As acções rebeldes de Paiva Couceiro foram secundadas por membros da Igreja, que entrara em rota de colisão com os republicanos em consequência da Lei da Separação e das expropriações de que foi alvo na sequência da queda da Monarquia, onde beneficiavam de grandes benesses e poder.
Em Terras de Basto, surgiram grupos organizados, os quais, em Cabeceiras de Basto, eram encabeçados pelo padre Domingos Pereira, referenciado como responsável pelos atentados ocorrido naquela região, onde foram executados vários republicanos. Também em Évora estava preparado um golpe, com ramificações em Elvas, Vila Viçosa e Estremoz, que, no entanto, abortou, tendo sido presos os principais elementos, entre os quais militares, civis e um ex-seminarista.
Sempre na primeira linha das incursões contra a República, o Clero fazia avançar os seus devotos para as lutas que abalavam a estabilidade do País.
Abílio Magro, monárquico, autor do livro A Revolução de Couceiro, é bem claro:
«Não reste a menor dúvida. Foram os padres que no país trabalharam, organizando subscrições e comités, arranjando dinheiro, aliciando homens para os movimentos e, por fim, sugestionando o povo a ponto de o fazer descrer da República e da sua obra, conseguindo em alguns pontos até revolucioná-lo.
Mas fizeram mais ainda que tudo isso.
Arriscaram a sua vida em benefício do seu ideal e por ele se vinham sacrificando!
(…)
«Esta é a verdade.
Por mais que os áulicos de Paiva Couceiro propalem o contrário, atribuindo heroicidade aos aristocratas é absolutamente certo que ao clero de Portugal deve o movimento monárquico o pouco que tem feito.
Sá os párocos de Travanca e Mairos, á sua parte, levaram para as hostes Couceiristas mais de 250 homens!».
O percurso da I República Portuguesa será pautado, desde os seus primeiros dias, por um empenho contra-revolucionário que é levado a cabo por sectores descontentes com as medidas decretadas pelo Governo Provisório. Logicamente, pelos monárquicos mais inflexíveis mas também pelo Clero e por outras forças contestatárias do novo regime e que de alguma forma viram os seus interesses atingidos pelas medidas da República. Alguns sectores mais católicos e menos vulneráveis à propaganda republicana teriam apoiado e participado no movimento contra-revolucionário que haveria de culminar nas invasões armadas das províncias do Norte, junto à fronteira.
Com motivos ou não, a antipatia contra os padres era um facto que saltava aos olhos de quem queria ver. Essa viria a ser uma situação que durante vários anos levou os dignitários do Céu a andar quase sempre de mala aviada por essas terras fora, procurando, quando a oportunidade surgia, regressar «amparados» nas incursões dos realistas.
Mais tarde, ao referir-se ao papel que alguns membros das santas instituições desempenhavam em favor das incursões monárquicas contra a República, o poeta Guerra Junqueiro terá ensejo de dizer: «Tudo isto é obra dos padres. A questão, não me farto de o dizer, é esta: Nós devíamos pôr-lhes a mesa, sem afronta, o peru já trinchado. Vinham todos, porque o padre português não tem convicções. O padre português, em se tratando da barriga, tanto lhe faz que as pessoas da Santíssima Trindade sejam três como trezentas.» *
* Raul Brandão, Memórias, II, Perspectivas e Realidades, Lisboa, s.d., p. 128.
Mas, com padres ou sem padres, o Portugal republicano estava longe de se livrar da crítica severa que a todo o instante lhe era movida.
Um curioso retrato do país é o que ressalta da resposta do prestigiado médico republicano Júlio de Matos a um «Inquérito á Vida Literária» publicado no jornal República de 4 de Setembro de 1912:
«(…) Temos grandes feitos no passado. Só a epopeia dos descobrimentos marítimos faz a admiração de todas as nações. Depois disto, que parece ter sido o nosso papel, caímos, abastardamo-nos.
«Tudo o mais que temos feito tem sido por arrancos, semelhantes aos do enfermo que num dado momento concentra todas as reservas nervosas para produzir um certo acto e sucumbe em seguida.
«Somos os homens da ocasião. Passada ela, não somos os mesmos.»
(…)
«Aí tem um exemplo bem frisante. Tendo verificado quanto a monarquia era ignóbil, pusemos os ombros a esse velho muro e derrubámo-lo. Depois disso, que se fez? Os homens que haviam tomado a direcção desse esforço, não tendo que fazer, começaram a esgadanhar-se. Em vez de combinarem a maneira de construir uma pátria nova, fizeram partidos, dispersaram as suas forças.
«E continua assim, até que o perigo exterior nos excite de novo. É preciso estarem sempre de aguilhão em punho para nos obrigarem a fazer qualquer coisa.
«Se não, veja: foi preciso que os realistas nos entrassem em casa armados e equipados, para vermos os chefes políticos agrupados, em louvável cooperação patriótica, em volta do presidente do ministério.
«E oxalá que esse movimento patriótico, que se traduz em artigos de um certo vigor na imprensa, tenha salutares consequências na vida do país.
«Mas o carácter do povo português manifesta-se numa simples coisa como observou um escritor estrangeiro que nos visitou: – a insistência com que usa da palavra amanhã. Tudo é deixado para amanhã, ainda o que hoje poderíamos fazer num ápice, de modo que o amanhã em que as coisas deviam ser feitas nunca chega, continuando a não fazer nada e sempre muito aborrecidos, como quem esgotou as forças antes de começar o trabalho.
«Já fomos grandes; mas nada somos hoje. Fomos um país de navegadores; hoje seremos, quando muito, um país de «mergulhadores». Já andámos ao de cima; agora rastejamos pelo fundo.»…
À República iam faltando vozes empenhadas na defesa da orientação que estava a ser seguida pelos governantes. Pelo contrário, muitas foram as críticas que a República teve de suportar ao longo da sua curta existência.
Embora justas, numa considerável maioria, essas críticas chegavam aos limites de uma violência incrível.
Entre os que levaram mais longe o poder do seu verbo está sem dúvida Fernando Pessoa.
A ferocidade de Pessoa para com a República e para com os seus mais destacados dirigentes, em especial Afonso Costa, está bem patente na recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão, com introdução e organização de Joel Serrão, edição da Ática, Lisboa, 1979, com o título: Fernando Pessoa. Da República (1910 – 1935). São dessa recolha os trechos que se seguem:
«A situação de Portugal, proclamada a República, é a de uma multidão amorfa de pobres diabos, governada por uma minoria violenta de malandros e de comilões. O constitucionalismo republicano, para o descrever com brandura, foi uma orgia lenta de bandidos estúpidos.
Mas – e assim é a humanidade –, através de tudo, e até nas almas de muitos desses bandidos, subsistia qualquer coisa do impulso lírico do ideal originário. E assim se via bandidos da pior espécie – gatunos de alma, vadios orgânicos – baterem-se com bravura pelo ideal que julgavam que tinham.»
«O observador imparcial chega a uma conclusão inevitável: o país estaria preparado para a anarquia; para a república é que não estava. Grandes são as virtudes [de] coesão nacional e de brandura particular do povo português para que essa anarquia que está nas almas não tenha nunca verdadeiramente transbordado para as coisas!
Bandidos da pior espécie (muitas vezes, pessoalmente, bons rapazes e bons amigos – porque estas contradições, que aliás o não são, existem na vida), gatunos com seu quanto de ideal verdadeiro, anarquistas-natos com grandes patriotismos íntimos de tudo isto vimos na açorda falsa que se seguiu à implantação do regime a que, por contraste com a monarquia que o precedera, se decidiu chamar República.
A monarquia havia abusado das ditaduras; os republicanos passaram a legislar em ditadura, fazendo em ditadura as suas leis mais importantes, e nunca as submetendo a cortes constituintes, ou a qualquer espécie de cortes. A lei do divórcio, as leis de família, a lei de separação da Igreja do Estado – todas foram decretos ditatoriais, todas permanecem hoje, e ainda, decretos ditatoriais.
A monarquia havia desperdiçado, estúpida e imoralmente, os dinheiros públicos. O país, disse Dias Ferreira, era governado por quadrilhas de ladrões. E a república que veio multiplicou por qualquer coisa – concedamos generosamente que foi só por dois (e basta) – os escândalos financeiros da monarquia.
A monarquia, desagradando à Nação, e não saindo espontaneamente, criara um estado revolucionário. A república veio e criou dois ou três estados revolucionários. No tempo da monarquia, estava ela, a monarquia, de um lado; do outro estavam, juntos, de simples republicanos a anarquistas, os revolucionários todos. Sobrevinda a república, passaram a ser os republicanos revolucionários entre si, e os monárquicos depostos passaram a ser revolucionários também. A monarquia não conseguira resolver o problema da ordem; a república instituiu a desordem múltipla.
É alguém capaz de indicar um benefício, por leve que seja, que nos tenha advindo da proclamação da República? Não melhorámos em administração financeira , não melhorámos em administração geral, não temos mais paz, não temos sequer mais liberdade. Na monarquia era possível insultar por escrito impresso o Rei; na república não era possível, porque era perigoso, insultar até verbalmente o Sr. Afonso Costa. (…)
E o regime está, na verdade, expresso naquele ignóbil trapo que, imposto por uma reduzidíssima minoria de esfarrapados morais, nos serve de bandeira nacional – trapo contrário à heráldica e à estética porque duas cores se justapõem sem intervenção de um metal e porque é a mais feia coisa que se pode inventar em cor. Está ali contudo a alma do republicanismo português – o encarnado do sangue que derramaram e fizeram derramar, o verde da erva de que por direito mental, devem alimentar-se.
Este regime é uma conspurcação espiritual. A monarquia, ainda que má, tem ao menos de seu o ser decorativa. Será pouco socialmente, será nada, nacionalmente. Mas é alguma coisa em comparação com nada absoluto que a república veio [a] ser.»
«A monarquia portuguesa, é certo, era um regime de ladrões e incompetentes. Mas era um regime que estava cá há oito séculos, que, pelo menos exteriormente, estava identificado se não com a nacionalidade, pelo menos com a existência ostensiva da nacionalidade. Substituí-lo por um regime que, além de não ser nacional de modo nenhum, continuava as mesmas tradições (estas sim!) de gatunagem e de incompetência., agravando, se talvez não a gatunagem, por certo que a incompetência – eis uma coisa para que não valia a pena ter derramado sangue, perturbado a vida portuguesa, criado maior soma de desprezos por nós do que os que já havia no estrangeiro.»
Afonso Costa era o alvo predilecto de Fernando Pessoa. O principal chefe republicano era arrasado para além da sua actividade como político:
«A. C. é um dos maiores bandidos que têm aparecido à superfície da política lusitana. Tipo perfeito de adiantada-fome, […] do alto cacique.»
«Franco seria um tirano de merda; este (Afonso Costa) é um tirano de caca.»
«Af. Costa é o perfeito tipo do salteador político. Maior […] não deparou o Destino à política. O seu partido é as fezes da República.»
«Mas como pode ser libertador um pobre idiota que nunca se libertou a si de coisa alguma? Como pode libertar ou ajudar a libertar um escroque-nato (diabo [?], como diz o Evangelho)? Que compreensão da liberdade-pátria […] tem um secundário da vida, que nunca assimilou uma vida, nem criticou um facto? que nunca pariu de seu cunho filho que o seu […] fracasso, mas andou abrindo as pernas do espírito, prostituidamente, a quanto genitor intelectual afadistado [?] de compreensão deparou na estrada do destino – filhos aliás em que só mostrou a maternidade do seu espírito pela deformidade em que as crias borram [?] o já de si paterno tipo intelectual de Libertador-Aquiles [?]? Mero passeio de vista baixa, capão de alma, sem crenças, nem decências, nem aspirações – Carimbiborrão de quem o pariu, jesuíta vermelho, de uma […], de uma subtileza que não intruja, de uma […] – falho mesmo como malandro, cão [?] também como intrujão, tipo patibular a quem não vale a pena de morte estar abolida em Portugal, porque não faltam […] – alma […], nem escasseiam espingardeiros.
Restos do festim monárquico, que nos querem obrigar a comer em prato sujo, de orla vermelha e verde, quando temos que comer, e não nos falta água para ter pratos limpos para o jantar do povo [?]. Corra-se com aquilo. Varra-se da vista da consciência pública esse livro humano.
Que te há-de um português chamar, ó merecedor de termos, para que ainda não há nenhuns conceitos? […] pulha, bandalho, pernicioso [?], […] – como todos estes termos falham ante o teu merecimento de insultos, oh hiper-tudo-isto!»
Mas não só Afonso Costa era vexado pelo poeta da Mensagem. Outras figuras de proa da República eram visadas pela veemência de Pessoa:
«Alexandre Braga é um aborto de um imaginativo conservado em álcool. Os acontecimentos tiram dele um som agradável mas falhado como uma faca batendo num copo esvaziado e rachado. Esvaziado digo, e não vazio, para que até o inútil da metáfora se nos torne útil por completamente.»
«Bernardino Machado, no discurso do Porto, mostra-se tão ignorante de como se é subtil, tão brutamontes no cá-estou-eu, tão labrego no insinuar, tão indecentemente saracoteador da sua candidatura, que qualquer meio-juízo compreenderia o que de anti-diplomático, não-frio e nada-esperto aquele espírito é. E esta consideração sobressalta porque nos põe na alma uma interrogação do que seria nas […] do ministério dos negócios estrangeiros a acção de tão desmandada besta. O discurso do Porto faz na […] da verdade a frase retratadora de Homem Cristo: pano-[…] era o que ele chamara a Bernardino. Chamara-lhe também […]; mas há melhor no […] género -«Bernardino Manchado» sabe [?] menos da exactidão alfabética – porém mais vincadamente perto da precisão descritiva.»
Que a República não ia bem, era um facto. Mas tanta fúria!…
Em 2 de Dezembro de 1912, o grupo parlamentar do Partido Democrático aprova uma moção do senador Sousa Júnior «considerando terminada a época das concentrações, de que nenhum benefício tem resultado para a República; assim, logo que o presidente do Ministério abra a crise a que se declarou irrevogavelmente disposto por motivos exclusivamente pessoais, o grupo retomará a sua liberdade de acção, aceitando nas câmaras a situação de oposição ao governo que a constituição delas lhe impõe.» O partido de Afonso Costa retira assim o seu apoio ao governo, fragilizando a posição do mesmo, numa altura em que o Ministro das Finanças apresentara as contas do tesouro, com um deficit de 6 600 contos, tido como superior aos dos últimos anos do governo monárquico.
