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Carta do Rio – 34 – por Rachel Gutiérrez

A manifestação monumental do último domingo, em Paris, me remeteu às primeiras impressões que tive daquela que é uma das mais belas cidades do mundo. Cidade feminina, cheia de charme e equilíbrio na elegância de sua arquitetura, na beleza de seus monumentos e no esplendor de suas praças e parques. E a atmosfera da Paris que descobri muito jovem, no final dos anos 1950 do século passado, era ainda a do existencialismo de Sartre e de Simone de Beauvoir, da cantora Juliette Greco, da jovem Françoise Sagan, e de tantos intelectuais boêmios que tornaram famosos bistrôs e restaurantes como Les Deux Magots, La Coupole e La Rotonde, nos quais entrei com uma emoção encantada e um tanto reverente.

Flashes da memória trazem de volta o ator norte-americano Tony Curtis empurrando um carrinho de bebê em plena Place de la Concorde; numa livraria, o cineasta Henri-Georges Clouzot, folheando livros e fumando o seu cachimbo perfumado; no teatro, vi Ingrid Bergman em Chá e Simpatia, e o grande François Perier, na comédia Bobosse. Ah!, os primeiros deslumbramentos no velho Louvre que nos espera com as asas abertas da Vitória de Samotrácia: o banho de história, de arte e de beleza. À noite, canções picarescas da Idade Média, no Caveau des Oubliettes e, em outra cave, uma bela noitada de Jazz da melhor qualidade. Nunca esqueci o primeiro contato com o esprit francês na exclamação da vendedora de uma loja, que se opôs à cor do guarda-chuva que eu escolhera: Mais noir, mademoiselle, la pluie est déjà si triste!… (Mas preto, senhorita, a chuva já é tão triste!…).

Paris é sempre uma festa, como disse Hemingway. Em outras visitas e estadas mais ou menos prolongadas, pude frequentar a velha Biblioteca Nacional, o Beaubourg e também o Ircam, que pesquisa e divulga a música erudita contemporânea. E já passeei muito pelo Luxemburgo e pelo Parc Monceau. Um dia, ao sair de uma escada do metrô na estação da Place du Commerce, pensei que estava sonhando: a praça parecia pertencer a um filme de Jacques Tati de tão aprazível e poética. Pura magia.

E existe a Paris dos livros, a Paris de Balzac e de Marcel Proust, a da Place des Vosges e de Victor Hugo, com os esgotos por onde Jean Valjean carregou nos braços o namorado de Cosette, na famosa passagem de Os Miseráveis. Os mesmos esgotos mostrados por François Truffaut, por onde circulam as mensagens velozes, os pneumatiques de seu Beijos Roubados, filme inesquecível, que homenageia Charles Trenet com a canção Que reste-t-il de nos amours? – bela e eterna. Sim, a Paris de Charles Trenet, da Piaff e de Charles Asnavour, a Paris que nos anos 1930 merecera a declaração de amor :J’ai deux amours, mon pays et Paris, da norte-americana Josephine Baker, cantora e bailarina que ainda tive a oportunidade de ver e ouvir, décadas mais tarde em Viena, num show-recital, acompanhada ao piano pelo alemão Peter Kreuder. E ainda tenho um velho CD, que reproduz a mais antiga, a Mistinguett, cantando Paris, la ville du monde…E como uma canção puxa outra, ressoa agora em minha memória a que ouvi muitas vezes na minha infância, anos antes de conhecer a Europa e a França, a romântica e triste J’attendrai, da época da guerra.

Por causa dessa última, recordo aqui não mais uma canção, mas o trecho dramático de um livro admirável, cujo título já é uma delícia: Memórias Híbridas de Uma Senhora de Respeito. Foi o último livro publicado por minha saudosa e querida amiga Carmen da Silva, que era neta de franceses e gaúcha, de Rio Grande. É quando ela narra a reação de sua mãe e de suas tias ao ouvirem pelo rádio a notícia da queda da França e da ocupação de Paris, em 1940, durante a Segunda Guerra Mundial. Gosto tanto desse trecho que o utilizei na minha peça Palavra de Mulher.

Um vento gelado castigava o Rio Grande e as pessoas se enfiavam em casa, apertadinhas umas contra as outras como uma ninhada de bichinhos friorentos,” (…) “Os rádios de então eram enormes monstrengos numa armação de madeira em forma de catedral com uma espécie de janelinha de tela de trama frouxa na parte da frente por onde saía uma voz roufenha. E a voz roufenha dizia coisas de machucar a alma.

Mamãe e minhas tias estavam de pé junto ao rádio. Haviam-se levantado as três de repente, num movimento uníssono como se sua verticalidade devesse compensar a indignidade do que acabavam de ouvir: a claudicação de Pétain, a queda, o desastre, a ideia da França agachada para não se deixar esmagar. Altas, esguias, as costas muito retas, estavam de pé e choravam sem mover um só músculo da face, as lágrimas rolando devagar sem um som, também da rua não vinha qualquer ruído, aquela noite o Rio Grande era uma cidade morta.”

No momento em que esse trecho é citado na minha peça, a música que o acompanha e comenta é de um dos movimentos do Quarteto para o fim dos tempos, de Olivier Messiaen.

 

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