na Cúria romana, e no ser-viver quotidiano dos papas, chamem-se eles Paulo VI, João Paulo II, Bento XVI ou Francisco. Mudam os nomes e os tiques papais, mas a podridão e a corrupção da Cúria romana são cada vez maiores. Realmente, já não há pachorra, para tanto descaramento eclesiástico! Quem puder fugir, que fuja!
