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A OPINIÃO DE DANIEL AARÃO REIS – Entrevista sobre a Biografia de Luís Carlos Prestes (concedida a “História Viva”, de São Paulo.

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Temos falado sobre esta Biografia de Luís Carlos Prestes, da autoria de Daniel Aarão Reis, cujo lançamento ocorreu o mês passado numa livraria do Rio de Janeiro. Hoje  apresentamos uma entrevista que, sobre esta sua obra, o professor e argonauta concedeu à revista História Viva, de São Paulo.

O seu livro traz inúmeros detalhes pouco conhecidos sobre o Prestes criança. Qual o impacto que as adversidades enfrentadas na infância tiveram na formação do caráter do Cavaleiro da Esperança?

– Aspectos afetivos e familiares têm grande importância na vida de qualquer pessoa, mesmo que determinadas pessoas dediquem-se integralmente à vida política, pública, como foi o caso de Prestes. Mas é preciso evitar o sensacionalismo barato no tratamento de tais aspectos. Foi o que tentei fazer na biografia que escrevi. Na vida de Prestes, a viuvez precoce da mãe, D. Leocádia, e o fato de que se uniu informalmente com outro homem, sendo infeliz na relação, suscitou muita censura, explícita e implícita. O episódio contribuiu para gerar na pequena família de Prestes uma linha de defesa marcada pela reserva e pelo segredo, um condicionamento marcante em toda a sua trajetória posterior.

A presença de figuras femininas marca a vida de Prestes. A mãe, as irmãs, Olga, Anita Leocádia e Maria lhe dão leveza, algo raro no comportamento rígido do líder político. Fale sobre os efeitos da presença feminina ao longo de sua vida.

Não tenho certeza de que as presenças femininas tenham conferido leveza à vida de Prestes. Mas lhe deram amor e segurança, sobretudo Olga, de presença efêmera; Leocádia, a mãe; e Maria, a mulher de sua vida, pronta para enfrentar as adversidades que viessem. Todas elas seguraram todas e mais algumas, grandes mulheres, deram-lhe amor e conforto.

Em contraposição, poucos homens desfrutaram da amizade de Prestes. Com exceção de Siqueira Campos, a quem dedicava especial consideração, não se identifica ao longo da biografia um companheiro com que ele conversasse sobre questões fora da política. Por que essa dificuldade?

A amizade com Siqueira Campos ficou aureolada pela morte precoce do mesmo. Não é certo que não se desentendessem mais tarde, mesmo porque Siqueira estava decidido a participar do movimento de 1930, que Prestes criticava de forma contundente. Mas não se pode dizer que não teve outros amigos. O problema é que Prestes era um cara muito reservado, discreto a mais não poder. As agruras e adversidades da vida o fizeram assim.

Durante os anos de marcha da Coluna, Prestes construiu a imagem de chefe militar engenhoso e admirado pela tropa, com sua fama superando à de Miguel Costa. Até que ponto essa visão é correta? Como ele via o fato de, em diversos momentos, Miguel Costa ser colocado em segundo plano?

Minha pesquisa me convenceu que a preeminência de Prestes na saga da Coluna – e o apagamento do papel de Miguel Costa – foi uma construção memorialística. De oficiais do exército, desgostosos de ter um oficial da Força Pública de São Paulo como chefe. De comunistas, descontentes com o fato de que Miguel Costa nunca se aproximou do comunismo. O fato é que Prestes sempre reconheceu a chefia de Miguel Costa e este prêmio de honestidade intelectual não poderá lhe ser negado.

O otimismo exagerado levou Prestes a avaliações equivocadas sobre a conjuntura política. O problema se repete na Coluna, na revolta de 1935, no período de legalidade do PCB e no governo de Jango. Mesmo com a sequência de erros, seu capital político se manteve quase que intacto.Como isso se explica?

É preciso concretizar a análise, estudar cada episódio concretamente. Em relação à Coluna, o erro foi compartilhado por todos os chefes da guerrilha – todos esperavam que a Coluna suscitasse revoltas urbanas. Na insurreição de 1935, Prestes e os soviéticos foram induzidos a erro pelas avaliações formuladas pelos comunistas brasileiros – eles estavam convencidos que o Brasil era um barril de pólvora, pronto a explodir. Nos outros episódios citados, Prestes também não errou sozinho, eis que a grande maioria dos chefes comunistas acompanhavam suas análises. Para entender os erros de Prestes – que, insisto, não foram só dele – é necessário compreender o contexto social.

Apesar de derrotado, Prestes, em alguns momentos, manteve uma aura de guerreiro admirável. O fenômeno deve-se a suas próprias qualidades, inegáveis, e ao fato de que as sociedades, às vezes, tendem a cobrir com homenagens os vencidos, os derrotados, talvez para compensar a própria “culpa”, por não ter acompanhado seus “heróis” nos enfrentamentos épicos. É interessante constatar como, em certos momentos, Prestes só foi popular porque derrotado.

Entretanto, nem sempre isto aconteceu. A derrota de 1964, por exemplo, foi fatal para o prestígio de Prestes. Ele nunca mais recuperaria a preeminência que fora a sua.

Ainda que tivesse viés notadamente progressista, o Prestes do período da Coluna carregava preconceitos. Sua visão sobre os camponeses e a tropa era impregnada de estereótipos. Como ele consegue mudar? Qual a influência de sua conversão ao comunismo?

Os homens da Coluna – todos eles – eram republicanos consequentes – questionavam o regime político elitista, corrompido e excludente que existia no Brasil. Mas nunca chegaram, enquanto a Coluna durou, a colocar em dúvida os fundamentos sociais e históricos da República liberal. Queriam-na plenamente realizada, mas não pretendiam destruí-la. Nunca imaginaram sublevar o povo, mesmo porque não confiavam na capacidade política das camadas populares, avaliadas como inconscintes, “atrasadas” e resignadas.

Mais tarde, no exílio, Prestes, em contacto com comunistas brasileiros e argentinos, lendo a literatura marxista e leninista disponível, efetuaria mutação decisiva. Passou a analisar o processo histórico com categorias marxistas-leninistas e isto alterou radicalmente sua visão do país e de seu processo histórico.

Mesmo afastado das Forças Armadas, Prestes mantem ao longo da vida um comportamento tipicamente militar. Mesmo com críticas, o antigo capitão nutria admiração pelo Exército. Qual era a imagem de Prestes dentro dos quartéis antes e depois da Revolta de 1935?

Penso que, na avaliação da trajetória de Prestes, houve uma superestimação do peso de sua formação militar. Tornou-se um lugar comum que sua rigidez provinha da experiência militar. A meu ver, tal rigidez deve-se mais à formação familiar, às reservas que era preciso manter sobre os “segredos” familiares e à formação comunista num tempo em que ser comunista significava uma devoção sem limites à revolução e ao Partido que a encarnava.

Não é exato que Prestes nutria admiração pelo Exército. Cedo decantou-se esta admiração, substituída por um grande enfado, um certo desprezo e um incontornável nojo da instituição militar. Daí sua recusa, em 1930, em 1945 e em 1979, à anistia e à incorporação aos quadros do Exército, mesmo na condição de reservista.

Seu ingresso no PCB só ocorre por conta da pressão exercida pela Internacional, enfrentando as suspeitas de dirigentes que sempre criticaram o prestismo. Como ele supera a desconfiança inicial?

Havia rivalidades políticas e pessoais a serem superadas. Os dirigentes do PCB, nos anos 1930, antes da insurreição revolucionária de 1935, tinham receio de que Prestes empolgasse o Partido ( ele tinha grande prestígio nas bases partidárias) e os desbancasse. Racionalizavam este receio, atribuindo a Prestes desvios de caráter pequeno-burguês, aproveitando-se da linha política, aprovada pela Internacional em 1928, que previa enfrentamentos abertos e apocalípticos com a Ordem vigente. O problema, para eles, é que Prestes incorporou sem reservas a proposta radical da Internacional, anulando os argumentos que insistiam sobre supostas divergências políticas ou ideológicas. Restaram os medos pessoais, a disputa pessoal pelo poder, um ingrediente inevitável da luta política.

Até que ponto o otimismo exagerado e a visão militarista de Prestes contribuíram para a rápida derrota da Revolta de 1935?

O otimismo exagerado, sem dúvida, pesou, e muito. Mas insisto que este otimismo era compartilhado pelos comunistas brasileiros, pelos soviéticos e até pelos militantes internacionalistas deslocados para o Brasil. Quanto ao militarismo, tenho dúvidas. A insurreição de 1935 previa um enfrentamento social não se limitando a uma quartelada, como um certo lugar comum tende a supor. Os levantes nos quartéis tinham sua importância, sem dúvida, mas não estavam isolados, como nos anos 1920.

A relação com Getúlio Vargas sempre foi marcada por aproximações, afastamentos e desconfiança mútua. Como o senhor vê o confronto de personalidades tão distintas e marcantes?

Vargas era um político pragmático, almejava o poder pessoal a todo o custo. Mas tinha também um programa: nacionalista e estatista. Prestes, depois da conversão ao comunismo, tornou-se um quadro político comprometido com a perspectiva da revolução social. Tomaram rumos distintos, radicalmente diferentes, era impossível tê-los no mesmo lado. Entretanto, de acordo com as circunstâncias, puderam fixar objetivos comuns e fazer alianças, mas sem envolvimentos de ordem pessoal. Prestes desprezava Vargas, tinha repugnância pessoal por ele. Quanto a Vargas, cultivava interesses e não sentimentos.

A imagem que ficou para a história é a de Prestes liderando o partido desde o seu ingresso no PCB. Mas durante anos ele teve apenas o papel de “personalidade”, não de líder. Essa condição não o incomodava?

Prestes tornou-se um líder partidário somente a partir da anistia de 1945, quando saiu da cadeia depois de nove longos anos de prisão. Entretanto, nunca teve o traquejo e a esperteza de dirigentes partidários acostumados a lutas internas complexas pelo controle do aparelho partidário. Foi mais líder político que dirigente partidário. E assim seria até o rompimento com o Partido, em começos dos anos 1980.

Qual a importância do período na prisão para a formação política de Prestes?

A experiência da prisão, anos tormentosos como disse D. Leocádia, sua mãe, foi decisiva para forjar seu caráter. Entretanto, como ficou praticamente isolado o tempo todo contribuiu pouco para incrementar sua experiência política.

No período que antecede a sua libertação, observa-se o resgate da figura mítica do Cavaleiro da Esperança, do herói. Quais foram os elementos que permitiram esse resgate? Não havia um traço stalinista de culto à personalidade? Como Prestes lidava com isso?

 A aura de herói que cercou Prestes em 1945 é a aura romântica que costuma cercar vencidos e derrotados. Exprime uma tradição entranhada não apenas no Brasil, a da personalização e da heroicização da política. Costumo afirmar que a experiência dos vencidos pode iluminar a sociedade que os venceu. Quando a sociedade aureola os vencidos está confessando sua incapacidade em se reformar, em se revolucionar.

Com um histórico de defesa intransigente das revoltas revolucionárias, Prestes e o PCB ingressam no jogo da política institucional em 1945. O partido cresce, elege parlamentares e chega aos 200 mil filiados. Mas seu registro é cassado em 1947 e as massas não protestam. Onde estava essa massa de militantes?

Resposta. Os filiados do PCB estavam dispostos a lutar no terreno legal e eleitoral, mas não tinham disposição de enfrentar a Lei e o Estado. Imaginar que eles estariam prontos para o enfrentamento aberto, armado e apocalíptico foi um erro funesto.

13.Prestes e o PCB eram extremamente críticos com os demais partidos de esquerda, mas fizeram alianças até com políticos da UDN. Como justificar tamanha contradição?

Resposta. A contradição é apenas aparente. Políticos elitistas, de modo geral, não concorriam com os comunistas na disputa das massas trabalhadoras. Já os demais partidos de esquerda concorriam com os comunistas. Feita a ressalva, é preciso dizer que os comunistas muito raramente se aliaram com os udenistas. Por outro lado, em muitos mais oportunidades, aliaram-se diversas vezes com forças de esquerda ( com os trabalhistas – em 1945, e a partir do suicídio de Vargas, até 1964) ou estiveram em “frentes”que compreendiam forças de esquerda (Frente de Mobilização Popular, às vésperas do golpe de 1964)

14.Os seguidos períodos de clandestinidade afetavam a capacidade de análise política de Prestes?

Resposta. Sem dúvida. A clandestinidade raramente é boa conselheira. A possibilidade de erros de avaliação aumenta muito em períodos de rigorosa clandestinidade, como aconteceu com Prestes entre 1948 e 1958 e depois do golpe de 1964.

Qual a autocrítica que Prestes faz com relação ao comportamento do PCB antes do suicídio de Vargas?

Resposta. Em depoimentos, Prestes sustentou ter percebido a necessidade de alianças com os trabalhistas antes do suicídio de Vargas, cercado pelas direitas. Não encontrei, porém, evidências de documentos ou testemunhos a este respeito. Ao contrário: no próprio dia do suicídio, em 24 de agosto de 1954, saiu uma entrevista de Prestes em jornal controlado por comunistas com críticas contundentes a Vargas e a seu governo.

Como Prestes reagia às constantes autocríticas e revisões de linha por parte do PCB?

Como qualquer comunista, reorientando sua orientação e sua prática. Um ex-comunista (Fernando Claudin) disse um dia que a dialética é a arte de sempre cair de pé. Os comunistas, quando deixavam de lado os erros cometidos, sempre caíam de pé. E frequentemente não os reconheciam.

O otimismo exacerbado e a crença inabalável no avanço do socialismo impediram Prestes de se preparar para o retrocesso de 1964?

Contribuíram, sem dúvida. Mas é preciso não fazer de Prestes um bode expiatório. Muitas lideranças, comunistas e outras, nacionalistas, também viam o quadro com grande otimismo. O despreparo das forças de esquerda frente à derrota de 1964 foi um equívoco universalmente compartilhado. Diga-se, a bem da verdade, que nem as direitas acreditavam naquela vitória tão facilmente conquistada.

Causa surpresa que um dos erros da Revolta de 1935 tenha se repetido em 1964: a confiança em um dispositivo militar que não funcionou. Mais uma vez o setor militar do PCB, o Antimil, teve falhas e não entrou em operação. Como Prestes encarou o novo fracasso?

 A pergunta tem um grão de verdade. Tanto em 1935 quanto em 1964, as expectativas na “esquerda militar”foram exageradas. Na verdade, os militares nacionalistas evidenciaram medo do povo e por isso refugaram o enfrentamento. A decepção de Prestes foi enorme.

A perda de influência política para os grupos que defendiam a resistência armada à ditadura sangrou o PCB. Desapareceu – e jamais voltaria – o “apelo revolucionário” da legenda. É possível dizer que a radicalização da esquerdas na década de 1960 marca o início do fim do partido como ator relevante no cenário político?

A situação é mais complexa. As esquerdas armadas também foram liquidadas. Como o Partidão fora crítico à luta armada, em tese, ele poderia recolher dividendos do fracasso de seus “rivais”políticos. Não aconteceu. Em grande parte, porque o PCB não soube elaborar uma política “de esquerda” para o período que evitasse simultaneamente o recurso à luta armada. Não era uma coisa fácil e Prestes empenhou-se nesta direção, mas não encontrou caminhos capazes de traduzir suas intenções. Enquanto isto, o Partidão envolveu-se numa política a reboque do MDB, confundindo-se inteiramente com este. Prestes sempre sem opôs a isto, mas, como já disse, não soube conceber e explorar alternativas.

Prestes viveu períodos de exílio, retornando sempre como relevante ator político. Mas sua volta em 1979, de certa forma, deflagra o processo de perda de influência – até culminar com sua saída do PCB. Como isso pôde ocorrer com o líder histórico do partido?

Quando voltou do exílio, Prestes cultivou um grande equívoco – imaginou que, na transição para a democracia, o país conheceria uma conjuntura com potencial revolucionário. Apostou todas as suas fichas nesta hipótese. Errou feio. E ficou isolado. E assim permaneceria até a morte.

Fora do PCB, qual foi o papel político de Prestes?

Resposta. Isolado, desprezou alternativas de organização partidária para o qual o convidavam grupos prestistas em vários estados do país. Parecia conformado numa espécie de “esplêndido isolamento”. Talvez, convencido de que seria melhor semear para o futuro. Deste ponto de vista, não foi nada leninista, na medida em que Lenin sempre defendeu uma atuação partidária.

Após concluir a biografia, qual a imagem que fica de Prestes para o senhor?

Prestes devotou-se de corpo e alma a uma revolução em que acreditava, mas que nunca ocorreu. Um homem de convicções, e esta foi sua maior virtude (como fazem falta homens de convicções no atual momento político brasileiro…). Mas apostou numa revolução impossível. Este foi seu maior erro.

Daniel Aarão Reis

17 de dezembro de 2014

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