CARTA DE SÃO PAULO – Pequena história das edições da Livraria Ler – por Flamarion Maués*
carlosloures
Soube com pesar da morte do Sr. Luís Alves Dias proprietário e fundador da Livraria Ler Editora, sediada em Campo de Ourique, em Lisboa. Ele faleceu no dia 23 de janeiro último, aos 82 anos. Presto aqui minha homenagem a ele e ao seu trabalho como editor e livreiro – continuado por seu filho Luís Manuel Vaz Alves– por meio de uma “Pequena história das edições da Livraria Ler”. O texto é parte de minha tese de doutorado, em que tratei das editoras de caráter político em Portugal, desde o período do Marcelismo até o 25 de Abril e os anos seguintes. A tese intitula-se Livros que tomam partido: a edição política em Portugal, 1968-80(Tese de doutorado em História, Universidade de São Paulo, 2013) e está disponível em:
*Doutor em história pela Universidade de São Paulo,
autor de Livros contra a ditadura:Editoras de oposição no Brasil, 1974-1984 (Publisher, 2013).
Bolsista de pós-doutorado da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).
Email: flamaues@gmail.com
A Livraria Ler foi criada em fevereiro de 1970 por Luís Alves Dias. Ele iniciou sua vida de livreiro ainda adolescente na Livraria Aillaud&Lello, na rua do Carmo, em Lisboa, onde trabalhou por 15 anos. Depois esteve por cinco anos na Livraria do Diário de Notícias, no Rossio, até ser convidado por Álvaro Gonçalves Pereira para trabalhar na abertura do Centro do Livro Brasileiro, onde ficou por sete anos[1]. Assim, era já um experiente profissional da área, com 38 anos de idade, quando abriu a sua livraria na rua Almeida e Sousa, no bairro de Campo de Ourique, junto ao Jardim da Parada, em Lisboa.
Logo que abriu a livraria, surgiu a demanda em relação aos livros políticos, os “livros proibidos”, como conta Luís Alves:
Quando vim para cá comecei a fazer distribuições de pessoas amigas, em geral autores proibidos como o Padre Felicidade Alves, o Raúl Rego… Entre as editoras contava-se a Raiz, de Tomar, que já faliu e que só editava livros proibidos[2]. Foi aí que começou a perseguição da PIDE. Sabiam que eu era o distribuidor da Raiz, que recebia livros brasileiros proibidos…[3]
A Livraria Ler somente começaria a editar livros com sua própria chancela em 1974, após o 25 de Abril, com a coleção Cadernos Maria da Fonte. No entanto, esta coleção havia começado em 1971, e inicialmente era coeditada pela Livraria Ler, juntamente com um dos funcionários da livraria, João Camacho. Camacho havia sido proprietário da Livraria Guernica, em Lisboa, era militante do MRPP e já havia editado, em 1971, o livro Divergências sobre alguns problemas importantes da política actual do partido, de Mao Tsé-tung. Este livro apareceu como “Edição do Tradutor”, que era o próprio Camacho. Depois dessa experiência, ele começou a editar por sua conta, em 1971, os Cadernos Maria da Fonte[4]. Foram lançados três títulos até 1972, sob a responsabilidade de Camacho: Sobre a repressão, de Victor Serge (1971); Sobre a emancipação da mulher, coletânea com textos de Marx, Engels, Lenin e Kollontai (1971); e Citações do presidente Mao Tsé-tung (1972).
Neste primeiro momento, a Livraria Ler assumiu a responsabilidade pela distribuição dos livros da coleção, mas não pela edição. Acredito que de fato Luís Alves tenha sido uma espécie de sócio nestas edições, ou seja, Camacho escolhia os títulos e editava os livros, e Alves comprava grande parte da edição e fazia a distribuição comercial dos livros. Podemos considerar que era um tipo de coedição entre João Camacho e a Livraria Ler.
Camacho conta como começaram os Cadernos Maria da Fonte:
Foi uma iniciativa minha, a escolha dos títulos era eu que fazia. Era uma pequena editora. Todos estes três livros que lancei nos Cadernos Maria da Fonte tiveram problemas com a PIDE. […] As tiragens eram de 10 mil exemplares, era muito fácil de vender. Apareciam os jovens na altura com apetência política, estudantes. Havia algumas livrarias em que se vendiam muitos livros proibidos, por exemplo, a Ler, a Barata, a Guernica (até fechar), a Livrelco, vendiam milhares de livros para os estudantes. Eu editei até o terceiro volume dos Cadernos.[5]
Ele conta ainda que a homenagem à heroína portuguesa deveu-se ao fato de a Livraria Ler, onde ele então trabalhava, estar situada ao lado do Jardim da Parada, uma praça onde há uma estátua de Maria da Fonte.
Luís Alves, por ser o distribuidor, foi chamado à PIDE três vezes por causa dos Cadernos, ou seja, a cada livro lançado havia sempre problemas com a polícia. Alves conta que não foi maltratado na PIDE, mas foi ameaçado:
Só me disseram que eu deixasse de editar livros deste género, senão viam-se obrigados a fechar-me a livraria. Mas não me bateram. É claro que me fizeram estar à espera uma data de tempo. Perdi lá dias inteiros. Era a filosofia deles. Mas ameaçaram-me e a livraria foi fechada mais do que uma vez para passarem vistoria aos livros.[6]
Como vemos, Alves era importunado pela PIDE tanto por distribuir/editar livros inconvenientes para o regime como por vender em sua loja obras desse mesmo teor. Ele lembra de um caso curioso que aconteceu com o livro Citações do presidente Mao Tsé-tung. A edição chinesa desse livro (em português) tivera a sua venda liberada por uma circular do governo de Marcelo Caetano. No entanto, a edição da obra nos Cadernos Maria da Fonte teve problemas com a polícia:
[…] quando o livro estava pronto [na gráfica] para entrega, apareceu lá uma brigada da PIDE, que apreendeu os livros, mas não os levou logo. Avisaram-me da tipografia e eu peguei na circular e fui à sede da PIDE, na [rua] António Maria Cardoso. Apresentei-me e apresentei o caso. Eles admitiram que tinham apreendido os livros e eu mostrei a circular da censura. Eles tiveram que dar o braço a torcer e dar ordem à tipografia para me entregar os livros.[7]
Camacho recorda que esse livro “praticamente esgotou assim que saiu”. A tiragem teria sido de 10 mil exemplares. Camacho chegou a ser preso devido à edição desse livro[8].
Provavelmente em função dos problemas com a polícia política, os Cadernos só foram retomados após o fim da ditadura. “O Luís Alves Dias me pediu autorização para continuar com eles”, conta Camacho, que nessa altura já tinha a sua própria editora, a Nova Aurora[9]. Assim, surgiu o quarto volume da coleção e se iniciou uma nova fase, sendo todos os títulos editados a partir de então de responsabilidade da Livraria Ler e de Luís Alves.
O primeiro livro dessa nova fase foi 48 anos de fascismo em Portugal, lançado em junho de 1974 e que vendeu cerca de 50 mil exemplares[10]. Daí em diante o ritmo de lançamentos foi intenso, totalizando, em 1974, 22 títulos. No ano seguinte este número caiu para dez títulos. A partir de 1976 a atuação editorial da Ler tornou-se apenas residual, com seis títulos publicados entre 1976 e 1981.
A coleção Cadernos Maria da Fonte concentrava a maior parte dos lançamentos. O autor que teve mais obras publicadas foi Lenin, com oito livros (além de um em coautoria). Na coleção foram editadas também três obras relacionadas ao Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC): Manual político, do PAIGC; Textos políticos de Amílcar Cabral, e Pelas regiões libertadas da Guiné (Bissau) / Missão Especial da ONU nas regiões libertadas.
Foram publicados na coleção autores como: Fernanda Agria (A greve); Nicolau Bukharin(ABC do comunismo); Arsénio Mota (Um país de pequenos burgueses); Ernesto Pastrana e Monica Threlfall (Pão, tecto e poder: o movimento popular de reivindicação habitacional no Chile, 1970-1973), Wilhelm Reich e Vera Schmidt (Psicanálise e educação), além do Resumo da história do Partido do Trabalho da Albânia. O último livro da coleção foi o Dicionário do militante operário, de Miguel Lemos (junho, 1975).
Havia outra coleção intitulada Cadernos Maria da Fonte B, que teve oito volumes, lançados em 1974 e 1975. Seis dessas obras eram de autoria de Mao Tsé-tung, uma do Partido Comunista Chinês e uma do líder albanês EnverHoxha.
Além disso, foram lançados fora de coleção, em 1975, dois outros títulos nesta mesma linha: Obras escolhidas de Mao Tsetung, Tomo III e As questões do leninismo, de J. Stalin.
Nestas duas coleções aparece com frequência o nome de J. Bragança como responsável pela edição. Ao que tudo indica, tratava-se de um pseudônimo, talvez do próprio Luís Alves[11]. Isso era um resquício dos tempos da ditadura, quando era comum que editores de livros considerados subversivos usassem pseudônimos ou simplesmente inventassem um nome ao qual era atribuída a responsabilidade da edição. O último livro em que aparece J. Bragança como editor é A origem do cristianismo, de Jacó AbramovitchLentsman (maio, 1976).
Depois de 1976 a Livraria Ler só voltou à edição em 1979, e de forma esporádica. Adotou então uma nova denominação: Ler, Editora. Continuavam a ser editados livros de caráter político, mas agora de autores portugueses e sobre a realidade do país. Foram cinco títulos: Textos de guerrilha,de Luiz Pacheco (1979); Tempo de resistência, de Varela Gomes (1980); Textos de guerrilha: 2ª série, de Luiz Pacheco (1981); O prof. Bento de Jesus Caraça: presença viva do seu pensamento e da exemplaridade da sua acção cultural e cívica, de António de Sequeira Zilhão (1981); e A contra-revolução de fachada socialista: 11 de março – Verão 75 – 5 de setembro, de Varela Gomes (1981). Este parece ter sido o último título editado pela Livraria Ler.
Apesar de predominarem, entre os títulos lançados pela Ler, os livros ligados a ideias de extrema esquerda, Luís Alves explica de modo simples o motivo pelo qual publicou estas obras: “Era o que se vendia naquela altura”. Ele afirma:
Não tive envolvimento com nenhum partido, nem antes, nem depois do 25 de Abril. Só fiz parte das eleições do Humberto Delgado [em 1958]. […] Eu nunca me filiei em nenhum partido, mas não houve nenhum ano em que não fosse votar. Sou democrata 100%, mas como tinha uma casa comercial, não queria estar conotado com nenhum partido.[12]
Apesar disso, Alves diz que “não há dúvida que eu fui conotado com o PCP a seguir ao 25 de Abril”. Ele explica:
Quando se deu o 25 de Abril eu enchi as montras [vitrines] com os autos de apreensão. Fiz as contas e tinha mais de 400 contos em livros apreendidos, o que era muito dinheiro. Uma noite, ouvi umas pessoas a comentarem os autos: “Eu não te disse que o sr. Luís era comunista?”. Fui conotado e editei várias coisas de tipos que eram da oposição.[13]
Entre 1974 e 1981 a Livraria Ler editou 35 títulos (além dos três coeditados antes de 1974), todos de caráter político, muitos deles conotados com ideias de extrema esquerda. Apesar disso, a editora não tinha, segundo seu proprietário, ligações com qualquer grupo político. Como vimos, Luís Alves considerava que ligar-se a um grupo ou partido político poderia prejudicar seus negócios.
A grande maioria dos títulos – 29 – foi editada em 1974 e 1975. Como lembra Alves: “A seguir ao 25 de Abril apareceu tudo o que estava proibido. Foi a altura em que se vendeu mais livros”. Ele diz que esse período durou até princípios de 1977. Além desse fator, Alves explica que a sua opção por diminuir as edições após 1976, até a suspensão completa em fins de 1981, “teve a ver com o facto de eu preferir a actividade de livreiro à de editor. Uma editora consome muito tempo e eu prefiro estar no meio dos livros”[14].
Assim, a Livraria Ler foi uma editora que publicou livros políticos – e somente livros políticos –, mas não era vinculada a qualquer grupo ou partido político. Tratava-se de uma editora independente desses grupos, mas que certamente devia ter alguma relação com pessoas a eles vinculadas, o que explicaria os títulos escolhidos para serem editados, todos ligados ao pensamento de esquerda (e mesmo de extrema esquerda). Mas o objetivo principal de seu proprietário parecia ser o êxito comercial dos livros editados, tendo ele aproveitado o novo momento político do país após o 25 de Abril para incrementar esse objetivo com a edição de livros políticos. Dessa forma, soube também responder a uma demanda social que veio à tona com grande força a partir de abril de 1974.
A Livraria Ler continua em atividade até hoje, no mesmo endereço, apenas como livraria, tendo à frente Luís Manuel Vaz Alves, filho de Luís Alves Dias.
[2] Pelo que apurei, a Raiz não era uma editora, mas sim uma distribuidora. A editora dos livros distribuídos pela Raiz era a Nova Realidade, criada em 1966 por Carlos Loures, Manuel Simões e Júlio Estudante, em Tomar.