Selecção, tradução e nota introdutória por Júlio Marques Mota
Nota Introdutória ao texto de Bill Mitchell, Um deprimente relato da minha estadia em Florença
Um texto importante onde Bill Mitchell, um dos economistas contemporâneos mais relevantes na análise da crise europeia, caracteriza bem os políticos europeus que se submetem ao diktat da Troika , ou que até querem ir mais longe que ela própria. Já vimos que Paul Craig Roberts chama aos actuais políticos europeus umas verdadeiras marionetes, mas longe de nós imaginar que estes mesmos políticos possam ser apelidados de macacos submissos à vontade soberana da Troika, como o faz Bill Mitchell neste texto. Considera ele que estes políticos na sua submissão ao diktat de Bruxelas aceitam desfazer-se do património nacional dos respectivos países, por isso mesmo e a preço de saldo como muito bem o sublinhou Jacques Delors, e desta maneira ficarem bem na fotografia com a Troika. Assim é em Itália, assim é em Espanha, assim é na Grécia, assim é em Portugal, assim é na Irlanda, assim é em França e em muitos outros países mais.
Júlio Marques Mota
Um deprimente relato da minha estadia em Florença
Bill Mitchell, A Depressing Report from Florence
Billy Blog, 24 Novembro de 2014
Estou em Roma hoje e amanhã. Esta tarde vou fazer uma apresentação na Universidade Roma Tre (Università degli Studi Roma Tre) sobre a moderna teoria monetária (MMT) e de como é que nós podemos fazer avançar a difusão das ideias. Há na Itália um grupo de pessoas muito empenhado em querer construir uma presença política na luta contra a dominação neoliberal, dominação esta que infestou todos os principais partidos em Itália (aqui e em todos os lugares). A primeira coisa que precisam fazer é a de esquecer MMT como um veículo organizativo e, em vez disso, articular uma visão que faça avançar a prosperidade e o interesse público. MMT é uma caixa de ferramentas ou uma estrutura de pensamento para compreender as consequências das decisões económicas (privadas e públicas) sobre os agregados macroeconómicos. Não é uma agenda política. Sugeri que se concentrem sobre o pleno emprego, a segurança no trabalho, as mudanças climáticas, a redução das desigualdades e em fazer avançar um programa assente na criação de oportunidade para todos como o veículo de organização dos seus próprios esforços políticos. Caso contrário, existe o perigo de que eles vejam a MMT como um culto. De qualquer forma, eu deixei a mesa-redonda em Florença pensando que são necessárias mudanças dramáticas sobre a forma em que a UE está estruturada para que a Europa possa vir a retomar todos aqueles temas como seus principais objectivos de política. Concluí também que as elites estão tão arreigadas ao seu pensamento neoliberal e ao seu próprio profundo sentido de preservação como classe que muito pouco irá mudar e o desemprego em massa irá persistir pelos anos vindouros. É uma situação muito penosa, muito triste.
A mesa redonda – como podemos nós governar a Europa? – foi organizada pelo novo grupo dos media italiano – eunews – que visa proporcionar uma análise para além do fluxo diário de notícias sobre assuntos da União Europeia, nomeadamente a economia. Falei com um dos fundadores e o projecto tem mesmo muito valor.
Eu tinha como objectivo poder fornecer o suporte áudio da minha apresentação, mas esse plano caiu por impossibilidades de ordem técnica e organizacional ad hoc. Fomos convidados a preparar apresentações de slides de 20 minutos, mas a chamada moderadora decidiu, dada a sua maneira de ver e fazer as coisas sem consultar ninguém, que em vez disso ela questionaria o painel. Desculpem-me então, não houve nenhuma apresentação formal.
A minha contribuição era previsível – são os problemas que os Estados-membros enfrentam pela construção – os europeus deliberadamente criaram um sistema monetário que iria falhar logo que aparecesse um grande choque económico sobre a despesa e suas posições políticas tornar-se-iam insustentáveis [como de resto se verifica]. Sublinhei que se a Grécia pudesse retomar o crescimento do emprego à taxa que os gregos tinham alcançado no período de 2000-08 (0,3 por cento por trimestre) então a Grécia levaria até ao final do segundo trimestre de 2034 para atingir o pico no PIB alcançado antes da crise (final do segundo trimestre de Junho de 2008).
Com uma população muito modesta e o crescimento da força de trabalho, a taxa de desemprego ainda estaria acima de 17 por cento em Junho de 2034 a esse ritmo. Isto não pode ser o produto de um sistema que só precisa de alguns ajustamentos marginais – – que é a abordagem adoptada pela elite política da UE.
O sistema está em disfunção, com fortes tendências para a crise e a estagnação, e deve ser profundamente reestruturado. Eu sugeri que a Itália deva mostrar uma certa liderança e abandonar todo este ridículo tratado.
Mas enquanto a maioria dos oradores (não apenas no meu painel) estavam agora felizes em admitir que o problema derivava da insuficiente procura agregada (despesa), todos eles acreditavam que a zona euro poderia trabalhar dentro das actuais regras e da presente estrutura. Havia poucas pessoas na conferência (os oradores ) que pensavam na saída do euro como sendo a atitude desejável. Isto, por si só já me espanta.
Falei com algumas pessoas que se afirmam firmemente como de “esquerda” no espectro político por razões de ordem económica e social e estas opunham-se à saída da zona euro querendo, em vez disso, reforçar a integração. O principal raciocínio que pude deduzir dessa extraordinária posição de “esquerda” no contexto actual foi a de que a extrema-direita estava a assumir a defesa da opção de saída do euro e a “esquerda” não podia estar associada ao eurocepticismo.
Isto também me surpreendeu. Que pudesse haver uma tal falta de aspiração de liderança táctica na “esquerda” espantou-me. Argumentei que o desafio era antes o de marcar bem as diferenças (e há mesmo enormes diferenças em termos de política social e de atitude face à imigração, às mudanças climáticas, etc) e até mesmo em algumas das questões económicas, que nunca se poderá dizer que esquerda e direita poderia ser vistas como quase a mesma coisa, que esquerda e direita seriam quase confundíveis.
Se voltarmos atrás e analisarmos a situação da Alemanha na década de 1930, os nacional-socialistas rejeitaram a prescrição da política económica ortodoxa (neoclássica) para resolver a Grande Depressão e foram keynesianos antes de Keynes. A gestão macroeconómica foi excelente e permitiu que se alcançasse o crescimento no volume de emprego muito mais rapidamente do que noutros lugares. Com toda a certeza, as suas aspirações nacionais eram e foram terríveis, como o foram igualmente as suas políticas sociais. Mas devia a “esquerda” rejeitar os grandes pacotes de estímulo macroeconómico do sector público só porque os nazis também o estavam a fazer?
O outro argumento apresentado pela “esquerda” contra a saída da zona euro é que as pessoas já não confiam nos seus sistemas políticos nacionais e pensam que o par BCE/Bruxelas constitui um corpo de políticos mais competentes para elaborarem as políticas a fazer. Este argumento é particularmente aplicado ao caótico e muitas vezes corrupto sistema político italiano.
Há uma certa verdade no argumento de que a cultura intersecta a própria economia. Por exemplo, mesmo se as principais ideias de MMT são compreendidas, é ainda a política disfuncional que continua a ser aplicada e a gerar os pobres resultados que se vêem.
(continua)
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