As atenções do Ocidente concentraram-se todas ontem na Alemanha. Completavam-se 25 anos sem o Muro de Berlim, ou da Vergonha, como lhe chamaram. O poder que o ergueu, também o derrubou e agora festejou. Estava a impedir o crescimento do muro que separa os muito ricos dos muito pobres. Caiu aquele, para que este, agora, global, possa crescer sem entraves. E ele não pára de crescer, a cada momento que passa, também neste em que escrevo/digo esta crónica, e alguém a lê/visiona/escuta. A festa dos 25 anos andou ontem pelas ruas de Berlim, com todos os figurões do poder político e financeiro, a um lado, alguns milhares de cidadãos anónimos, a outro lado; e milhares de balões de luz a iluminar os ares, por uns instantes. As festas do poder são extremamente infantiis. Revelam populações a milhares de anos-luz da própria autonomia. O poder condenou-nos a ser galinhas de capoeiro, de mercado, com brinquedos electrónicos nas mãos, mil e uma chupetas na boca, animais de hábitos e de rotinas. E nós, infantis que somos, gostamos, contanto que não nos falte a ração de cada dia. Nesses dias, vestimos a máscara da festa e dizemos que há festa. As tvs do poder instalam-se todas nos locais, para os directos. No final, apagam-se as luzes, a escuridão toma, de novo, conta das nossas mentes-consciências e, no dia seguinte, lá estamos todos, cada qual com a sua tarefa, no galinheiro. Os escravos deste início do terceiro milénio são iguais aos das pirâmides do Egipto, com algumas diferenças. Aqueles tinham consciência de ser escravos. A própria ordem estabelecida era assim que os designava. Nós, os deste início de terceiro milénio, temo-nos por mais ilustrados, e, até, dizemos que a escravatura já foi abolida. Somos ainda mais cegos que os das pirâmides do Egipto. O poder aboliu o conceito, Escravo, não aboliu a realidade, Escravatura. E, ao contrário daqueles, até, já desistimos de um mundo vasos comunicantes. Teríamos de crescer de dentro para fora, dispensar todo o tipo de messias/cristos/poder. E não estamos para maçadas dessas. Basta-nos ser galinhas ilustradas. Águias, nem pensar!
10 Novº 2014


