CONTOS & CRÓNICAS – “As desvantagens de se chamar Marcelino” – por Joaquim Palminha Silva

contos2

Durante a minha curta vida, tive poucas oportunidades para experimentar o sossego e a liberdade de ser eu próprio… Hoje, saído de uma síncope cardíaca após pronto-socorro, alguma felicidade e profissionalismo dos cardiologistas, pela primeira vez vou ser eu próprio, Marcelino e português! … Não estou maluco! Eu conto tudo, Senhores Doutores…

 Tudo começou, tinha eu pouco mais de sete anos de idade, com a exibição e enorme sucesso internacional do galardoado filme espanhol «Marcelino, Pão e Vinho».

O filme conta a história de um recém-nascido abandonado à porta de um convento de franciscanos. Adoptado pelos bons frades, o órfão foi crescendo num pacato ambiente rural, revelando aos cincoImagem3 anos de idade (grande traquinas!) enorme talento para a organização de “partidas” e “situações” hilariantes, que se tornavam difíceis de corrigir, pois a ninguém prejudicavam verdadeiramente, além de fornecerem aos frades e rurais da povoação um suplemento de alegria e boa disposição diária… Adiante… Na Igreja do convento existia sobre o altar uma bela escultura em madeira, tamanho natural, de Jesus Cristo agonizante na cruz… Marcelino, assim se chamava o órfão, decidiu que Jesus Cristo estava muito magro, passava certamente fome e, por conseguinte, havia que lhe proporcionar algum alimento diário. O miúdo, que era ladino, começou a furtar todas as manhãs da cozinha do convento uma fatia de pão e uma caneca de vinho que, escondendo-se aqui e ali, corria a oferecer ao Jesus crucificado sobre o altar da igreja. Tagarelando sobre isto e aquilo, o miúdo deixava a fatia de pão e a caneca de vinho sobre o altar…

Marcelino imaginava que Jesus Cristo não tinha vagar de comer naquele instante, pelo que vinha depois buscar a caneca que, vejam lá, estava sempre vazia. Um dia, os frades descobriram os furtos contínuos e, um pequeno grupo de cinco ou seis religiosos, resolveu seguir a criança sem ser visto, de modo a descobrir a finalidade daqueles roubos diários… Viram o miúdo entrar na igreja, entabular um monólogo repleto de banalidades com a imagem, denunciando porém uma entranhada familiaridade, como se lhe estivessem a responder. A determinada altura, Marcelino estendeu a fatia de pão e a caneca a Jesus e, coisa surpreendente, a mão direita despregou-se da cruz e recolheu a fatia de pão: – O “milagre” estava consumado, os frades espantados e o sucesso do filme garantido!

*

 Órfão, eu vivia com uma tia, irmã de minha mãe e chamo-me, tal como o miúdo do filme, Marcelino. Parecido na idade e no físico com o protagonista da película, a procissão de palpites religiosos, de fantásticas ladainhas de intenções beatas, de lágrimas e beijos gordurosos, o formigueiro de promessas doidas, algumas acima das posses dos que se comprometiam, perseguiam-me a toda a hora… A vizinhança da pequena vila patenteava tudo ao natural, dirigindo-se à minha infantil pessoa, intentando obrigar-me a ser uma espécie de réplica “milagreira” do personagem do filme… Fosse porque fosse, o sudário de fanatismos e crendices bordavam em torno de mim um clima de presságios doentios, de cheiros a cera queimada, que o avisado Padre Prior da Freguesia tentava desfazer sem grande êxito.

Obrigado a ver o filme vezes sem conta, com os meus oito anos já chorava de saudades da minha pobre e ausente infância, pelos cantos da casa e pátio da Escola… – Ou era uma imitação real, “beata”, do Marcelino do filme, ou não seria nada! Muito menos o Marcelino português, que vivia com sua tia materna!

Todos me queriam assim ou assado, segundo a história milagreira espanhola, enquanto os mais atrevidos (ou mais supersticiosos!) sacudiam a presença e críticas do Prior, advogando (os blasfemos!) sem nenhuma vergonha, que se eu não era obra do diabo, a ser assim tão parecidinho com o menino do filme, não havia dúvida, só devia ser bênção de Deus sobre o círculo da vila…

Era um menino praticamente abandonado, tirando os momentos de lambuzadelas e beijos beatos, de olhos tristes e expressão que ia do extático angustiado ao alvoroço de quem se sabia assediado… Na verdade, eu mendigava sobras de afago das mãos dos que me cercavam e, como eles não reparassem nesta evidente carência, entregava-me a gostar dos animais. Por exemplo, do «Átila», um rafeiro alentejano que me acompanhou por 15 anos bem medidos, de quem sinto mais saudades, digo-o sem vergonha (Deus sabe porquê!), do que dessa tia que me recolheu, velha seca e torta, como as velhas más que aparecem nos contos infantis.

Havia muita gente na abastada casa de minha tia, mas eu andava sempre sozinho aos encontrões pelos cantos… Só reparavam em mim quando lhes dava para estarem compenetrados de religião, com preocupações sobre promessas e coisas assim… Nessas alturas era só Marcelino para aqui, Marcelino para ali… “Meu bentinho”, “meu menino do céu”, “meu anjo”, etc., e tal… Parecia um doce de gila para as pessoas tirarem um pedaço à sobremesa… Era, pois, uma imagem de carne e osso de “menino bom”, quase santo, para a gente grande brincar às promessas e aos enredos beatos!

No passeio, no jardim, cumprimentavam-me com um ar recatado, tiravam o chapéu a minha tia, e apontavam-me às outras crianças: – «Olha, aquele menino é o Marcelino, tal e qual o do filme, que dava pão e vinho a Nosso Senhor!».

Passados anos, apesar das semelhanças terem ficado para trás, continuei sempre a ser «o que foi parecido com o Marcelino do filme do mesmo nome, lembram-se?». Uma vez adulto, já era um romântico entristecido… Fui deixado de lado pelas raparigas casadoiras da vila… Mantive a virgindade integral durante muito tempo, tal e qual esse conhecido tipo de arroz… Durante anos, vítima de um irreparável e estúpido equívoco, sentia-me um zero, cheio de nada, sem vida própria… Fui o Marcelino de que outros necessitavam… Nunca houve oportunidade para ser o Marcelino de mim próprio! O resultado de todo este viver? – Solidão, desconforto, vazio!

Outro dia, li no jornal que a criança que fizera de Marcelino no filme, de nome Pablo qualquer coisa, entretanto engenheiro especialista de não sei quê, havia falecido subitamente, vítima de síncope cardíaca… Como se o destino se houvesse posto a mangar comigo, entontecido, tombei no chão da sala, ainda em casa de minha tia (que Deus tenha!) …Vítima também de síncope cardíaca! Afinal revelou-se que havia uma estranha ligação entre mim e o actor que desempenhou o protagonista do filme «Marcelino, pão e vinho», … tendo sido libertado nesse instante! Pois ninguém estava ali a chorar por mim!

Recuperado, Senhores Doutores, emprestei tudo o que posso da minha imaginação e pobre vida, para chorar por mim e pelo actor de nacionalidade espanhola que fez de Marcelino sem o ser.

            Enquanto eu, pobre de mim, viro a cabeça outra vez para a frente e procurarei nesta bela manhã de Inverno, algo que não mais me comprima o estômago nem a vida…

            Enfim… Distanciando-me do passado, creio que só tive desvantagens ao ser baptizado com o nome de Marcelino, Senhores Doutores!

 

 

Leave a Reply