DANIEL AARÃO REIS EM ENTREVISTA AO DIÁRIO DA MANHÃ: «Getúlio foi o pai dos pobres e a mãe dos ricos»

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Diário da Manhã – Getúlio, interpretado por Tony Ramos, retrata o personagem real?

Daniel Aarão Reis Filho – Ainda não vi o filme.

DM – O Getúlio Vargas que entrou para a história é o mesmo do Estado Novo?

Daniel Aarão Reis Filho – O culto a Getulio Vargas dificulta muito, quando não impede, ou oculta, a exposição da dimensão brutalmente repressiva do Estado Novo e do papel de Getulio Vargas como dirigente máximo deste Estado.  A militância getulista é forte entre os historiadores e tem se reforçado mais nos últimos anos. Para esta militância, a associação de Vargas com a tortura como política de Estado, é insuportável.

DM – A polícia política da ditadura civil e militar não seria a mesmamontada por Getúlio Vargas e Filinto Muller?

Daniel Aarão Reis Filho –  Há grandes diferenças, mas há também semelhanças. A grande diferença é que, no Estado Novo, a repressão não alcançaria o nível de centralização que aconteceu na ditadura mais recente.  Mencionaria duas semelhanças: o recurso a policiais civis e a tortura como política de Estado. Por outro lado, é simbólico que Filinto Muller, este sinistro personagem, tenha sido chefe de polícia sob Getulio e senador e líder civil durante a última ditadura.

DM -Houve torturas, assassinatos e desaparecimentos à época de 1937 a 1945?

Daniel Aarão Reis Filho – Torturas brutais, dignas da Inquisição, como as praticadas contra Harry Berger, dirigente da Internacional Comunista, preso em 1936, e torturado até enlouquecer. Os beleguins do Estado Novo costumavam usar palmatórias, dar  surras com canos de borracha,  arrancar unhas, queimar presos com maçarico, sevícias sexuais, manter, à força, o preso acordado até atingir o estágio de alucinações, sem contar torturas psicológicas, como manter o preso em isolamento total, cobrindo-o de castigos, com o objetivo não disfarçado a leva-lo à insanidade mental. Sobral Pinto, conservador assumido, portanto, insuspeito, chegou, em certo momento, a invocar a lei de proteção aos animais para defender Luiz Carlos Prestes, seu cliente.

DM – Como foram tratados Luiz Carlos Prestes, Olga Benario, Carlos Marighella e Hermínio Sacchetta pela polícia política de Getúlio Vargas?

Daniel Aarão Reis Filho – Luiz Carlos Prestes e Olga Benário foram poupados de tortura física, mas sofreram bárbaras torturas psicológicas, demonstrativas de um nível demencial de brutalidade. Os outros dois, como quase todos os demais,  não escaparam de torturas físicas.

DM – Os comunistas apoiaram a volta de Getúlio Vargas em1950?

Daniel Aarão Reis Filho – Na época, e desde 1948, os comunistas haviam embarcado numa proposta política de confronto armado com o sistema capitalista brasileiro, viragem consolidada em agosto de 1950, pouco antes das eleições presidenciais, quando passaram a conclamar à luta armada contra o regime. . Em consequência, defenderam o voto nulo na disputa presidencial embora, em alguns estados, tenham aconselhado o voto a candidatos ao parlamento, chamados, na época, os “candidatos de Prestes”.

DM – Há uma reviravolta na linha política do PCB antes do suicídio de Getúlio Vargas?

Daniel Aarão Reis Filho – Durante todo o governo de Vargas, a partir de 1951, os comunistas moveram campanha cerrada de oposição. As forças conservadoras criticavam o velho caudilho pela direita e os comunistas pela esquerda. Mais tarde, Luis Carlos Prestes sustentou que defendeu uma viragem, pouco antes do suicídio, percebendo que o Partido Comunista estava, na prática, aliado às direitas. Não encontrei, no entanto, evidências desta proposta que Prestes teria formulado. Assim, quando aconteceu o suicídio, a ira popular, tremenda, desencadeou-se contra sedes e jornais da direita e também dos comunistas. Só depois é que estes iriam proceder uma grande reviravolta, favorável à aliança com os trabalhistas. A partir daí, e até 1964, os comunistas sairiam do gueto político a que os confinara a proposta de luta armada, assumindo uma perspectiva de amplas alianças com vistas a um processo de reformas.

DM – Quais as semelhanças ou diferenças nas conjunturas e climas políticos entre os 19 dias antes da morte de Getúlio Vargas, as ameaças contra a posse de JK, o golpe de Estado civil e militar de 1964, o escândalo do mensalão de 2005 e os ataques midiáticos a Dilma Rousseff e à cultura nacional-estatista-desenvolvimentista?

Daniel Aarão Reis Filho – Há uma tentação de estabelecer uma linha de continuidade entre todas estas conjunturas. Trata-se, a meu ver, de um procedimento típico da chamada “história retrospectiva”. Ainda seria possível aproximar as duas primeiras conjunturas, até pela contiguidade temporal. Tratava-se, para as direitas, de derrotar Vargas e seus herdeiros imediatos. Já o golpe de 1964 foi dado para conter um processo reformista revolucionário que ameaçava as bases do capitalismo brasileiro, algo qualitativamente distinto. Quanto aos embates entre tucanos e petistas, têm se realizado num quadro inteiramente diferente, onde não se percebem ameaças ao regime capitalista, porque uns e outros se esmeram em gerenciar este regime. A virulência entre estes dois agrupamentos políticos tende a se acirrar em momentos político-eleitorais. A rigor, contudo, entre eles há muitas afinidades, a principal das quais é não questionar o regime vigente em suas bases.

DM – Getúlio Vargas entrou para a História como o pai dos pobres. Qual é o Getúlio Vargas real [Na batalha pela memória]?

Daniel Aarão Reis Filho – Getulio Vargas foi o pai dos pobres e a mãe dos ricos. Neste sentido, Lula e Dilma são seus dignos herdeiros. Mas a memória das classes populares e a militância trabalhista o têm preservado apenas na primeira dimensão. Tal situação tenderá a perdurar enquanto persistir, sem maior questionamento, a hegemonia da Ordem vigente.

Daniel Aarão Reis

Maio, 2014

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