Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
Para sair da crise, é necessário investir, mas para investir é necessário sair da crise.
Yann, 10 de Junho de 2013
Texto disponível no Blog LeBonDosage
O meu título estranho resume perfeitamente, do meu ponto de vista, a contradição do sistema económico ocidental actual. O facto é que aquilo que os críticos do livre mercado esquecem incessantemente é que a acção individual das empresas está primeiramente subordinada à antecipação que estas mesmas empresas fazem quanto ao futuro do mercado e da sociedade em geral. A ideia absurda de uma autorregulação da economia assim é posta em estilhaços pela simples intuição de que nós agimos primeiro em função do nosso ambiente. Isto é verdadeiro para os animais, para as plantas, para os homens, e obviamente para as empresas. As acções individuais não são assim nunca verdadeiramente individuais dado que em certa medida dependem umas das outras. Isto cria um sistema complexo de interacções que não converge naturalmente para um maior bem-estar geral, mas para um equilíbrio instável que pode vacilar a qualquer momento em redor de uma média económica não forçosamente muito invejável. O sistema económico livre e sem obstáculos é por natureza caótico. Não é nem bom nem mau, é irracional e exactamente imprevisível nas suas evoluções.
Os estados e os poderes públicos no passado não puseram sob os ferrolhos a finança, os bancos e o comércio por questões ideológicas, ou por amor do centralismo. De Gaulle que tinha posto a finança sob controlo e que não tinha nenhuma apetência pelo meio bolsista não era verdadeiramente um comunista. O mercado foi posto sob tutela logo a seguir à guerra porque os vivos então tinham ainda na sua memória os tristes efeitos do livre mercado e da finança globalizada que tinha concorrido para a crise de 29 e por repercussão para a Segunda Guerra mundial. Era necessário dar sentido à orientação económica. Era necessário manter os equilíbrios que não eram possíveis de obter simplesmente pelo jogo da livre concorrência, e geralmente falseada. A situação de subinvestimento actual na Europa não é o fruto do azar, mas o resultado a longo prazo da desregulação económica que teve lugar na política pública nos anos 70-80. À custa de não mais investir sobre o seu solo o ocidente reencontra-se hoje desprovido de empresas e de homens aptos a fazê-lo avançar. A sua elite que vive das suas rendas importando massas enormes de objectos que os nossos países já deixaram de saber fabricar. Nenhuma nação se enriqueceu alguma vez comprando hoje o que ela mesmo fazia ontem. Justamente, esta situação permite a alguns grupos sociais minoritários saírem ricos enquanto a massa da população se empobrece. A Europa actual assemelha-se antigo ao Império otomano em fim de vida, e também ele preferiu no século XIX trocar as suas indústrias e os seus artesões contra um enriquecimento comercial temporário. Este comportamento ter-lhe-á custado a vida décadas depois.
A Europa com um grave problema : o investimento
É sobre o blog de Jacques Sapir que nós encontramos números muito interessantes sobre o desastre grego. Números que como geralmente infirmam pelo absurdo a eficiência das medida de austeridade sobre a economia dos países em crise. E que não nos falem de fazermos economias hoje para se repercutirem positivamente amanhã, porque vê-se mal como é que um país que conhece um desmoronamento dos seus investimentos produtivos, será assim capaz de relançar, mesmo hipoteticamente, a máquina económica, será assim capaz de preparar o futuro. A Grécia é duplamente castigada. O desmoronamento dos salários não os torna suficientemente competitivos para fazer concorrência à Europa do Leste ou da Ásia. E no mesmo tempo, o afundamento da procura induzida por estas políticas produziu um desmoronamento do investimento produtivo que se mede na evolução da formação produto bruto do capital. Digamo-lo claramente. As empresas investem apenas se pensarem que este investimento é necessário. Para quê aumentar as capacidades de produção, se a procura que se prevê está a descer? O FMI e o BCE redescobrem o que Keynes tinha demonstrado e desde há muito tempo, que a relação entre o investimento e a procura é a inversa que pensa a doxa liberal. É a procura que estimula a que haja mais investimento e não o contrário.
Como é que se pode imaginar uma renovação do tecido produtivo com os investimentos em queda ? :Fonte, blog de Jacques Sapir
Evolução do investimento na Grécia : Fonte, o blog de Jacques Sapir
Com excepção da Grécia, é necessário também notar a triste situação francesa que se pode ver nestes dois gráficos abaixo. A FCBF sobre os bens de equipamentos em especial indica claramente o sub-investimento produtivo que atinge o nosso país. Mais surpreendente, o blog crieusa acaba de mostrar no seu último texto o carácter ilusório do crescimento alemão. Este mostra, apoiado em números, que a Alemanha se desindustrializa e que perde pouco a pouco as suas capacidades produtivas. É em especial a FCBF alemã que, contrariamente às ideias recebidas, está em estagnação, ou até mesmo, está a descer. Isto, confirma a análise que Jean Luc Gréau tem dado do capitalismo alemão a saber que efectivamente os bons números do comércio externo alemão são completamente enganosos sobre o carácter real da força produtiva alemã. Na realidade, a Alemanha importa a mais-valia que ela realiza nos países do Leste e reinventando de passagem uma nova forma de dependência. Mas o território alemão, este, esvazia-se da sua substância industrial que hipoteca assim o futuro. Mais grave, a estratégia alemã é, de acordo com criseusa, consubstancialmente auto-destrutiva. A escolha do capitalismo alemão é literalmente canibal. A Alemanha tem um modelo de crescimento fundado sobre a sua própria destruição assim como a dos seus vizinhos. O seu crescimento está fundado sobre a redução tendencial da procura interna e do investimento local.
A Alemanha, um gigante com pés de barro :fonte le blog de criseusa
A formação bruta de capital fixo nem sequer atingiu os valores de antes da crise. O mais inquietante é a extrema fraqueza do investimento nos bens de equipamento o que traduz a desindustrialização acelerada do país.
Se olharmos a longo prazo vê-se que o sub-investimento é na verdade o fruto da vaga de liberalazações dos anos 70. O fim da preferência comunitária data de 1974. Fonte : l’INSEE.
(continua)
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