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CARTA DE ÉVORA – “Évora: cidade dilacerada!” – por Joaquim Palminha Silva

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           Com a economia de mercado e a implantação da sociedade de consumo, e consequente multiplicação da oferta de artigos (crédito bancário, casa própria, automóvel, televisão, electrodomésticos), veio também o desenvolvimento das “indústrias” culturais com o seu reino da quantidade, prestando culto às actividades do lazer, qualquer que seja a fórmula utilizada. E, assim, o território dos centros históricos das cidades foi conquistado pelo ideal fanático da performance, da sedução publicitária, com vista ao consumo.

            A cidade e o seu centro histórico, tecido urbano de antigas sociabilidades quotidianas entre moradores, passaram a ser percorridos por mais ou menos turistas segundo a época do ano, caçadores de imagens de ruínas históricas, visitantes distanciados da vivência local, pacíficos forasteiros admiradores de monumentos e visitadores de museus. O centro histórico da cidade começou então a sofrer várias transformações observáveis a olho nu.

Uma atmosfera supostamente festiva procura promover o centro histórico como produto a consumir: – Itinerários pelo património a desfrutar em grupo, segundo temáticas previamente escolhidas (p. e. rota das igrejas), semanas ou meses gastronómicos com base na cozinha regional (semana do borrego, das ervas de cheiro, do porco, etc.), mini-feiras regionais de promoção de produtos locais, utilização da Praça principal como espaço de marketing, centros comerciais (em Évora, por exemplo, as lojas das Arcadas são um “centro comercial” a céu aberto!), saldos, lojas chinesas de preços reduzidos; lojas de artesanato, repetitivas como um bazar turco, parasitando a rua pública, umas a seguir a outras; lojas gourmet de vinhos da região, marcadas pela oferta dionisíaca dos mesmos produtos; restaurantes com aspirações a embrulho tradicional…

            O centro histórico da cidade “dessubstancializa-se” e parece querer entrar numa “idade de ouro” do consumo, oferecendo-se aos prazeres mundanos. Às vezes é povoado em excesso pela oferta de futilidades ao consumidor, numa negação aberta à sua habitabilidade tradicional: – Ligado ao “império” da ordem mercantil, às inovações copiadas do estrangeiro, as manifestações religiosas, efemérides e festividades tradicionais vão paulatinamente perdendo a sua predominância tradicional, desaparecendo ou tornando-se folclóricas, sem mensagem, dissolvendo-se na banalidade, baseada no rebaixamento do sublime e da história.

           O centro histórico parece destinar-se às actividades da indústria do lazer, repensado e reconvertido em cenário para espectáculos de ar livre, com artérias reservadas exclusivamente aos peões, com fontes kitschs, esculturas descontextualizadas do tecido urbano e da história da cidade, e uma periódica programação de espectáculos musicais, de marionetes, de vários tipos de animação de rua, quase sempre gratuitos, segundo as disponibilidades financeiras da Autarquia. A urbe milenária, pejada de património histórico-cultural, pretende transformar-se numa cidade recreativa, propícia ao consumo comercial e cultural: – Num recente passado houve um presidente de Câmara Municipal e uma vereação, que chegaram a promover passagens de modelos na acrópole da cidade, parasitando obscenamente monumentos históricos e arquitectónicos emblemáticos, arriscando danificar o património.

            O edifício antigo, com alguma nobreza e volumetria, entretanto abandonado pelos proprietários e com herdeiros desinteressados, é vendido e reconvertido em unidade hoteleira de um grupo internacional; os promotores da “indústria da noite” surgem no seio de travessas e estreitas artérias da cidade (medievais e renascentistas), com os seus bares e boîtes que enchem a noite de decibéis acima do tolerável, e proporcionam o aparecimento de uma população ébria, barulhenta e sem civismo.

            Entretanto, a população universitária, se por um lado proporciona aos moradores, através do aluguer de quartos, um reforço orçamental livre de impostos, por outro lado, cega aos modelos cívicos e de convívio da urbe, escapando aos seus limites, acrescenta enorme agressão à sociabilidade ancestral com as suas orgias vandálicas (nomeadamente as praxes), provocando uma generalizada antipatia dos habitantes. Por seu turno, a dificuldade em reparar o tecido urbano, o elevado custo de materiais, bem como o desinteresse por parte dos proprietários dos edifícios na sua recuperação, seguindo as recomendações da Autarquia, provocou uma procura de habitação fora da cintura das muralhas da velha urbe.

            Mergulhada em escala crescente no «mal-viver» e no sofrimento psíquico de toda a ordem e espécie, a maioria dos habitantes da urbe, procurou desde há muito o seu espaço doméstico em novos territórios onde o conforto do habitat, da casa própria, garante o afastamento dos danos sofridos pela habitação no centro histórico… Os novos bairros crescem e, como que sitiando as muralhas da velha cidade, arremessam-lhe a sua indiferença…

Afinal de contas, a requalificação recente do centro histórico, foi pensada de forma desequilibrada. Apagou quase completamente a figura do morador, para beneficiar o comércio e privilegiar a presença esporádica do forasteiro, do turista, com a agravante de que um orçamento autárquico escasso (e em plena crise geral), não garante o renovamento a tempo e horas de mobiliário urbano estapafúrdio, de pisos de lajes em granito e calçadas, além de que a tutela de monumentos se reparte por entidades diversas, e nem sempre dialogantes umas com as outras.

            Enfim, quanto mais se afirma o desejo de transformar a cidade património da Humanidade num centro de consumo cultural e comercial à la carte, mais se apaga a matriz histórico-cultural da urbe, transformando-a num espaço urbano ferido de morte, cheio de contradições maléficas e abandonado dos seus naturais habitantes. Em resumo, todos escolhem viver longe da cidade…

            Não penso na impossibilidade de um quadro de vida confortável dentro da cintura de muralhas da cidade, mas acredito que é preciso libertar o seu corpo, se assim posso dizer, do esforço inadequado para a requalificar à revelia dos cidadãos, como foi o caso num passado recente, chegando ao ponto de se desfazer espaços verdes ajardinados desde há muito, para em seu lugar recriar imbróglios de arquitecto, que resultaram em armadilhas mortais para os transeuntes, sobretudo idosos e crianças. E nada digo sobre o enterramento dos contendores de lixo doméstico, em locais perfeitamente insólitos, em espaços exíguos, espalhando odores nauseabundos pelas vizinhanças, por carência de desinfeção e lavagem a tempo e horas.

            Retocaram a cidade, pretenderam dinamizar a sua imagem, é verdade que diminuíram talvez a poluição numas artérias, mas sobrecarregaram outras. O racionalismo funcionalista e utilitário, em ordem ao comércio e aos forasteiros, dissociou-se dos valores da beleza natural, da memória histórica e das raízes do habitante…

            A cidade tornou-se urbe sem sentido, cada dia esvaziada do seu conteúdo clássico pelo emprego de modelos inadequados, processando-se um desinvestimento da sua realidade como espaço histórico e humano… A cidade, o seu centro histórico, desdobram-se patéticos, sem tábua de valores, remetendo toda a crítica, como o presente texto, para a classificação de puro devaneio nostálgico de cavalheiro retrógrado…

 

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