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CARTA DE LISBOA – Nada é sagrado, só salgado – por Pedro Godinho

lisboa

No tempo em que as religiões continuam a permitir que se mate em seu nome, que os governantes continuam a mentir para monopolizar o poder, que os financeiros continuam a maquilhar contas para nos esbulhar as poupanças que nos restam, tal é a força da mecânica, continuamos a repetir Feliz Natal.

Tanto queremos a felicidade que nos queremos (ou nos querem) convencer que basta recitá-lo como um mantra. Bem podemos lembrar que no princípio era o verbo e afirmar a força da palavra – que a tem, indubitavelmente – mas é coisa pouca se apartada da acção – fazer para acontecer.

A alienação está presente no verbo sem acção como na acção sem palavra. Por isso, ambas – palavra e acção – são alvo das oligarquias que lhes preferem a consagração do dogma e da inércia. Porque desafia uma e outra, a arte é transformadora – para o bem e para o mal.

Os presentes pretendem valer o que diz a etiqueta, a amizade vale por si.

Quem não se quiser embriagar no sagrado rendimento do Natal do comércio pode ir espreitar a exposição Sagrado Profano e encontrar na sua ironia simples (que não ingénua) uma forma diferente de celebrar o natal. E de ver que já nada é sagrado, só salgado.

No castelo de Pirescouxe, Santa Iria de Azóia, nas franjas de Lisboa.

 

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