CARTA DO RIO – 82 por Rachel Gutiérrez

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Conheci, em minha última estada na Europa, uma simpática senhora brasileira, que mora em Hampstead, o encantador bairro de Londres que abriga o hotel onde costumo me hospedar. Ela é casada com um poeta inglês, é também tradutora, fizemos logo amizade e passei a mandar-lhe minhas Cartas do Rio, que a Viagem dos Argonautas costuma publicar.

 Minha nova amiga vem agora ao Brasil e, preocupada com as últimas notícias sobre a tragédia de Mariana, a situação política e a epidemia do zika vírus, perguntou-me se não há nada de bom no nosso país neste momento. Respondi-lhe um tanto vagamente que sempre há coisas bonitas e boas para se ver. E hoje, ao pensar num tema para esta última Carta do Rio do ano de 2015, ocorreu-me que o que há de mais extraordinário para se ver na “Cidade Maravilhosa” é , sem dúvida, o recém inaugurado Museu do Amanhã, obra belíssima de um dos gênios da arquitetura contemporânea, o espanhol Santiago Calatrava, que transfigurou a zona portuária com sua bromélia gigante.

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Sim, a inspiração para o projeto do Museu do Amanhã, como é sabido, foram as bromélias do Jardim Botânico, um dos nossos bens mais preciosos, fundado por D. D.João VI em 1808, ao “tomar posse do engenho e terras denomidadas da Lagoa Rodrigo de Freitas”, para criar naquele espaço um Jardim de Aclimação, e ali plantar especiarias oriundas das Índias Orientais. No mesmo ano, o local das plantas passou a chamar-se Real Horto. E foi esse pequeno paraíso do Rio de Janeiro que Tom Jobim, vizinho do Jardim, mais amou e frequentou.

 Tom, um fervoroso defensor da natureza, certamente ficaria feliz com o Museu do Amanhã, que respeita todas as regras da sustentabilidade.

Devo confessar que foi minha amiguinha Esperança quem me sugeriu, como despedida deste ano, mostrar fotos de bromélias e do Museu do Amanhã, além do vídeo no qual Santiago Calatrava fala do seu encantamento de ter podido realizar sua avançada obra entre nós, com tão bons operários e em tão pouco tempo. Ele a inseriu amorosamente na bela paisagem, coroando-a de luz.

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Erguido no Pier Mauá, em meio a uma vasta área verde,  o Museu ocupa cerca de 30 mil metros quadrados, “com jardins, espelhos d’água, ciclovia e área de lazer.” O projeto aproveitou “recursos naturais do local – como, por exemplo, a água da baía de Guanabara utilizada na climatização do interior do Museu e reutilizada no espelho d’água.” O telhado possui “grandes estruturas de aço, que se movimentam como asas e servem de base para placas de captação de energia solar.” E “ a pretensão do Museu do Amanhã é inaugurar uma nova geração de museus de ciências no mundo.” É considerado de Terceira Geração porque não é mais um museu de história natural, voltado para o passado, nem um museu de ciência e tecnologia, preocupado com o presente, mas se destina “às mudanças, perguntas e a exploração de possibilidades futuras.”

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Em uma das Cartas a um Jovem Poeta, Rilke fala na beleza de uma cidade italiana e diz “há beleza aqui como há em toda parte”, mas acredito que sobre o Rio de Janeiro, apesar de todos os seus problemas, podemos dizer que há um pouco mais de beleza aqui do que em qualquer outra parte.

Portanto, apesar de tudo que houve de ruim no Rio e no Brasil, e em Paris e no mundo no ano de 2015, é levada pela mão da pequena Esperança que vou me ausentar algum tempo e por isso desejo, desde já, Boas Festas e muitas Alegrias a todos os colegas e leitores da nossa Viagem. Como desejo um Amanhã melhor para o nosso país e para o mundo.

Meu caloroso Até a Volta!

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