Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
Para sair da crise, é necessário investir, mas para investir é necessário sair da crise.
Yann, 10 de Junho de 2013
Texto disponível no Blog LeBonDosage
(conclusão)
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Optimismo e investimento
Após este pequeno aparte sobre a situação do investimento na Europa, é necessário recordar qual é o mecanismo que permite ao investimento retomar o caminho do crescimento. A ideologia, actualmente no poder, apenas concebe o investimento como um mecanismo que responde a um movimento natural dos mercados. Para os neoliberais, a falta de investimento só pode vir de duas fontes. A primeira é que a esfera pública é demasiado vasta e absorve como um sifão o capital e a energia da população. A luta contra a função pública decorre do imaginário neoliberal que considera o funcionário como um agente totalmente inútil e a função pública como um desperdício colectivo. Porque o privado pode mais e melhor, mais barato em todos os casos. Este raciocínio decorre da hipótese de partida do neoliberalismo que é a de que o homem dá sempre o seu melhor dele mesmo unicamente graças ao motor que são os seus ganhos económicos.. É por conseguinte evidente ao partir-se desta hipótese neoliberal que o funcionário público é ineficaz dado que o seu salário não é directamente o fruto do seu labor. Todo o discurso sobre o ódio da função pública e os discursos do negociante partem daí. A este nível poder-se-ia pedir aqueles que acreditam nesta baboseiras se eles realmente teriam confiança num médico que se move exclusivamente pelo apetite de ganhos. Com efeito, se assim fosse este último teria realmente algum interesse em que se interesse de boa saúde?
Bom, a primeira hipótese neoliberal é falsa, mas a seguinte está talvez mais próxima da realidade. Esta decorre do equilíbrio natural entre a oferta e a procura. Se o investimento for demasiado fraco, é provavelmente porque o custo da oferta é demasiado forte de modo que a procura se faça se sobre os produtos propostos pelas empresas. Nesta hipótese, é necessário reduzir o custo de produção de modo que o investimento retome e que o crescimento reparta novamente. É visivelmente esta hipótese que subentende toda a política dita da oferta e tendente a reduzir tanto quanto possível o preço dos produtos locais. Observar-se-á contudo que neste quadro de análise e supondo que a este se adere, existem e numerosas soluções ao problema. Para reduzir o preço dos produtos locais, a solução mais evidente é a de reduzir os salários, ou em arrasando o Estado com a redução dos encargos sociais. Contudo, há outras variáveis sobre as quais os nossos amigos neoliberais poderiam no entanto actuar. Por exemplo reduzindo a parte de rendimento da finança através da redução dos dividendos para os accionistas. Uma solução que tem a vantagem de não comprimir a procura local. Poder-se-ia acrescentar o facto que o proteccionismo comercial e a desvalorização têm exactamente o mesmo efeito que as baixas de salários têm sem terem as suas consequências sociais. Mas nunca nenhuma destas soluções alternativas é proposta. Prova, se disso houvesse necessidade, é que são efectivamente os ganhos da finança e a renda que levam a Comissão Europeia a puxar os cordões ao Governo francês.
Mas esqueçamos o neoliberalismo e retornamos à realidade. Há primeiramente vários problemas com o investimento nos nossos países. O primeiro deles é uma loucura da renda capitalista que reclama rendimentos cada vez mais delirantes e de tal modo que até mesmo actividades mesmo muito rentáveis se tornam não interessantes. Para restabelecer o investimento em sectores pouco propícios à rentabilidade deveremos um dia ou outro, mais cedo ou mais tarde, restabelecer o controlo do Estado sobre os bancos e produzir-nos o crédito a custo nulo para este tipo de actividade. Porque não é porque uma actividade tem uma fraca rentabilidade que esta é inútil. Não caiamos na armadilha do utilitarismo delirante dos neoliberais.A agricultura é bem mais essencial que a indústria dos semicondutores enquanto esta é, no entanto, bem mais vantajosa, mais rentável, queremos dizer. Seguidamente, é necessário, custe o que custar, quebrar com a ideia que teríamos necessidade de capital. Apresenta-se frequentemente o capital como um truque que circula e que ninguém em especial controla sequer. Um recurso raro e precioso que nós deveríamos aprender a extrair com a ajuda dos nossos bons doutores neoliberais. É necessário atrair o capital estrangeiro de modo a que eles invistam. Para que eles assim façam, mudemos ou acabemos com o Código do trabalho, privatizemos a educação, façamos a eutanásia aos velhos, etc. Qualquer coisa, tudo é bom para atrair o capital assim tão raro e assim tão precioso. Esta visão do capital que espantava já Keynes, que via nessa ideia assim exposta uma reminiscência da sociedade agrícola fundada sobre a renda da terra. Os neoliberais e a população consideram o capital financeiro como o capital agrícola e como a terra agrícola. Salvo que uma coisa não tem nada a ver com a outra. Se a terra é rara, o capital, este fabrica-se. E que não nos venham agora com o argumento da hiperinflação. Porque com a avalanche delirante de produtos financeiros e da emissão monetária actual, o lobo inflacionista leva mesmo muito tempo a mostrar-se. A emissão monetária pública permitirá dispensar a bolsa e os produtos derivados e acredito que tudo se portará bem melhor.
As empresas só investem quando não têm outras escolhas
Em seguida, é necessário tornar rentável um investimento em França. Aqui voltamos nós à questão monetária e à livre-troca. Actualmente, a diferença do custo do trabalho proíbe o investimento produtivo no nosso país. Mas é necessário ter bem conta da diferença salarial fenomenal que há entre as nossas velhas nações e as novas potências industriais. Uma diferença que se acrescenta ao facto que as potências agressivas da Ásia utilizam abundantemente a sua moeda para cortar as nossas indústrias em peças. As políticas de baixa dos encargos estão, deste ponto de vista, a passar completamente ao lado do problema, uma vez que estes encargos não estão sequer à escala dos valores em jogo. No melhor dos casos, dividiríamos por dois o custo do trabalho local e isso ignorando o custo que gera a privatização dos serviços públicos que acompanharia inelutavelmente a baixa das receitas do Estado, encargos das empresas. Os EUA mostram-nos por exemplo a ineficácia espectacular de um sistema de saúde privado. As empresas dos EUA devem gastar bem mais dinheiro até ao final que as empresas francesas para a saúde dos seus assalariados e tudo isso para uma eficácia bem menor que em França. para uma eficácia largamente inferior. A supressão dos encargos sociais não produzirão nenhum efeito positivo na França porque as empresas sabem efectivamente que o custo da importação do trabalho asiático permanecerá, mesmo neste quadro, largamente inferior. Paradoxalmente, é provável que as reduções dos encargos acelerem com efeito a baixa do investimento dado que as economias realizadas graças à estas baixas de encargos permite às empresas deslocalizarem mais rapidamente.
Para reorientar o investimento na França, é necessário antes do mais fazer com que as empresas não tenham outras escolhas a fazer. Em primeiro lugar tornando as importações não competitivas por actuação sobre a desvalorização, as quotas e os direitos alfandegários. Estas políticas deverão estar à altura do problema a enfrentar. Seguidamente voltando a dar à procura um verdadeiro dinamismo, porque como já o dissemos previamente não é o investimento que cria a procura mas antes o contrário. Estranhamente e contrariamente às ideias actualmente muito em voga, relançar os salários na França não fará recuar o investimento efectivamente , bem antes pelo contrário. Antecipando uma procura em alta e bloqueando as possibilidades de recorrer ao estrangeiro para produzir, então as nossas empresas estarão muito mais inclinadas a investir no nosso país. Efectivamente viu-se no curto período de 1998-2000, foi suficiente ter havido uma depreciação do euro e um regresso às antecipações positivas de modo que o investimento veio a partir em alta novamente e até mesmo fortemente durante alguns tempos.Efectivamente pagar os assalariados não é diminuir o investimento, pelo contrário, é favorece-lo. É necessário sair da ideia absurda que conduz a pensar o dinamismo económico como sendo contrário ao bem-estar da população.
Texto disponível no site Blog LebonDosage com o título:
Pour sortir de la crise, il faut investir, mais pour investir il faut sortir de la crise.
e o seu respectivo endereço electrónico é::
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Para ler a primeira parte deste trabalho de Yann, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:
PARA SAIR DA CRISE É NECESSÁRIO INVESTIR, MAS PARA INVESTIR É NECESSÁRIO SAIR DA CRISE – por YANN

