CARTA DO RIO – 122 por Rachel Gutiérrez

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Continuo revendo velhos poemas e evocando a época em que procurava entender os mistérios da criação poética da qual participei, em outros tempos, de forma modesta e bissexta.

No Prólogo do meu livro Narcisismo e Poesia, relatei a experiência da minha primeira leitura, aos 16 anos, das Cartas a um Jovem Poeta, de Rainer Maria Rilke (1875–1926), e o efeito daquela inesquecível descoberta. E não resisti à tentação de citar a frase de Franz Xaver Kappus, o “jovem poeta” destinatário das famosas Cartas, que mais tarde me esforcei por decorar em alemão: Und wo ein Grosser und Einmaliger spricht, haben die Kleinen zu schweigen(que Paulo Rónai havia traduzido assim: quando fala um dos grandes que só uma vez aparecem, os pequenos devem calar-se).

Também citei o trecho da Carta de Paris, de 17 de fevereiro de 1903, na qual o Poeta aconselha o jovem a examinar o motivo que o leva a escrever e pergunta-lhe se ele morreria se lhe fosse vedado escrever. Pois acredito que foi por causa dessa pergunta que precisei esperar mais de trinta anos para que a poesia se manifestasse em mim.

Também falei aqui sobre o nascimento do meu primeiro poema, aos 50 anos, enquanto lia justamente Rilke, na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, numa tarde ensolarada da já longínqua década de 1980 do século passado. Mas o que eu quero examinar agora é o papel do inconsciente na minha simples, ou humilde experiência poética, principalmente em relação a uns versos que escrevi, muitos anos mais tarde, em homenagem ao poeta romeno Paul Celan (1920-1970), cuja vida trágica, assim como sua densa poesia, muito me comoviam e comovem.

Celan, (que se pronuncia Tchelán), é o pseudônimo de Paul Ancel (ou Antschel), que escreveu na língua de sua mãe – o alemão -, já foi considerado o Rilke do século XX, graças ao caráter metafísico que se costuma atribuir à sua poesia.

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A tragédia de Celan se deveu ao fato de seus pais o terem deixado escondido na casa de onde foram levados para um campo de concentração onde vieram a morrer. A culpa do menino por não ter ido junto com eles – e por não ter morrido com eles! -, o atormentou pelo resto de sua curta vida. E o poeta, derrotado por suas angústias e seus fantasmas, jogou-se no rio Sena, em Paris em 1970, aos 49 anos. Sua poesia está indelevelmente marcada pelo horror do holocausto.

Celan estudou medicina e trabalhou como enfermeiro durante a guerra. Morou em Viena e depois mudou-se para Paris, onde se casou, em 1952, com uma artista plástica de família aristocrática: Gisèle de Lestrange. Tornou-se cidadão francês em 1955 e recebeu dois prêmios importantes, o de Literatura, de Bremem, e o Georgh Buichner. Contudo, sofria de um complexo de perseguição e seu estado se agravou quando a viúva de um poeta – Yvan Goll – o acusou injustamente de plágio.

O poema que esse grande poeta romeno me inspirou veio marcado pela imagem da estrela de Davi, a que tem 6 pontas e que foi de uso obrigatório pelos judeus, como se sabe, durante a Segunda Guerra. O número 6 também remete aos 6 milhões de judeus assassinados pelos nazistas.

Eis o poema:

Paul Celan

                             Para Marco Luchesi

 

Seis espinhos tem tua estrela

hexamétrico poeta

seis milhões são do teu povo

os santos à revelia

que a insanidade da guerra

mata e cria. 

 

E entre eles – teus pais!

 

E ainda sofreste a infâmia

de uma falsa acusação!

 

Em teu dilaceramento

tua própria réplica: Acuso!

como espinho retorcido

voltou-se contra ti mesmo.

 

Nem “o atar e desatar

claro e correto”

que viveste

com tua doce Gisèle

nem o louvor dos poucos

que iriam multiplicar-se

até o fim do teu caminho

te salvaram

do terror

da tua memória.

 

No escuro deste mundo

hexamétrico poeta

brilham tristes

muito altas

as seis pontas

de tua Estrela.

O que me surpreendeu, ao reler esse poema, “acontecido” quase espontaneamente, foi o fato – totalmente inconsciente – de eu ter composto a primeira e a última estrofes com 6 versos, as 6 pontas da estrela de Davi e os 6 milhões de judeus sacrificados. Para mim, isso constitui um mistério: o mistério decomo as palavras nos habitam, se organizam e se manifestam em nós.

E aqui quero homenagear minha saudosa amiga Ester Schwartz, que muito se emocionou com o meu poema, ela que foi uma excelente professora de Literatura e, como Celan, era judia.

 

 

2 Comments

  1. Uma beleza , querida Rachel, como é costume acontecer quando escreve e, por sorte, nos é dado o prazer da leitura sempre oportuna.Bjs.Marisa Alvarez Lima

  2. Querida Marisa, muito obrigada, Estive fora do Rio e por esse motivo não tive oportunidade de abraçá-la por seu aniversário.
    bjs,
    rachel

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