Entre 1790 e 1795 a cidade de Évora viu-se alvoraçada, a revirar os olhos, perante a hipótese de possuir uma candidata a “santa”, residindo na Travessa do Pão Bolorento. Aconteceu que uma formosa donzela de 19 anos, chamada Ana de Jesus, trazia a vizinhança varejeira e beata quase fosfórica de crendice.
Fora confessor da mocinha um tal Frei João de Santa Teresa, religioso da Ordem dos Carmelitas Descalços, frade circunspecto que, parece, viveu e morreu em cheiro de
Mãos postas, quase sempre acamada à vista dos vizinhos, com tino e sensatez às carradas, implorando a Deus pelos pecados do mundo, a donzela ajudou a construir os enfeites habituais, secundada pelos pais que viam, assim, quanto a filha nascera fadada para um santo delírio que, às vezes, se revelava bom aliado do conchego material… em moeda corrente. Entretanto, a popularidade alcançada pela extravagância mística da jovem, cegou os olhos ao imprudente frade confessor. Vai daí declarou, para quem o quis ouvir, que Nosso Senhor lhe revelara que a 29 de Novembro de 1792 (dia de S. Miguel), cerca das 21,30 horas, a embrionada beata havia de morrer, dado ser essa a «vontade Divina». Isto é, expiaria a bela donzela no dia e hora em que fazia os seus vinte e dois anos!
Estava o frade a fabricar uma relojoaria delicada e complexa, capaz de o amarrar a uma “camisa-de-onze-varas”? Não me parece, nem por sombras, que o eclesiástico tivesse a ingenuidade de se expor àquela chocadeira de problemas, sem ter razões promissórias.
Bem analisado tudo isto, não senhor! O frade deveria entender que não exorbitava. Entretanto, anunciada a profecia por toda a cidade, mandou o Arcebispo, D. Fr. Joaquim Xavier Botelho de Lima, prelado avisado e prudente, que o frade confessor e o prior do Convento (involuntário e distante participante), saíssem de casa da mimosa Ana de Jesus, e ordenou a quatro clérigos da Sé que, por turnos, observassem a jovem dia e noite no cubículo que lhe servia de quarto. Na expectativa do que iria acontecer ficou a cidade em ânsias…
Passado o prazo assinalado pelo frade confessor, apesar de todo o fervor dos quatros clérigos enviados pelo Arcebispo, verificou-se que a moça estava de perfeita saúde. Enfim, os clérigos despediram-se da jovem madrepérola e seus pais, correndo a dar conta ao prelado sobre o “não-acontecimento”. Mas logo, logo a seguir, eis que corre após eles o pai da beata, dizendo que esta havia entregado a alma ao Criador, no mesmo instante em que eles saiam de sua casa. Voltaram à casa os perplexos clérigos e encontraram montada uma cena onde tudo batia certo como no teatro: a rapariga estava amortalhada no hábito de Santa Teresa e, entre tochas acesas, no esplendor da sua “felicidade mística”, rigorosamente estigmatizada (com as chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo!) ostentando uma coroa de espinhos na testa. Na sua pia ingenuidade, acreditaram os quatro clérigos da Sé no “milagre” da donzela em seu fofo leito e, assim, in promptu, foram apresentar o seu relatório ao Arcebispo, o qual encontrou os termos da história demasiado aparatosos.
Para maior compreensão da índole do frade confessor e sua exorbitante vocação, importa saber que este justificou o “atraso” na hora da morte da aluada moça, só ocorrida após a saída dos clérigos vigilantes, porque ele próprio isso lhe comunicara «espiritualmente» do Convento dado que, por «graça Divina», a jovem beata não podia morrer «sem permissão sua» … É escusado explicar de como ficaram atónitos os presentes com aquela “mágica” do frade. Fosse como fosse, o frade confessor em matéria de taumaturgia queria rivalizar com o nosso bom Santo António, com o suplemento de dar “ordens à morte” numa parceria com o além, como se isso fosse questão de horário num “escritório espiritual”.
Parece que a partir daqui se gerou alarido na Travessa e, como sempre sucede, o infalível salto no desconhecido: – Repicaram os sinos nalguns campanários da cidade e, arrastada no tasqueiro da vida, sombras anónimas de coxos, estropiados, cegos, paralíticos, corcundas e pustulentos com várias modalidades de chagas afluíram à casa da “santa” banhados em lágrimas, ranhosos e babados da espuma de muito dia de fome, crentes que a “santinha” lhes havia de curar mazelas corporais. Porém, se entravam na casa suados de esperança, dela acabavam por sair desconcertados e lamurientos, sem milagre algum à vista, por mais pequenino que fosse.
Enquanto todos acorriam a casa da “beata”, atiçados pelos supostos milagres (aleijados, vagabundos profissionais, quiçá ladrões dos quatro caminhos e pedintes), com diligência, persuadida que tudo corria bem, representava a donzela o seu entremez, quando chegou o frade confessor, disposto a salvaguardar para a sua Ordem as «graças» daquela “defunta”. Tal atrevido gerifalte da política dos nossos dias, o frade improvisou in loco um autêntico espectáculo com a aluada rapariga, capaz de impressionar a roda de vizinhos. Movido pela visão do êxito que supostamente estava a ter o “negócio”, afirmou que a moça deveria ser venerada, pois nela se “agasalhava” Deus e, além de apregoar as “virtudes” e benfeitorias da beata, resolveu esmaltar o conjunto com uns passes de “mágica”. Por conseguinte, voltou-se para a amortalhada “defunta” e disse-lhe:
«-Ana! Em virtude da santa obediência abre os olhos.». Obediente, ela os abriu, tamanhos como duas cebolas. «Ana! Cruza os braços». E a beata “morta” que os tinha estendidos, cruzou-os. «Ana! Abençoa todos quantos aqui estão!». E ela assim fez. Como as dádivas daquela maravilha ainda não satisfizessem o frade, todo envolvido na demonstração, mandou que a rapariga lhe declarasse onde se encontrava sua alma nesse instante… E ela respondeu que depois de “morta” já tinha ido ao Céu, lá havia encontrado Frei João de Santa Teresa que, por acaso, estava a dizer missa, pelo que lhe deu a beber metade do cálice.
A devota multidão já deveria ver anjos a poisar nos telhados, prontos a entrar pelas janelas das casas da Travessa do Pão Bolorento e, com eles, graças por cordas invisíveis, coroando o conjunto urbano uma auréola d’oiro celestial. Está bem de ver, com os improvisos do frade aumentou a multidão, e com esta aumentaram os desacatos. Parecia não haver força humana capaz de desalojar a turbamulta, estacionada na estreita Travessa.
Entenderam as autoridades que o caso estava a passar as “marcas” e, milagre ou não, a ordem pública tinha de ser mantida. Foi enviado para o local um destacamento do Regimento de Dragões, comandado pelo alferes João Inácio de Almeida Valejo que, mais ou menos espadeirada, dispersou a matilha ululante. Parece que o oficial tinha suspeitas… e praticava algum “excesso de zelo”. Para ele havia ali lábia a mais. Ficou, pois, de patrulha à casa da beata. Depois de sossegada a vizinhança, recolhidos os frades ao seu Convento, voltou o alferes à casa, postando-se de vigia à porta da amortalhada donzela. Eis que ouvi rumor de vozes no compartimento da casa onde repousava a “morta” e… viu-a sentada na cama muito à vontade, conversando descontraída com os pais. De si para si deve ter pensado o alferes: «Estão esgotados os últimos cartuchos!». A beata mal que o viu, estendeu-se ao comprido no leito, “deixando-se morrer” mais uma vez! Os pais, com uma presença de espírito que já era escandalosa, sustentavam a impostura, dizendo ao oficial que ela voltara à vida, entre uma e outra “morte”, por pequeno intervalo, apenas para lhes dizer em que lugar do Convento dos Remédios queria ser sepultada. Mas isto, está bem de ver, já era trapalhada em demasia…
Deu o oficial parte do que viu e ouviu ao Arcebispo. O prelado, cansado de tanto disparate, intenções duvidosas e demências, reunida a Câmara Eclesiástica de emergência tomou as medidas necessárias.
Entretanto, um poetastro local de nome um tanto gongórico (ou pseudónimo?), Manuel Pedro Pedegache, dono de raciocínio lógico fora do comum, o seu tanto anti-clerical, resolveu levantar a ponta do véu, mostrando com dialéctica astuta que a história da jovem beata caía pela base, abanada de ponta a ponta por enorme ridículo. E para que tal fosse sabido, deliciado com esta “novela” digna de um Harum-Al-Raschid de casa de hóspedes, fez circular por tascos e botequins, praças e pracetas da cidade, em particular folha volante o soneto que, manda a “lei “ da História, aqui se registe:
«Acredite sentado aos quentes lares
Nas noites invernosas do Janeiro,
Tendo em Carlos Magno o Sapateiro
As proezas cruéis dos Doze Pares.
Creiam que vem as bruxas pelos ares
A chupar as crianças no traseiro:
Comam quanto diz o gazeteiro
De casos, de sucessos singulares.
Porém, que uma beata amortalhada,
Com cara vermelha, o corpo mole,
E santa por um Frade apregoada,
Que respire: que os braços desenrole,
E seja por defunta acreditada!
Isto somente em Évora se engole!».
As autoridades enviadas para investigar a casa da beata “morta” (tanto eclesiásticas como judiciais e médicas) concluíram que a moça não tinha nada de “morta”, pelo contrário, era tão manhosa como saudável. Confirmadas as suspeitas de fraude, e espalhada a notícia, estalou a cólera e o rancor da população. Desta vez, porém, o povo amotinado queria dar cabo da “santa”, dos pais da mimosa comediante, do frade e de duas beatas velhas, conhecidas pelo nome de Latinas, que também haviam alimentado o improviso. Enfim, uma vez estabelecido o endosso das culpas, as autoridades determinaram a prisão de todos os actores da rábula.
A rapariga foi enclausurada no Recolhimento de Santa Marta, de forma a aprender alguma coisa de honesto e a arrepender-se da patifaria. O frade, que foi homem descomedido (será que se tomou de amores pela rascoa rapariga?), fechou-se no Convento dos Remédios, pressentindo que o podiam escangalhar à pancada, mas acabou por ser recolhido pelas autoridades e depositado nos cárceres do «Tribunal da Fé» (Inquisição). Veio a ser sentenciado a 23 de Março de 1795, com pesada pena. Os pais da falsa morta, e demais sócios foram parar à prisão.
O escândalo, entretanto arrastado na vulgaridade do tempo, pouco a pouco acabou desfeito em cinzas e, por fim, já não valia dez réis de mel coado. Dizem as crónicas que, cumprida a pena, foi solta a rapariga, expoente doirado desta história, acabando mulher séria e casada com um soldado. Que quer o leitor?! Também não era caso para um libelo da Inquisição a escorrer sangue, como gostaria a propaganda anti-clerical…
A “falta de juízo” de parte da população da cidade, e substancial crendice e idolatria, acabou por constituir um fundo de ironia com que os forasteiros incomodavam a soberba tradicional dos eborenses. Assim, zombeteiros, atiravam à cara dos eborenses a frase estapafúrdia: «Então, já beijaram o pé à beata?»!
Para os intervalos das saturnais de feijão com orelheira de porco, não temos dúvida da bela teatrada que esta história ofereceu à época. O facto é que Manuel Maria Barbosa du Bocage aqui se demorou o tempo de um soneto, onde nos procura mostrar a carqueja da pravidade deste e daquele figurão:
«Não te crimino a ti, plebe insensata,
A vã superstição não te crimino:
Foi natural que o frade era ladino,
E esperta em macaquices a beata.
Só crimino esse herói de bola chata,
Que na escola de Marte inda é menino,
E ao falso pastor, pastor sem tino,
Que tão mal as ovelhas trata.
Item, crimino o respeitável Cunha
Que a frias petas crédito não dera,
A ser filósofo, como supunha.
Coitado! Protestou, com voz sincera
Fazer geral, contrida caramunha,
Porém, ficou pior que d’antes era!»
