CARTA DE ÉVORA – “Fragmentos” – por Joaquim Palminha Silva

evora

            Depois de olhar para mim com espanto e desilusão devo declarar: – Disseram-me que sou filho de um homem e de uma mulher… Estranho… Sempre julguei ser muito mais… Então não sou feito à imagem e semelhança de Deus?!

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            Um dia tive um pesadelo parecido com a tomada de colher de sopa de «óleo de fígado de bacalhau»: – Vi um jornal de guarda-chuva na mão da manchete, a subir para o eléctrico no Dafundo, cheio de lágrimas de offset e a roupa dos títulos em desalinho… Acrescento: tinha algumas gralhas na goma das palavras de colarinho. Disseram-me que fugia apavorado com a situação a que “isto chegou”! Algumas pessoas mais informadas garantiram-me fugia de cabeça perdida, completamente escandalizado com a pouca vergonha no uso da tinta e do papel! Apareceu quem sabia que o jornal, de nome Vespertino, antes de fugir, dissera aos gritos ao director: «Seu canalha! Não minta!»…

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            Há uma grande vergonha intelectual que ninguém quer aceitar: – As capas dos livros cada vez aparecem mais pintadas de bonecada, de efeitos especiais… Parece que o seu coeficiente máximo está no papel de embrulho!

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            Os que amam e odeiam pelas frinchas da vida, fazem-no apinhados de medos, enxovalhados de obrigações… – Entretanto, foram todos empurrados para a periferia!

            Espaço urbano onde vive a multidão das prestações mensais, é aí onde se comprime o maior número de votos dos regimes democráticos, onde habitam os de fatos enxovalhados, os que fazem girar a máquina civilizacional.

A periferia é o terreno das cidades deixado vago propositadamente, para aí despejar entulho humano que transborda da cidade, a multidão que sufoca a minoria, oque vivem dos restos!

Na periferia vivem os que ruminam ideias de despejo… – A periferia, é o espaço de um tempo de agonia! É o no man’s land da cidade ocidental! Na periferia vive o rebanho que serve para a sociologia exercitar definições… Na periferia vive também… o perigo social!

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Os sonhadores insuportáveis de revoltas para direcções novas, tem de aprender a abrigar-se das balas de cinismo dos mandantes… se querem sobreviver para contar História!

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Esperamos que não nos espalmem a pouca satisfação de viver aqui, como se fossemos um insecto pisado!

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Há especialistas que pensam muito sobre a globalização… Sociólogos e economistas que tentam “representar” quanto é “positiva” a mundialização económica… – E se fizessem uma nova leitura interpretativa da globalização, pensando que, por exemplo, a solidariedade universal deve ser encarada como um princípio jurídico?!

A solidariedade é uma ideia universal, apesar das suas variantes geográficas, o que possibilita o seu revestimento como princípio jurídico inscrito no direito universal!

 

 

 

 

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