DIA DA LÍNGUA MIRANDESA – Tempo de Fogo ou a Parábola do Gólgota – por Rogério Rodrigues

Tempo de Fogo ou a Parábola do Gólgota “Ninguém adivinha como falar cansa”, assim começa o romance de

Amadeu Ferreira, Tempo de Fogo, publicado em simultâneo com o mirandês La Bouba de Tenerie, de Francisco Niebro, o mesmo romance original em duas línguas, ambos publicados pela Âncora Editora, em Junho de 2011.

 

 

 

 

Em planos cronologicamente distintos, Frei António, o Cristo desta narrativa, assumindo o sofrimento como o caminho para a purificação (“há vários anos espero que me venham pedir contas da vida que levo” pg 109), Frei António faz a sua viagem até ao Gólgota, a Sé de Miranda, onde os algozes o esperam.

 

Frei António, o grande pregador da Quaresma, em sermões cuja ira de Deus aterroriza os pobres humanos, é vítima da intolerância, do ressentimento e da inveja. É o bode expiatório do totalitarismo religioso e moral de uma instituição como a Igreja Católica e o seu braço armado, a Inquisição.

 

Frei António é condenado pelo “nefando crime de sodomia”. Não fosse ele brilhante e os seus pecados seriam esquecidos como os de tantos outros padres e frades, bispos e afins. O romance assenta em bases históricas, em processos consultados na Torre do Tombo . É o relato, sem contemplações, da intolerância e do Bem transformado em Mal e do Mal transformado em Bem.

 

“Muitas vezes a natureza mais negra da alma humana, é aquela que se reclama de estar bem perto de Deus” (pg 133).

 

Mas é, por outro lado, no seu lirismo carregado de pudor, na rudeza da geografia e na violência crua do mundo rural, a apologia da palavra, em qualquer língua que seja (da charra mirandesa à fidalga portuguesa), a senha para o sagrado.

 

Com a palavra se proclama Deus, reflecte Frei António. Afastado de poder exercer, na sua plenitude, o sacerdócio, Frei António cuja homossexualidade indigna a devassidão, luxúria e gula dos abades e outros membros da nomenclatura totalitária da hierarquia da Igreja, reflecte na sua caminhada até ao Calvário, subindo a Costanielha, sabendo que há um madeiro-fogueira onde será queimado em auto-de-fé: “Se Deus fez o mundo, o céu e o inferno somos nós que os fazemos”.

 

Se o Frei António é a personagem-limite da narrativa, outras há que circulam à sua volta e que, de algum modo, foram afectadas por ele. Falemos da António Gonçalves, o Tolês por a sua avó ter sido queimada em Toledo, que, de regresso de uma festa, Frei António sodomizou, encostado a uma carvalheira, embriagado pelo calor e pelo vinho. Encontrar-se-iam anos mais tarde na leva dos cristãos-novos, suspeitos de judaizarem, a caminho da Inquisição de Coimbra. Seis anos depois, após a sua libertação, Antónío Tolês é o portador dos escritos do Frei António, antes de ser queimado, resgatados, do buraco de uma parede, 300 anos depois, pelo professor primário João Gabriel. As folhas que ainda conseguiram fugir à fogueira como acendalhas, resumem-se a um pequeno tratado sobre a palavra e a fala.

 

Outra personagem em que a homossexulidade atinge quase a dimensão da pureza, é Luís de Medina, de Medina del Campo, seu colega em Salamanca e onde Frei António passou, na sua expressão “tempos de saber, de pecado e felicidade” (pg 41).

 

Luís de Medina é expulso do convento. Denuncia Frei António antes de arder na fogueira em Valladolid. A confissão é mais uma declaração de amor do que uma simples e forçada denúncia.

 

Enquanto vai recordando, conclui que a verdadeira besta do Apocalipse é a inveja.

 

Os cristãos-novos são despojados dos seus bens. A ganância justifica-se com a religião. E num mundo concentracionário a luta pela sobrevivência, por vezes, opõe-se à dignidade. Pais denunciam os filhos, filhos denunciam os pais.

 

De que me acusam? Saberás depois.

 

Foi assim com a Inquisição, será assim com Hitler e Staline e em menor escala mas com semelhante arbitrariedade no fascismo lusito.

 

Conta-se uma anedota, não será bem uma anedota, antes uma metáfora do arbitrário, de um prisioneiro que, chegado ao Goulag foi interrogado por outro: “Quantos anos é que apanhaste?”.”Dez”, responde. “O que é que fizeste?” “Nada”. “Estás a mentir. Por nada são 20 anos”.

 

As personagens femininas são alvo de uma particular simpatia do romancista. Representam o sofrimento, mas também o sentimento, o mais genuíno e intenso, na miséria do seu quotidiano. Basta pensar em Maria Castra, Ludovina e Laurinda.

 

Laurinda é a figura trágica, mas aquela em que a carga poética é mais dolorosa e comovente.

 

Ainda não casara a uma semana sequer quando um dos guardas do meirinho lhe mata o marido que fora preso, acusado de práticas judaicas. Laurinda enlouquece. Começa a ser chamada A Doida da Teneria ( título do romance em mirandês). É presa com uma corda pela cintura a uma argola da parede.

 

E remete-se para sempre ao silêncio. Nunca mais dirá uma palavra. E Frei António começa a falar com ela. Porque, como diz o Evangelho de S. João:

 

“No começo existia a palavra.

 

A palavra estava com Deus.

 

E a palavra era Deus”.

 

Frei António acreditava na cura pela palavra. E começou a falar todos os dias com a Laurinda que o escuta com avidez.

 

Há uma dimensão bíblica neste episódio. Como se fosse Jesus a falar. O cabanal transforma-se num espaço sagrado. A austeridade de um cântaro de água. O tempo que é derrotado pela palavra. Fosse a palavra dita em latim, português, mirandês ou outra língua que fosse. A língua não tem pátria. A nossa língua é que é a nossa pátria.

 

Onanismo com Laurinda. Cena cheia de recato, com o desejo perfumado pelo silêncio. Ludovina , criada do padre, entregue mais tarde à cama do Vigário Geral que a usou e abusou até ao momento do aborto ( desmancho, como ainda hoje se diz no mundo rural) é, a par de Frei António, a personagem mais trágica do romance. Amou verdadeiramente e apenas um único homem, aquele com quem nunca teve relações: Frei António.

 

Matou-se, atirando-se das muralhas do castelo de Miranda, como se fora um anjo voador.

 

Miranda era então um espaço de intriga e de denúncia. É neste espaço de asfixia que Frei António será acusado da morte de Ludovina. Mas há uma mulher que o considera inocente. O medo instalara-se de tal forma naquela sociedade que o marido repreende-a de imediato. Podem ser vistos com o frade. Frei António, no último gesto de despojamento, sem medos mas também sem rancores, oferece-lhes a burra. Está condenado como o Cristo do “Grande Inquisidor” das páginas de um romance de Dostoievsky. Diz o Torquemada a Cristo encarcerado: Temos que te matar para continuarmos a viver.

 

Enquanto vai escrevendo o tratado da cura pela fala, Frei António reconhece que toda a viagem foi à procura dele mesmo. Torturado vai aceitando o “novo castigo de Sísifo, porque a alma me volta a crescer entre cada interrogatório” (pg. 187)

 

Mito de Prometeu? Ou mito de Sísifo? Ou a luz roubada aos deuses? Tempo de Fogo este que, mergulhando nas trevas, as iluminou. Tem a actualidade de 300 anos. O mundo e o homem não mudam tão depressa como nós desejamos. Ainda há inquisidores e vítimas. Apenas se refinaram os métodos.

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