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MITO & REALIDADE – Terror e Morte em Lisboa – 30 – por José Brandão

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Entretanto, o que era feito do Dente de Ouro e de todos aqueles que as autoridades e a justiça não podiam ignorar como participan­tes diretos e confessos nos crimes da camioneta fantasma e da Noite Sangrenta?

Onde paravam os assassinos de um chefe de Governo e de algu­mas outras personalidades do mais alto nível do regime?

Como era lógico de esperar, o Governo de Manuel Maria Coe­lho ordenara que se realizassem imediatamente investigações, tanto por via judiciária como por via militar.

Passados poucos dias, em 24 de Outubro, já em resultado des­sas primeiras averiguações, eram presos alguns militares, e, antes do final do mês, outros mais o foram.

Na sua maior parte, a ação da justiça recai sobre pessoal mili­tar não graduado ou de patente subalterna. São fundamentalmente marinheiros da camioneta-fantasma e um ou outro figurante mais citado na operação criminosa.

No que respeitava aos oficiais implicados no levantamento e so­bre os quais recaíam pesadas responsabilidades pela atitude dos seus subordinados, era praticamente invisível qualquer procedimento de carácter judicial.

Do guarda-marinha Benjamim Pereira, que comandou o trans­porte de António Granjo para o Arsenal, vem uma das raras tenta­tivas de responder pelo funesto acontecimento. Em duas entrevistas que logo nos dias imediatos à tragédia concede aos jornais, este ofi­cial subalterno procura esclarecer a sua participação nessa viagem da camioneta-fantasma. Diz ter sido então acidentalmente envolvido no caso e que agiu motivado por intenções de procurar evitar os crimes que estavam patentes nos ânimos da tripulação prestes a sair do Terreiro do Paço.

Enquanto isto, o Dente de Ouro, já detido, lançava acusações e ameaças sobre as cabeças que iam ficando de fora. Vendo-se já sentado no banco dos réus, o cabo Abel Olímpio avisava: «Vou perguntar eu, réu e criminoso, porque não soube o Governo guardar as moradias dos cidadãos ameaçados por facínoras que poderiam andar toda a noite a cometer crimes que ninguém surgiria para os evitar. Disso os acusarei; juro!»

Da Seara Nova saiam também alguns reparos à forma como es­tava a decorrer o processo judicial. Na edição de 5 de Dezembro, Jaime Cortesão assina o seguinte artigo:

O Dente de Ouro e a Noite Trágica

«Depois dum silêncio geral à volta dos crimes da noite de 19 de Outubro, o clamor de protesto foi crescendo até atin­gir por fim o rufo de tambores em barraca de feira. A Seara Nova, pela boca dum dos seus representantes, foi dos pri­meiros organismos a condenar severamente os assassinatos dessa noite. Mas condena também a especulação que atual­mente se faz com o sentimentalismo doentio do público.

Quando temos certas parangonas duma tardia e inflada reprovação, pintalgadas com gravuras, logo recordamos aqueles cantadores de feira que exploram a piedade dos sim­ples, relatando, junto aos painéis alusivos e em versos de pé quebrado, os crimes horripilantes.

À humanitária revolta desses cronistas de assassinatos re­comendamos que apontem à consciência pública as maxilas mais vorazes e mais douradas dos que, açambarcando, espe­culando, tripudiando sobre a miséria da nação, atentam dia e noite, a sangue frio, contra a vida humana.

Desçam aos bairros pobres, entrem no lar de quantos vi­vem apenas do seu trabalho, entrevistem aqueles que não querem ou não tem nada para vender ou com que especular e saberão que há muitos Dentes d’Ouro à solta e sem castigo e que a vida de famílias, sem conta, se tornou uma lenta e cruciante noite trágica.»

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