MITO&REALIDADE – Terror e Morte em Lisboa – 43 – por José Brandão
carlosloures
Estava assim concluída a intervenção da justiça nos crimes da Noite Sangrenta. O julgamento tinha-se arrastado por tempo suficiente para poder deixar o caso bem esclarecido. Todavia, esse não era o parecer de muito boa gente, que continuava a pôr no ar a grande interrogação:
– Quem seriam os que prepararam a aura do terror?
O jornalista Rocha Martins teimava em questionar:
– Condenados só vi, até agora, os executores, aqueles cujas culpas não oferecem dúvidas, os que não podem lavar das mãos e das fardas o sangue derramado.
– Trabalharam por sua conta estes carrascos? – insistia Rocha Martins. – Saiu das suas cabeças essa ideia terrível de assassinar gente honrada e deixar com vida tantos miseráveis? Repito. Não sei. Só a eles vejo condenados e o seu silêncio acerca da ação dos chefes é singularíssimo em quem carece defender-se.
– Quem preparou a aura do terror? – voltava a interrogar. – Das suas revelações é que depende a justiça, não a do tribunal republicano, que só condena marujos e soldados, mas a outra, a que algum dia, tarde ou cedo, se fará em nome da Nação.
Afinal, para que servira o julgamento de 1923?
Sabe-se que para tomar as decisões de que resultou a sentença «estivera o júri encerrado em reunião, primeiramente, desde as 21 horas e 30 minutos de 31 de maio até às 5 horas e 15 minutos de 1 de junho, sendo a discussão entre os seus membros por vezes tão acalorada, que se ouvia o ruído dela na sala do tribunal» E que «àquela hora, ante as respostas dadas aos quesitos, começou o juiz auditor a redigir a sentença; porém, às oito horas interrompeu esse trabalho, com a alegação de haver algumas contradições entre aquelas respostas, e o júri voltou a reunir por mais hora e meia».
Sabe-se da sentença, lida já depois do meio-dia, após horas de expectativa e da demorada leitura das longas considerações preambulares.
Sabe-se das condenações.
«Mas… Penas?» questiona Raúl Rêgo em 1987.
«Severas para os executantes ou intervenientes nos crimes daquela noite; mas não se deslindou por inteiro a teia de quem estava por detrás dos marinheiros nem donde viera o dinheiro e a quem aproveitariam os crimes. A quem podia interessar o desaparecimento de republicanos, alguns, aliás, apenas figuras carismáticas, embora alistados em partidos ou capelas bem diferentes? Não se foi ao fundo da questão de saber onde estavam os verdadeiros mandantes.»
[…]
»Quem congeminara o atrelamento da camioneta-fantasma à revolução radical de 19 de outubro?
Quem matou foi condenado; mas quem mandou matar os homens para aniquilar o regime ficou livre.»
Bastavam estas linhas de Raúl Rêgo para se poder evoluir na direção de conclusões mais ousadas.
O julgamento de 1923, o tribunal do Governo democrático nessa altura em exercício, a justiça da República com presidente em funções de mais alta magistratura, não chegaram para pôr a claro tudo o que se passou em 19 de outubro de 1921.
Se era só uma conspiração monárquica, católica, reacionária ou estrangeira, como é possível que então a República deixasse escapar aqueles que tramavam o seu fim?
Se era mesmo uma ação republicana, maçónica, radical ou democrática, porquê depois Salazar mandou silenciar o assunto?
Em MemóriasDuma Época, escritas em 1973 por um filho do destacado dirigente republicano Sá Cardoso, podem ser lidas duas interessantes passagens referentes ao que aconteceu na Noite Sangrenta.
A primeira pertence ao período em que o trabalho de Berta Maia se vê finalmente compensado com as revelações do Dente de Ouro:
«A Ditadura, já então bem instalada em Portugal, apesar de estar na sua infância, não deixou, por estranhas razões ou porque atingia alguns dos seus apaniguados, que prosseguisse o esclarecimento público, nem que se fizessem as acareações e novas averiguações que se impunham.»
A segunda referência fala duma outra época e diz:
«Que ainda em tempo da I República, quando do apuramento das responsabilidades, se criaram propositadamente situações equivocas, de intrigas, de incompetências, de incompatibilidades, etc., etc., apenas com uma única finalidade de não se descobrir a verdade da Noite Sangrenta e o castigo dos respetivos mandantes e executores.»
Recorda-se que o autor destas memórias é filho de um dos dirigentes políticos da I República mais bem colocados em toda a história do regime de 1910 e ele próprio testemunha dos acontecimentos de 1921 que viveu e acompanhou de forma ativa.