Capítulo IX
A JUSTIÇA
Mas, afinal, o que é que tinha sido feito depois da tragédia do 19 de outubro de 1921?
Qual foi a reação das autoridades perante os crimes dessa noite?
Como atuou a Justiça face aos criminosos comprovadamente envolvidos na matança?
Um dos primeiros indícios de que o apuramento das responsabilidades nos atos criminosos da Noite Sangrenta não ia ser tarefa para ter a vida facilitada veio logo da dificuldade em encontrar quem quisesse arcar com a presidência da Direção dos Trabalhos Judiciais, criada expressamente para o caso do 19 de outubro de 1921.
O vice-almirante Hipácio de Brion não pôde por a nomeação não estar em conformidade com o preceituado no artigo 7.º do Código do Processo Criminal Militar.
O almirante Silveira Moreno, por alegados motivos de saúde.
O general Gomes da Costa, por razões que deixa bem claras a um jornal de Lisboa, em 3 de novembro de 1921, depois de violenta polémica com o chefe do Governo, Manuel Maria Coelho, que no dia anterior, no mesmo jornal, dissera:
«Veja o meu amigo que até o Sr. General Gomes da Costa, esse bravo oficial que todos citam como um exemplo de bravura e coragem, não aceitou também essa incumbência… Como se poderá explicar tal facto? Não me responda que eu conheço os motivos… Ah!, mas eu juro-lhe que não tinha medo e que não recusaria levar a cabo a missão.»
A resposta do general – que dentro de cinco anos vai marchar de Braga à conquista do Terreiro do Paço – não se faz esperar e vem nestes termos no jornal A Capital:
«Eu não precisava vir a público afirmar que o Sr. Coronel Manuel Coelho fez uma afirmação gratuita…
Contudo, para que o Sr. Coronel Maria Coelho não volte a fazer afirmações com a sua proverbial inconsciência e veneno, eu devo declarar aqui que me recusei a dirigir o inquérito sobre os crimes praticados no dia 19 pelas seguintes razões:
1.º Haver no País entidades a quem por profissão incumbem tais serviços.
2.º Porque eu, por temperamento e educação, sou naturalmente avesso a tudo quanto sejam serviços de polícia.
3.º Porque, achando-me completamente alheio à revolta, é a ele que pertence a responsabilidade dos crimes praticados, e pela mesma razão porque soube enramalhetar-se com os louros da vitória e correspondentes benesses.»
«Foram aquelas as razões da minha recusa a proceder ao inquérito, mas quando ainda não fossem bastantes, uma outra há, decisiva e compreensível a todos:
– Quem as arma que as desarme».
E sem papas na língua, aquele que virá a ser o homem do 28 de maio de 1926 assim falava daquele que tinha sido o homem do 31 de janeiro de 1891 – e agora também do 19 de outubro de 1921:
«Estamos todos assistindo há dias a este interessante espetáculo do Sr. Manuel Maria, que mal se sentou na cadeira presidencial logo dum salto se pôs de pé, como se o assento estivesse cheio de espinhos, e trata por todas as formas de procurar um sucessor que lhe permita deitar a fugir pela porta fora direitinho à chucha e ao dolce farniente da Caixa Geral de Depósitos.»

