UM DEPRIMENTE RELATO DA MINHA ESTADA EM FLORENÇA, por BILL MITCHELL – III

Falareconomia1

Selecção, tradução e nota introdutória por Júlio Marques Mota

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Um deprimente  relato da minha estadia em Florença

Bill Mitchell, A Depressing Report from Florence

Billy Blog, 24 Novembro de 2014

(CONCLUSÃO)

As prioridades são claras. Uma nação que tinha sofrido uma taxa de desemprego de digamos  9,9 por cento nos últimos três anos não é considerado  estar em desequilíbrio , dado que o limite de aviso é de  10 por cento. A Comissão escolheu este limiar muito elevado  devido ao facto de  ” estar centrada no ajustamento dos mercados de trabalho  e não nas suas  flutuações cíclicas”.

Por outras palavras, eles não consideram o problema do desemprego em termos da insuficiência de postos de trabalho provocada pelos deficientes níveis de despesa pública  mas, ao contrário, consideram que as grandes  preocupações  em política devem ser as chamados questões  ‘estruturais’.

Isto,  por sua vez, concentra a sua atenção sobre   “ os impedimentos do mercado’, o habitual enviesamento neoliberal, o enviesamento pelo lado da oferta   que falhou desde que se tornou  a abordagem dominante na década de 1990.

No  relatório anual da Comissão “‘Alert Mechanism Report” , que é baseado numa revisão do painel de MIP, qualquer referência ao desemprego é geralmente acompanhada por uma conclusão de  que os salários são muito altos e têm de ser reduzidos em consonância com o crescimento da produtividade.

Não há nenhum reconhecimento pela Comissão Europeia  de que a recessão duradoura tenha provocado quer a redução da taxa de crescimento da produtividade quer os desempregos a desaparecerem,  o que é devido  à insuficiência na despesa. Os decisores políticos europeus estão, portanto, ‘contentes’, com os altos níveis de desemprego e escondem ainda as suas intenções numa linguagem que consideramos de cínica.

Outro enviesamento  é evidentemente a  forma como na Comissão Europeia  se lida  com os excedentes e défices na balança  corrente. Concluem que ” os  excedentes sustentados na balança  corrente não levantam o mesmo tipo de  preocupações sobre a sustentabilidade da dívida externa e das capacidades de financiamento, preocupações estas que podem afectar o bom funcionamento da zona euro”, como o fazem os défices  na balança  corrente.

O MIP então concede “um maior grau de urgência” para os “países com grandes défices   na sua balança corrente e com  perdas de competitividade”. O limite superior de aviso (para um excedente ) é de 6 por cento do PIB [ e de – 4% para um país em défice] . Se a regra do equilíbrio orçamental é satisfeita por uma dada nação que, por sua vez, está situada  no limiar do excedente na sua  balança corrente, então o seu ‘ sector privado interno estará a entesourar em geral  6 por cento do PIB.

Para onde irão estas economias, estas poupanças não investidas? Este era o tema  que Daniel Gros tratou na sua apresentação.

Noutros textos, tenho discutido como é que a Alemanha manteve a sua competitividade externa, uma vez que já não pode  manipular a sua taxa de câmbio. As reformas de Hartz em 2004 reduziram a capacidade dos trabalhadores em partilhar o crescimento da produtividade da economia e a procura interna foi reprimida.

Como consequência, as oportunidades de investimento lucrativos  ficaram assim limitadas na   economia alemã e o  capital procurou obter lucros noutros lugares. Os grandes e persistentes  excedentes externos (e  6 por cento é muito) foram pois a razão para que tenha havido tanta dívida a ser constituída em Espanha e noutros países.

No “Alert Mechanism Report 2014’’, emitido a 3 de Março de 2014, a Comissão Europeia concluiu que a Alemanha tinha um desequilíbrio macroeconómico como resultado do excedente da  sua balança  corrente estar  acima do limite de 6 por cento.

A Comissão reconheceu que os grandes excedentes foram, em parte, devido à supressão de despesas internas  e, portanto, de redução das importações.

Mas eles elogiaram os excedentes, porque eles “fornecem poupanças  para serem investidas no exterior”. Eles concluíram que a Alemanha terá que encontrar formas de “fortalecer a procura interna e o potencial de crescimento da economia”. No entanto, eles esquivam-se à  questão principal. Uma maior procura interna  exigirá um mais rápido crescimento de salários para aumentar o nível do  consumo, de si  muito modesto,   e atrair investimentos para o mercado interno.

Mas essa mudança estaria em desacordo com a mentalidade mercantil que domina a nação alemã porque reduziria a vantagem competitiva que Alemanha desfruta sobre outras nações que tem tratado os seus trabalhadores de forma mais equitativa.

Daniel Gros, também não falou da alta taxa de poupança na Alemanha neste contexto. Ele disse que esta era cultural. Os alemães são pessoas austeras que gostam de viver como pobres. E mais importantes, os efeitos deflacionários desse comportamento não podem ser alterados pela política do governo.

Daniel Gros alegou que se pode “levar um cavalo ao bebedouro para beber  água mas não podemos obriga-lo a bebê-la “. Assim,  Gros deixou a audiência  a pensar que o governo era impotente para alterar os excedentes elevados nos Estados do norte da Europa.

Mas o que ele se esqueceu de mencionar – uma omissão no que se refere ao comércio externo também feita pelas autoridades europeias, pela OCDE  e pelos académicos presentes naquele painel que foi:

  1. as pessoas poupam mais porque há um grande medo do desemprego e da perda de rendimento.

  2. as pessoas não estão a gastar muito na Alemanha porque os seus salários reais foram cortados ou estão estagnados desde há anos como resultado de uma estratégia deliberada do governo para minar as posições competitivas dos outros parceiros da zona do euro, uma vez que o Bundesbank já não poderia manipular a taxa de câmbio.

  3. aumentar os salários reais e levar assim a que os alemães consumam mais – isto é a “prole do elefante”!

  4. e o elefante – se o sector não-governamental não quer gastar por um qualquer motivo e o governo não os pode obrigar a gastar, então, qual é a solução óbvia?

Claro, não sendo as pessoas a gastar, deve ser o governo a fazê-lo por si-mesmo ! Duh!

Esta recusa em permitir uma tal perspectiva na zona  euro é a razão pela qual eles não podem escapar a este mal-estar. O governo alemão poderia aumentar o seu défice (agora até está com um ligeiro excedente) em vários pontos percentuais, o que  iria aumentar os rendimentos em toda a sua economia e um dos primeiros princípios que se ensina em Macro  é que o consumo privado é uma função positiva do rendimento nacional.

Entende-se bem.  Os governos da zona euro são impotentes para actuar porque a Comissão tem-nos metidos dentro de uma camisa de forças que é o  Pacto de Estabilidade e Crescimento e os neoliberais estão a dizer  a todos que  assim se irá  impulsionar o crescimento. É desonesto para não dizer doentio  e o Groupthink in Europe está tão  inflexível nesta lógica que até mesmo a esquerda os acompanha.

Interessante, Richard Koo esteve presente no meu painel e sublinhou que os saldos sectoriais não governamentais eram tão elevados  que havia uma necessidade de défices orçamentais e com estes a deverem ser pelo menos  duas vezes maiores  na maioria dos países da zona euro.

O seu argumento era que se o sector não-governamental não quer pedir dinheiro emprestado para  re-canalizar ra elevada poupança interna  em despesa  (bens de investimento), então  o sector governo deve ele mesmo fazer essa  despesa  (e contrair os empréstimos).

Richard Koo, porém, é não um aderente à  MMT. A sua análise da recessão  por via da austeridade orçamental é um caso especial quando os bancos centrais têm taxas de juros em zero e as pessoas, mesmo assim,  ainda não contraem empréstimos e não gastam, portanto.  A razão que ele dá para este estado da situação é que o sector  privado está a reequilibrar as suas contas , [ a desalavancar diríamos] depois de um período de endividamento excessivo.

Essa lógica é sólida, mas em seguida ele conclui que quando as posições  financeiras são reparadas, são os princípios didácticos do pensamento económico dominante (neoliberal)  que regressam – multiplicador monetário, perigo de défices orçamentais,  levando a um aumento da taxa de inflação   assim como ao aumento das taxas de juro  e todo o resto da mitologia neoliberal.

Assim e por  agora, Koo é um companheiro de viagem defendendo défices orçamentais  muito mais elevados, mas uma vez retomado o crescimento Koo caí no campo neoliberal. Por  outras palavras, o o seu quadro global é profundamente defeituoso  e só aparece estar correcto nas  actuais circunstâncias.

Conclusão

De forma geral uma bonita experiência  mas que desiludiu.

Mas para quem nos lê nem tudo foi perdido!

[…]

E chega por hoje !

Bill Mitchell, A depressing report from Florence, publicado a 24 de Novembro de  2014.  Texto disponível na versão original em:

http://bilbo.economicoutlook.net/blog/?p=29550

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Publicação autorizada pelo autor, gentileza que muito agradecemos.

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Para ler a Parte II desta informação de Bill Mitchell sobre a mesa-redonda de Florença, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas vá a:

UM DEPRIMENTE RELATO DA MINHA ESTADA EM FLORENÇA, por BILL MITCHELL – II

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