Selecção, tradução e adaptação por Júlio Marques Mota
A crise aprofunda-se. De espantar, não?
Yann, La crise empire. Étonnant non ?
Blogue Le bondosage, 13 de Outubro de 2014// // //
Depois do rebentar da crise, anos já se passaram, as ideias refinaram-se, e a França continuou como previsto e mesmo até a afundar-se mais rapidamente do que o previsto. O euro é um fiasco, a Europa um cemitério, e todo o ocidente como um todo agoniza enquanto que o resto do mundo se questiona como se pode desembaraçar deste cadáver que é o Ocidente de modo a evitar que as emanações empestem o planeta. Estou a caricaturar, é certo. A China tem ainda necessidade de praticar sobre nós o canibalismo para engordar ainda um pouco mais, o tempo para que ela nos venha a substituir. Não seria necessário contudo que esta sucumba por sua vez devido a engordar mas a comer carne estragada!
Que o tempo passe depressa, finalmente. Recordo-me da eleição de Sarkozy e das suas ideias ridículas. Sarkozy os seus amigos multimilionários e a sua T-shirt NYPD. A sua paixão devoradora pelo dinheiro e o seu pouco interesse pela Nação, excepto nos discursos. E aí está ele todo desconcertado a apresentar-se como o substituto ideal do fantoche que dirige ou finge estar a dirigir o país desde 2012. Enquanto se espera, servem-nos sempre as mesmas receitas, sempre a mesma demagogia liberal. Castiguemos os pobres, os funcionários, a dívida de que nem sequer se sabe de onde vem. E por toda a parte nos meios de comunicação social ouve-se sempre a mesma cantilena , reduzam-se as despesas públicas, lute-se pela santa competitividade. Porquê, não se sabe, não no-lo explicam, mas é o que fazem noutros países, façamos então o mesmo? Bloqueada entre a preguiça e a parvoíce, entre a estupidez e o dogmatismo religioso, a elite francesa, que nunca assumiu tão mal o seu nome, continua ocupar o único terreno que ela conhece, o da comunicação. E é uma desgraça para aqueles que não entram no campo lexical da comunhão liberal. Pode-se criticar Éric Zemmour sobre muitas coisas, nomeadamente sobre as suas obsessões migratórias e sobre a sua argumentação bem pouco científica na sua trajectória de análise. Tem pelo menos o mérito de pôr os dominantes face a face com os seus erros. E que erros desde há já quarenta anos! Não sei se é porque nós estamos hoje mais bem informados que no passado sobre a acção dos homens políticos. Ou se é porque a nulidade dos dirigentes actuais não tem nenhum precedente histórico. Mas devemos bem admitir que vivemos pelo menos um tempo excepcional sobre este plano
A mundialização é a crise!
É que as elites não parecem ter ainda percebido que é toda a estrutura económica a que agora se chama sabiamente “Mundialização” que é a fonte dos desequilíbrios, de que se comovem aliás. Não tendo já mais nenhum conceito de interesse geral nas suas cabeças e reduzindo a acção colectiva a uma justaposição de interesses individuais díspares, as elites estão assim completamente desnorteadas. Agem no vento, combatendo os moinhos de vento tal como Don Quichotte. E que não nos surpreendemos apenas por não ver como solução outra coisa que não sejam apenas os emplastros a andarem sobre pernas de madeiras. A Alemanha que acumula excedentes comerciais, e que se queixa ao mesmo tempo do défice dos seus vizinhos que ela própria aprofundou. Os EUA que pensam que injectando incansavelmente dinheiro nos bancos e nas multinacionais vão relançar o seu crescimento. A Grã-Bretanha que parte à caça contra os seus pobres. O Japão que se põe a fazer o mesmo que os Estados Unidos e com o mesmo sucesso. E a China que se torna oficialmente a primeira potência económica mundial, no próprio momento mesmo onde ela entra em graves dificuldades. Mas não é um azar que um país que vive essencialmente das suas exportações entre em dificuldades no momento em que fica demasiado gordo em relação aos países para os quais exporta. E que dizer da pavorosa desconexão entre produção e consumo que atinge toda a economia chinesa, um país onde se poupa 50 % dos rendimentos e onde a parte do consumo local não parou ainda de diminuir durante estes dez últimos anos. A China assim como a Alemanha nunca se assemelharam tanto ao contrário do que são os EUA. Estes países são igualmente tão extrovertidos como desequilibrados. Países dos quais se querem tomar referências, infelizmente, como modelos a seguir enquanto que eles são tão responsáveis pela crise como os países deficitários.
Eis-nos pois neste Outubro de 2014 num mundo que vacila ainda mais uma vez. Um mundo que continua a defender um modelo que contém em si-mesmo os germes da miséria planetária e em que, sobretudo, não pode nem deve ser posto em questão. Laurent Pinsolle desola-se sobre o seu blog sobre a aceleração da agenda neoliberal na França, enquanto que, e mesmo paradoxalmente, é esta mesma agenda que está efectivamente a ser aplicada à letra desde há quarenta anos. Como dizer outra coisa que não seja continuar infatigavelmente a explicar e torcer as evidências liberais que não são nada evidentes para aqueles que nunca reflectiram sobre questões económicas e monetárias.
– Não, o objectivo de um país não é o de exportar, mas a de responder às suas próprias necessidades. A França deveria importar apenas matérias- primas. É absurdo para um país que tem milhões de desempregados estar a importar mercadorias que poderia produzir ele mesmo. Sobretudo quando este país acumula défices comerciais e exporta os seus capitais.
– Não, os excedentes comerciais não são possíveis em todos os países e ao mesmo tempo, pois que se um país face a um outro entra em excedente então necessariamente o outro país entrará em défice. O sistema económico mundial só é viável se e só se instaurar uma obrigação de equilíbrio das balanças dos pagamentos.
– Não, o mercado não se auto-regula, não há nenhuma razão para que a soma das acções corresponda e seja igual ao interesse colectivo.
– Não, a inflação não é a inimiga dos assalariados, é mesmo historicamente o contrário.
– A concorrência não faz com que baixem necessariamente os preços. E a baixa dos preços não é necessariamente uma boa coisa se colocar em dificuldade os novos investimentos.
– O comércio não é a fonte do progresso económico, é a tecnologia e a produtividade física que o são. E paralelamente o acesso aos recursos de matérias-primas. Colocar o comércio no centro da economia como se isso constitua o único motor do crescimento é um dos dogmas mais potentes e mais errados dos tempos modernos. Que certos países tenham construído a sua prosperidade sobre a desgraça de outros não faz deles um modelo a imitar, antes pelo contrário.
– Não, a concorrência não deve ter como objectivo a diminuição dos salários, mas o crescimento da produtividade do trabalho físico. De modo a que a concorrência tenha sentido senão entre iguais. Fazer entrar em concorrência os assalariados do têxtil francês com os do Bangladesh não melhora a produtividade física global, faz apenas reduzir os salários. Vai ser necessário explicar aos liberais o que é a concorrência. Não compreendem manifestamente o seu sentido, como sobre muitas coisas da economia igualmente .
Seja como for, os tempos são difíceis, são turvos, e o futuro é muito incerto. A única certeza que se tem é que uma próxima catástrofe se irá produzir na Europa ou algures , porque nenhuma das contradições inerentes à mundialização foi até agora resolvida, superada. A sub-remuneração do trabalho à escala mundial e os desequilíbrios comerciais que se agravam de novo, não podem senão levar a que rebente uma nova crise. Talvez que desta fez parta da Ásia, o novo centro produtivo do mundo em estado de sobreprodução avançado como o assinala Patrick Artus. Não deveria partir da Europa, porque é o que prevê o homem que sempre se enganou, Jacques Attali.
É tempo de fazer viver de novo o pensamento soberanista.
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Ver o original em:
http://lebondosage.over-blog.fr/article-la-crise-empire-etonnant-non-124781109.html


