MITO & REALIDADE – Terror e Morte em Lisboa – 45 – por José Brandão

Ia começar a segunda parte de um drama que uma mulher, só, sem recursos, e na maior amargura, arrastará até à morte.

«Berta Maia é a encarnação suprema da dor, é, com o seu arzito insignificante de senhorinha, morena, de olhos vivos, claudicante e assombrada ainda, a personificação da amargura e do amor por um corpo de herói caído numa cilada.

Ele, o José da Maia, amava-a com um desses afetos dos quarenta anos em que se dá tudo quanto uma alma refletida nos combates da vida pode encontrar de sublime para oferecer; queria-lhe como raramente se pode estimar alguém e desde que o filhito nasceu mais entranhadamente – se é possível – se lhe dedicara. Divinizara-a ao torná-la mãe.

Vibrante, nervosa, louca pelo seu homem, adorando-lhe a bravura e a sensibilidade – ele era uma criança grande –, se não comparticipava dos seus triunfos públicos, essa coxinha singela de modos e desentranhada em ternura não sentia o viver no próprio coração, que lhe entregara, mais do que os seus menores desejos, do que as suas mais pequeninas impressões.»

É esta mulher que Rocha Martins retrata com tão grande desvelo quem vai fazer o que o tribunal não tinha feito.

«Só procurei cumprir o meu dever ao buscar a verdade inteira que me roubou o carinho daquele que amei», afirma na dedicatória do livro que mais tarde dará a conhecer à opinião pública, e onde conta a história das suas entrevistas com Abel Olímpio, o Dente de Ouro.

– Tu falarás, não hoje, neste tribunal, mas mais tarde, tu falarás – dissera ela ao assassino do seu marido, quando ainda decorria o julgamento.

Depois daquela noite assombrada, vira o Dente de Ouro passado pouco mais de um mês. Foi no Governo Civil. Era o primeiro de vários encontros que vão acontecer durante cerca de cinco longos anos. A sua reação ao ver o assassino do marido não pôde ser outra:

– Conheces-me? Olha bem para mim. Não me deste tiros, mas vê bem que eu sou um cadáver!

Ao longo de vários anos Berta Maia irá encontrar-se com o tenebroso preso n.º 102 da Cadeia Penitenciária de Coimbra na esperança de saber mais sobre a morte do marido. Ao fim de muita persistência, Abel Olímpio, o Dente de Ouro da Noite Sangrenta, acabará por produzir declarações que a heroica viúva publica num pequeno livro onde revela dados que punham em causa a autenticidade do julgamento de 1923.

Berta Maia nunca se resignara com a verdade encontrada. O castigo penal de Abel Olímpio não lavava as mãos da justiça portuguesa.

Ela sempre acreditou que por detrás dele havia muita coisa escondida e que um dia ele haveria de falar: «Eu tinha-lhe dito, ali naquele Tribunal que pretendeu julgá-lo, mas que pouco mais fez do que condená-lo.»

Agora não podiam restar mais dúvidas: o julgamento de Santa Clara deixara por apurar as grandes responsabilidades do 19 de outubro e de tudo o que com esta data está relacionado.

Pode-se torcer o nariz a muito daquilo que é apresentado pelo Dente de Ouro. Pode-se pensar como o espanhol Jesus Pabón e dizer: «É explicável que o republicanismo lusitano não se resignasse àquela primeira sentença. A atuação pública do coronel Manuel Maria Coelho, chefe da sublevação, representava trinta anos de vida, de 31 de janeiro de 1891 a 19 de outubro de 1921. Condená-los em massa, reconhecer que acabavam no crime, era o mesmo que condenar a República. Era indispensável procurar outra interpretação.» Pode-se, enfim, levantar as mais inconcebíveis suspeitas e não acreditar mesmo em nada daquilo que é dito pelo Dente de Ouro. Contudo, como referia Berta Maia: «As declarações do Abel, embora feitas naquelas circunstâncias em que nem os maiores criminosos sabem mentir, não atingiriam toda a importância que têm se não pudessem ser confrontadas com as declarações de pessoas de categoria que com ele acamaradaram nos conciliábulos revolucionários.» E foi exatamente isto que nunca chegou a ser feito. Talvez não tanto por aquilo que o Dente de Ouro diz; mas mais pelo que as suas palavras acabam por mostrar, as entrevistas de Abel Olímpio a Berta Maia são a glória de uma mulher a quem mataram o homem mas não mataram a coragem. São também a resposta ao vazio de uma justiça a transbordar de temores e rendida a todos os ditames da lógica do poder político.

Por tudo o que conseguiu, e que se via, e também pelo que se podia ver, sem ter conseguido, Berta Maia estava agora mais segura para poder dizer:

– Não, o Abel Olímpio foi apenas um instrumento! Ele não foi o maior criminoso. Infinitamente piores do que ele foram esses que o aliciaram, que lhe deram dinheiro, que o incitaram à matança e, finalmente, que o deixam morrer num cárcere.

E após tanto sofrimento provocado por aquele homem cruel que lhe roubara a alegria de viver, ela ia reclamar:

– Porque não soltam esse homem que expia no presídio de Coimbra o crime hediondo que outros planearam, conceberam e prepararam, escondendo-se, no fim, atrás do seu vulto de fanático boçal? Porque não hão de dar-lhe a liberdade se os piores criminosos andam à solta? Não serão eles, portanto, mais criminosos que os boçais executores do seu plano tenebroso?

Esta era a felicidade de uma mulher que vivia infeliz.

«A morte de meu marido despojou-me de toda a felicidade que é possível nesta vida. Estou ainda viva porque não se morre de dor e porque os assassinos me deixaram nos braços uma criancinha que eu quero educar no culto da puríssima memória à sombra da qual me alimento duma saudade que o tempo não apaga

QUATRO LIVROS FUNDAMENTAIS SOBRE A NOITE SANGRENTA.

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