BISCATES – Quanto à data do 25 de novembro e o São Martinho – por Carlos de Matos Gomes
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A política de desenvolvimento de Portugal nos últimos 40 anos tem um rumo certo, ao contrário do que dizem alguns críticos. A partir da implantação do novo regime em 25 de novembro de 1975, após o período transitório de 18 meses a que chamaram depreciativamente «o PREC», os dirigentes democráticos souberam sempre para onde iam e os objectivos que prosseguiam. É aqui que estamos e foi aqui que eles deliberadamente quiseram que chegássemos.
Pode ser de difícil compreensão para um observador estrangeiro que os portugueses se mantenham tão alheios e discretos sobre a data que a historiografia oficial apresenta como a do ato regenerador da verdadeira democracia, do progresso, da vitória dos mercados sobre o perigo comunista, a data em que as genuínas forças livres salvaram a pátria da ditadura de sentido contrário à anterior, como se dizia na altura. O 25 de novembro é, na verdade, para o bem e para o mal a data da fundação do actual regime. Devia ser condignamente celebrado. As causas da apagada e vil tristeza em que é vivido o dia maior do regime deviam merecer uma reflexão. Elas revelam a nossa identidade. Aqui vai a minha modesta contribuição. A de um reconhecido vencido.
Em primeiro lugar, a ausência de celebração confirma, na minha opinião, que somos um povo macambúzio, cheio de pudores, de reservas de intimidade, pouco dado a manifestações exuberantes, incluindo na cama. Estudos credíveis (garanto eu) de sexologia revelam que, para os portugueses, em termos eróticos, a importantíssima data do 25 de novembro é idêntica à da primeira ejaculação nocturna para os homens e da primeira menstruação para as mulheres: eles e elas sabem que nesse dia ganharam outra condição, a de procriadores, mas não andam pelas ruas a celebrá-la aos gritos, com bandeiras, discursos e feriados, que podiam ofender os paizinhos e, neste caso, a Alemanha.
A segunda causa para o apagamento do 25 de novembro como dia nacional tem a ver com a nossa vetustez. (Gosto da palavra vetusto.) Ora, Portugal é uma nação vetusta, respeitável pela idade. A idade traz sabedoria. A vetustez deu aos portugueses uma sabedoria histórica. Os portugueses reconhecem que o seu presente, por mais extraordinário que apareça numa esquina do presente, é sempre o resultado de um sem fim de velhas e experimentadas soluções. Nada aqui acontece de verdadeiramente novo. Não custa por isso admitir que para os portugueses o 25 de novembro de 1975 transmita a ideia do déja vu. Os heróicos dirigentes da nova democracia trouxeram-lhes a mesma ideia de grandeza e progresso dos velhos aristocratas: é pela riqueza da corte e dos cortesãos que se vê a grandeza do reino! Aí temos uma carrada de novos ricos do 25 de novembro, é só fazer correspondências com nomes badalados do comércio aos tribunais, da banca aos offshores, e encontramos com facilidade novos Braancamp, Sobrais, Cadavais, Carias, Farrobos, como os do tempo da regeneração, do cabralismo. Aí temos a nova velha Sociedade Lusa de Negócios, a SLN, mãe do BPN, o banco dos novos barões, como imagem de marca do novo regime!
Em terceiro lugar, o 25 de novembro é, para os portugueses, uma fatalidade, o que muito bem se coaduna com a sua índole, como escreveriam os românticos do século XIX. O 25 de novembro resulta de um fado antigo. Não se pode fugir ao destino. Após um tempo de excesso, que ganhou em Portugal a designação que devia ser patenteada de PREC, vêm do estrangeiro tropa e ordens para os portugueses se manterem na ordem e portarem bem. E eles aceitam com mansidão. Vem um cônsul do império e as elites locais reúnem-se à sua volta, em vénias e de mão estendida. Na idade contemporânea, foi assim com Junot na invasão francesa, foi assim com Beresford na ocupação inglesa, foi assim com Carlucci, o embaixador americano, na normalização de 25 de novembro de 1975. Os portugueses entendem estas vindas como normais, não sofrem de frémitos de orgulho ofendido. São tão avessos ao conceito de desonra como de glória. Têm a sabedoria dos velhos, a da resignação. Acabou-se o «preque» é uma frase politicamente correta desde o 25 de novembro de 1975. Os pais gritam-na aos filhos traquinas. Os patrões aos empregados sindicalizados. O governador do Banco de Portugal gritou-a ainda há pouco ao doutor Ricardo Espirito Santo, por exemplo.
Por fim, e em resumo, o 25 de novembro é uma vulgar data de outono e o outono vai bem com a alma dos portugueses, o céu é cinzento, as árvores desfolham-se, as pessoas esfregam as mãos, encolhem-se, batem com os pés no chão para os aquecer; os que podem comem castanhas e bebem água-pé. Excelentes condições meteorológicas para os portugueses desabafarem: é assim… eles é que sabem… o que se há-de fazer?
O azar, o único azar do 25 de novembro, foi não ter calhado a 11 de novembro, o dia do velho São Martinho… mas nessa data havia a independência de Angola… e essa era a causa que tudo ofuscava, não era? Os executores nacionais do 25 de novembro não podiam celebrar ao mesmo tempo o São Martinho, obedecer aos seus longínquos grandes senhores, deixando-lhes Angola para se entreterem, e mandarem o Jaime Neves enterrar o dito «preque» da desordem interna. Para o magusto que se pretendia realizar eram castanhas demais ao lume.