Correm tristes, de chumbo, os dias na Europa. As palavras são balas. Embrutecem, matam, quando mais somos famintos de vida, de sol, de lucidez. Os intelectuais suicidaram-se. Os poetas calaram-se. As cidades são grandes prisões a céu aberto. Erguemos novos muros de arame farpado nas fronteiras vigiadas por militares armados. Perdemos os olhos, as mãos, os beijos, os afectos. Já não há canções. Afogaram-se todas no mar Mediterrâneo. O que deveria ser ponte de lá para cá, de cá para lá, é agora um gigantesco necrotério. Jazem abandonados nas nossas praias os cadáveres de crianças das famílias que vêm até nós, exército armado de mãos famintas de um colo, de um tecto, de um beijo, feito pão e vinho, lareira acesa, mesa compartilhada. Há séculos, contam-lhes os seus antepassados com mais de quinhentos anos de idade, houve uns homens estranhos que também desaguaram nas suas praias. Armados de ambições, cobiças desmedidas que nada saciava. Com eles, iam também uns clérigos missionários cristãos, com a missão dada pelo seu Deus de doutrinar-submeter todos os povos até aos confins da terra. Não vinham por acolhimento, como os que agora vêm até nós. Não! Os seus olhos tinham o brilho do ouro que sabiam escondido naquele chão. Fizeram-se acolher por esses povos, e à sua Bíblia. Exibiram perante eles a cruz e a espada. A cruz, instrumento de tortura redentora do mundo. A espada, instrumento de matar em nome do Deus cristão quantos lhes resistissem. Esventraram o seu chão. O ouro extraído foi enriquecer a Europa. Até hoje. Enquanto sobre o chão esventrado e vazio, correu o sangue de milhares, milhões deles, imolados ao Deus cristão. Nunca mais as guerras deixaram aquele chão. Hoje, de tão mortíferas que são, levam milhares e milhares deles a fugir e a buscar abrigo do outro lado do Mediterrâneo, e acabam por morrer, mercadorias perdidas, nas nossas praias. Dos seus esbugalhados olhos faísca, perturbadora, a pergunta, Já são humanos os povos da Europa?!