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MITO & REALIDADE – Terror e Morte em Lisboa – 34 -por José Brandão

Capítulo VIII

O DESALENTO

Não é exagero dizer que a I República portuguesa jamais foi deixada em paz pelos detentores do poder crítico. Os responsos vinham de todos os lados, das mais diversas formas e sob qualquer pretexto.

Se não eram os republicanos, era a República, se não era esta, vinham os Governos e os governantes e na falta destes aparecia logo a política ou os políticos, quando não o próprio País ou então o seu povo!

Sobre este último, falava Fialho de Almeida numa das suas críticas ao rumo republicano:

«Povo? Não há povo.

A turba acéfala, alternadamente feroz e sentimental (tarada em todo o caso), que em Portugal faz as vezes de povo, é uma força de inércia sem a menor consciência de si própria, e que, no estado de bestialidade africana em que jaz, tão cedo pode ter papel na marcha do País, restando-lhe continuar a ser explorada por caciques, ou levada para o mal por papagaios de comício, no sentido das suas taras homicidas

E sobre os políticos, que dizia o mesmo escritor:

«Políticos, politicantes, peste!…

Em toda a parte a política é uma ocupação subalterna que só tenta os faladores e os intrigantes, e em geral se abandona às gentes de pequena virtude que a exploram como uma alquilaria ou uma tenda

Quanto aos partidos, era assim que Fialho de Almeida os via nos primeiros meses da República:

«Partidos recrutados por senhas de bónus, pulverizando-os em patrulhas que inviabilizam o parlamento, tornando a queda de ministérios num sport de aventureiros e bravucões. Uma burocracia cleptómana que açambarcou os cargos, com mote de não deixar medrar na vida pública ninguém que não seja do cancã. Meses e meses de assembleia onde os deputados fazem lutas de apaches, ou exploram narizes-de-cera, abandonando o terreno quando algum assunto sério vem à fala

Fialho de Almeida era verdadeiramente implacável nas suas opiniões relacionadas com o Poder, fosse este da cor que fosse.

De resto, vários intelectuais do mais alto grau da cultura portuguesa não tardaram a dar-se conta da feição que estava a tomar a Revolução de 5 de Outubro, acabando muitos por vir a reagir com a maior violência verbal e escrita contra os sucessivos Governos e governantes da I República.

Uma apreciação da atitude da elite cultural portuguesa durante quase todo este período – e fundamentalmente logo nos primeiros alvores – permite verificar como destacados nomes do campo das artes e das letras estiveram de costas voltadas para o novo regime, observando-o sobre olhares esguelhados de grandes admoestações e de antipatias por vezes a raiar o patológico ou o ódio visceral.

Todavia, e para frustração de muita gente, a infelicidade da República era mais real do que teórica, e não era pela flagelação dos escritos que a esperança republicana ia sucumbindo.

Quando Ramalho Ortigão frechava mais uma das suas mortíferas Farpas sobre o lombo da República, sabia que o podia fazer e que não faltava quem lhe desse razão quando dizia:

«Ora sucede que, abolida a monarquia, e achando-nos nós no mês 5 do ano 1 da República, nenhum pão de pataco dos oitocentos mil que ingeria o rei foi por enquanto distribuído ao povo, e que o mesmo povo, outra vez transferido de “Povo Soberano” a “Zé Povinho”, com indício de estar mudado o Governo da Nação, não logrou ainda o regozijo gratuito de ver passar em dia de gala, dos paços do Governo para o paço da Ajuda, em vez do rei antigo, o presidente novo em coche real puxado a quatro por dezasseis relinchantes famílias aristocraticamente engatadas a Grand-Daumont.

É certo que nunca as classes dirigentes se divertiram tanto em excursões de recreio, nem se banquetearam tão repetidamente como hoje em dia. Na casa, porém, de cada cidadão, nem o imposto diminui nem o passadio embarateceu.»

Desdenhado com a ingratidão dos recém-vindos donos do poder, o autor das temíveis Farpas, oriundas dos tempos da Monarquia, lamentava-se: «Vejam lá os revolucionários da Avenida se não fui com efeito eu, se não foram os do meu tempo quem desbravou o matagal e varreu o caminho em que eles agora marcham

Sampaio Bruno, jornalista, escritor e político – figura a vários títulos marcante do pensamento republicano português – também não conseguia continuar a suportar aquilo que via.

Em consequência de nos seus artigos ter verberado várias agitações políticas ocorridas no Porto, intimidaram-no a comparecer, em 17 de Janeiro de 1911, no Governo Civil, a fim de ser interrogado.

Alguns dias depois, com pedido de publicação, enviou para vários órgãos da Imprensa a declaração seguinte:

«Rogo-lhes o obséquio de darem publicidade no seu jornal a esta declaração que entendo dever fazer, e é de que, desta data em diante, me retiro, completa e absolutamente enojando, da vida politica portuguesa.»

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