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SOBRE A FORMA COMO OS HOMENS QUE ESCREVEM A HISTÓRIA NOS ANOS 30 VÊM A MESQUINHEZ DOS QUE A QUEREM OBSTRUIR NOS DIAS DE HOJE- OS MEUS VOTOS DE FELIZ ANO NOVO – INTRODUÇÃO – por JÚLIO MARQUES MOTA

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Sobre a forma como os Homens que escrevem a História nos anos 30 vêm a mesquinhez dos que a querem obstruir  nos dias de hoje- Os meus votos de Feliz Ano Novo

Introdução

 Ao nível do blog A Viagem dos Argonautas escrevi o seguinte texto como mensagem de Natal:

“Estamos no Natal e diga-se o que se quiser, é uma data que na sua vivência própria simboliza os ideais de igualdade, de fraternidade, de unidade. A mensagem de Cristo afinal a que Spartacus terá acrescido a necessidade de liberdade. Um conjunto de valores que alimentou o Homem durante milénios, uma mensagem que agora é relembrada nesta data festiva e que muitas vezes por falta de condições da sua materialização desemboca em violência, violência construtiva, progressista nos seus objectivos diremos nós. Poder-se-á ignorar Cristo, mas nunca a sua mensagem, ´eo que nos ensinou pessoalmente o marxista Henri Lefèbvre, numa sua passagem por Lisboa. Dessa violência dois grandes exemplos, a Revolução Francesa, a Revolução Russa, com destinos trágicos em cada uma delas.

Um exemplo deste ponto de vista é-nos dado por Slavoj Zizek que tenta pensar Robespierre e o Terror como um momento numa história que é simultaneamente muito mais complexa e mais clara dado que é também a história do eterno desejo de igualdade entre os homens e escutemos, precisamente, à maneira de conclusão, o que nos diz Zizek, (…) , no livro Robespierre: entre vertu et terreur (edições Stcok): “A minha tese é a de que “ há situações onde a democracia não funciona, onde esta perde a sua substância, onde é necessário reinventar modalidades de mobilização popular. O Terror não se resume a Robespierre. Havia então uma agitação popular, encarnada por figuras ainda mais radicais, como Babeuf ou Hébert. É necessário recordar que se cortaram muitas mais cabeças depois da morte de Robespierre que antes – mas ele tinha cortado a cabeça dos ricos. ”

Repondo a mensagem de Cristo ou inversamente desfazendo nela, dois textos vos envio hoje, um com o título A pesada linguagem da austeridade – mas os pecadores são santos, de Bill Mitchell, onde se procura dignificar todos aqueles que combatem o neoliberalismo, o verdadeiro colete de forças que se abate sobre a civilização ocidental, e onde se mostra que os grandes pecadores afinal são eles os santos, os mártires, nesta crise, e um segundo texto com o título O Comissário Moscovici em campanha pela austeridade onde inversamente aqueles que se intitulam como santos, os defensores da ordem e dos valores inerentes a esta ordem, a de Bruxelas, a da Troika, do BCE e do FMI, são os verdadeiros pecadores face aos valores universais que esmagam sobre a bota da austeridade. Este último é um texto sobre a Grécia martirizada, em que esta talvez represente a imagem do que poderá ser toda a Europa amanhã, se não aprendermos a resistir à destruição que metodicamente está a ser realizada.”

Face a este texto, um dos meus amigos de longa data agradeceu-me o texto reproduzido com o seguinte comentário:

“Mas não vejo que precisemos de “compreender” o terror.”

A este comentário respondi com o seguinte texto curto :

“ Diz-me:

“Mas não vejo que precisemos de “compreender” o terror”

Digo-lhe, por este caminho é isso, isso mesmo, o que se aproxima. Ou então os Deuses silenciaram a capacidade de revolta. Se esta CAPACIDADE não é silenciada, o transbordar, o trickle-down ao contrário, é isto o que pode dar.”

E repare-se no despudor com que a classe dominante se posiciona face à opinião pública, como se este inferno em que vivemos tenha que ser visto como um Paraíso na Terra.  Vejam-se as declarações de Passos Coelho sobre a situação do nosso país, das quais reproduzo o seguinte excerto:

“Este será o primeiro Natal desde há muitos anos em que os portugueses não terão a acumulação de nuvens negras no seu horizonte. Será o primeiro Natal desde há muitos anos em que temos o futuro aberto diante de nós. Houve muita coisa que mudou em todo este período e finalmente começamos a colher os frutos dessas transformações”

Ler mais em:

http://expresso.sapo.pt/passos-coelho-menos-nuvens-negras-e-horizonte-aberto-para-2015=f904004#ixzz3N2cYC5rP

Nenhuma das suas afirmações seriam aqui relevantes se nesta nossa mesma linha de análise não tivesse eu há umas semanas atrás desafiado o nosso Primeiro-ministro a justificar não em termos de demagogia mas sim em termos de economia ao povo português o sentido e o objectivo das medidas de austeridade aplicadas, aqui em Portugal e por todo o lado nesta Europa agora subjugada ao fundamentalismo neoliberal e religioso dos homens do Bundesbank, ou seja, subjugada ao imperialismo alemão, tout court. Não se trata da submissão a um IV REICH porque lhe falta o poderio opressivo e militar, diz-nos Ulrich Beck, e diremos, talvez. Sim, talvez Beck tenha razão, mas então trata-se de uma equivalência funcional exactamente a um IV REICH de uma outra natureza (económica em vez de militar) que nada garante que não venha já a caminho, exactamente devido ao caminho que as coisas estão a tomar, a delinear-se talvez a partir da próxima Primavera, se é que não será já a partir de 29 de Dezembro próximo, em Atenas.

Mas olhemos para a resposta dada por mim a este meu amigo de longa data. Esta não difere muito da resposta dada por Willem Buiter, economista e antigo conselheiro chefe do Presidente do BERD, um profundo conhecedor da realidade europeia e que este meu amigo muito bem conhece, quando afirmou a um jornalista: “Estou admirado de não ver o sangue correr nas ruas da Europa”. O mesmo problema de que eu falava ao meu amigo de longa data, é disso  que nos fala também  Willlem Buiter e que pessoalmente resumi como o trickle-down ao contrário. Reencontrar nas  palavras de Buiter  em Outubro de 2014 , o mesmo dilema, o mesmo receio, o mesmo  medo de que a crise actual desemboque numa enorme onda de violência é algo que nos deve levar a pensar; reencontrar nas suas palavras a ideia  de que a actual crise, uma verdadeira catástrofe que a todos atinge, nos leve  a transbordar todos os muros da racionalidade e de, assim, se passar da  violência espontânea à  violência organizada, como reacção à  violência institucionalizada de agora é, de facto, um paralelismo   que nos deve levar a interrogar; em suma, tudo isto  nos deve levar a reflectir sobre o que, urgentemente, se deve fazer   não só para evitar a passagem a esta segunda catástrofe, como para eliminar a primeira e abrir caminho a uma nova sociedade, a uma nova forma de viver em conjunto..

Não muito diferentemente é também a posição de Eric Dupin quando nos fala hoje da posição de algumas das figuras da política francesa relativamente ao regresso do  “ Terror “ . Numa síntese do que sobre  este tema específico escreveu Eric Dupin, podemos considerar  que é também a este período que explicitamente Jean-Luc Mélenchon se refere  quando convocou  uma manifestação para o dia próximo 5 de Maio, véspera do dia aniversário da eleição de François Hollande em 2012 mas também data da abertura dos Estados gerais em 1789. O antigo candidato do Frente de Esquerda está, parece, convencido do carácter pré-revolucionário do período actual. Para acabar  com “um sistema que revela a sua podridão  intrínseca”, apela a  “uma Constituinte”. Do outro lado do espectro político, à extrema-direita, do lado dos mais ricos, encontramos o mesmo sentimento de inquietação, “ estamos a regressar a 1789” diz-nos Alain Affletou, estamos em vais de criar um clima de guerra civil que se assemelha a 1789” diz-nos a patroa do MEDEF,    Laurence Parisot.

Legenda: A sessão inaugural dos Estados Gerais, em 5 de Maio de 1789.  (Auguste Couder).

Pode-se naturalmente encontrar alguns pontos  comuns entre 1789 e 2014. A dívida pública era, na  época, já uma questão  essencial. Mas é sobretudo a exasperação popular e o estado de desconfiança recíproca entre dirigentes políticos  e dirigidos que nos aproxima deste remoto período.

Seria contudo necessário muito mais para ver aparecer uma nova Revolução. Hoje qual é a classe ascendente,  equivalente ao que era   então a burguesia, que se prepara para substituir a elite decadente? Por muitos  que eles sejam numericamente, as classes populares estão desfasadas e dotadas de uma fraca consciência colectiva dos seus interesses, ou seja, o desfasamento entre o em-si e para-si de que nos fala o autor da Fenomenologia do Espirito ou mesmo o autor de  O Capital.

Não se vê que grupo social seria capaz de enfrentar a burguesia financeira, ela sim, dotada de uma verdadeira “consciência de classe”. E à volta de que ideias novas a pôr em prática? Não é estar a ofender ninguém ao sublinharmos a ausência de equivalente contemporâneo à filosofia das Luzes, que alimentou e alimentava  a esperança revolucionária de então.

Fim da dominação ocidental sobre o mundo, esgotamento de um tipo de crescimento baseado na sobre-exploração da natureza, patologias sociais que minam territórios ou continentes inteiros e que tornam cada vez mais difícil que cada um de nós se sinta em sociedade: são inúmeras as mutações e as desregulações que nos  obrigam  a estar  atentos às novidades e aos enormes riscos do presente. Estamos efectivamente em 2014, e é precisamente isto  que é inquietante. Ou será antes excitante?

Não há  dúvida de que  sob múltiplos pontos de vista vivemos o fim de um mundo.   Daí a  inquietante atmosfera crepuscular na qual nos banhamos inconfortavelmente  e a tentação é extremamente forte e bem compreensível de conscientemente querermos olhar  o futuro pelo  retrovisor.

Recordemo-nos  da famosa definição de crise dada pelo  teórico marxista Antonio Gramsci: “A crise, é quando o velho  está a morrer e o novo hesita em nascer. ” Em trabalho de parto desde 2008, pelo menos, tudo leva a crer  que este parto será mesmo muito violento e de efeitos incalculáveis dada a dimensão da tragédia que  por maldade, ingenuidade ou  ganância, tem estado a ser criada pelos nossos dirigentes e seus fiéis servidores.

A crise do pensamento, esta, por seu lado dá-se quando os velhos óculos já não nos  permitem  ver correctamente a realidade e em que face a isso nos faltam e instrumentos conceptuais adaptados para apreender as evoluções a despontar, o pós parto de que falamos. Vítimas de uma dupla crise, portanto, é a situação que todos nós estamos a viver e dela a sofrer. E a partir daqui, a violência do parto acima referido e pela ausência dos homens equivalentes aos das Luzes,   pode admitir todo e qualquer cenário possível, entre os quais o do Terror, não temos dúvidas disso, como respondi a esse meu amigo de longa data.

Na análise da dupla crise a que se refere explicitamente Eric Dupin e implicitamente Buiter, podemos porém ir bem mais longe, recuar no tempo e auscultar antes os discursos dos homens que fizeram História com H no tempo da Grande Depressão, para reencontrar uma posição semelhante à que demos ao nosso amigo de longa data e na pena e na voz de Marriner S. Eccles, Presidente do Federal Reserve no tempo de Roosevelt, quando ele afirmou no Congresso Americano : “Nós devemos adoptar um plano que enfrente esta situação sob o capitalismo, ou um plano será adoptado para nós mas sem o capitalismo … Nós simplesmente temos que nos responsabilizar pelos desempregados e cuidar deles ou nós teremos uma revolução neste país”. Reencontramos aqui, em 1933, o mesmo dilema, o mesmo receio, que encontrámos em Buiter mas tudo isto  nos deve levar a pensar no que na época se fez e na urgência para se ter conseguido evitar   esse transbordar de uma violência a outra. E os homens de então evitaram-na. Os dirigentes  de agora, ao contrário dos daquela época, não a querem evitar, antes pelo contrário, querem-na  incentivar. Basta olhar para as palavras de desprezo de Passos Coelho perante a realidade trágica que ele está a construir, para assim se poder entender. Tudo isto  nos deve então a pensar levar no que urgentemente se deve fazer  para que uma tomada de consciência a colectiva se venha a criar e as pontes para uma nova sociedade se venham assim a estabelecer. E as lições da década de 30 são desse ponto de vista muito importantes.

Reencontrar estes medos em 1933 e as vias de saída apontadas  é pois uma viagem no tempo que francamente aconselho.

Sinceramente vale a pena fazer esta viagem no tempo e ao longo dela confrontarmo-nos com a mesquinhez ou a ganância, disfarçada esta por vezes de ignorância, dos nossos dirigentes de hoje, chamem-se eles Passos Coelho, Cavaco Silva, Jean-Claude Juncker e os seus Comissários Políticos, ou ainda ao nível do BCE, chamem-se eles Vitor Constâncio ou Mario Draghi, homens sem coluna vertebral, os homens que querem salvar o euro no quadro do colete de forças com  que o estão a destruir. Neste último caso será bem útil confrontar o homem que pela via de Goldman Sachs chega a Presidente do BCE, depois deste banco ter manipulado as contas da Grécia, contra os textos de Marriner Eccles. Dois mundos que nada têm a ver um com o outro. A grandeza e a dignidade daqueles que constroem a História contra a mesquinhez ou a ganância, disfarçada esta por vezes de ignorância, daqueles que a querem obstruir, é o texto que aqui vos deixo e espero que este nos ajude a transformar o nosso quotidiano tornando realidade a imagem apresentada por Marriner Eccles no Congresso dos Estados Unidos em Fevereiro de 1933:

Nós devemos adoptar um plano que enfrente esta situação sob o capitalismo, ou um plano será para nós adoptado mas sem o capitalismo … Nós simplesmente temos que nos responsabilizar pelos desempregados e cuidar deles ou nós teremos uma revolução neste país.

 Estes são pois os meus votos de Feliz Ano Novo.

Coimbra, 27 de Dezembro de 2014.

Júlio Marques Mota

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