A “perseguição” ao livro impresso e o sumiço de manuscritos foi entre nós um orquestrado maquinismo repressivo da divulgação das inquietudes do pensamento? – Não sabemos responder com relativa segurança… Mas sabemos que a expressão tradicional da generalidade do próprio “carácter português”, aborrece as inovações de fundo culturais e de mentalidades.
A preocupação filosófica sempre foi temida em Portugal e, quando não foi reprimida, foi apenas tolerada, fosse qual fosse a forma dessa tolerância. O critério “lusitano” tem sido o da “conveniência”, que aponta sempre para o coeficiente da Ordem estabelecida e do Poder indiscutível seja lá isso o que for em cada época!
Há livros cujo enigmático desaparecimento, passados séculos ou décadas da sua “evaporação no éter”, ainda nos deixam perplexos, atendendo às referências dos que deles tiveram conhecimento e, provavelmente, os leram.
Os modos de exercício da vigilância e apagamento de manuscritos e livros foram múltiplos e, além disso, encontraram-se continuamente submetidos a revisões, disfarces e imensos pretextos. Sempre existiram medidas institucionais (bem e mal sucedidas) para encorajar a perseguição dos livros e seus autores, impondo na banal vida quotidiana a inversão da lógica, fazendo da racionalidade um erro e da liberdade uma escravidão a evitar. Modernamente, por falta de meios económicos excelentes livros deixam de ser editados e, simultaneamente, por capacidade económica acima da média, quanta banalidade é obscenamente publicada sob a forma de livro?!
Por que razão desapareceram, das obras completas de Gil Vicente (c.1465- depois de 1536), as seguintes produções: «Auto da Aderência do Paço», «Auto da Vida do Paço» e auto «Jubileu de Amores»? De Cristóvão Rodrigues Acenheiro (1474-1536?), no desaparecimento de cinco obras suas, figura a inesperado este titulo «Criação Original dos Turcos e seus Imperadores até hoje, Maio de 1524, que se acaba este livro». Convenhamos, atrever-se um livro, em Reino cristão, a dissertar sobre a «criação original dos turcos», seria naturalmente a mesma coisa que habilitar-se… a desaparecer de circulação!
Teremos de acreditar que existiu uma expedição militar contra o livro, com “paladinos”, “cruzados” e “santos pregadores”? … – O “destemido” D. Sebastião fez promulgar leis punindo de morte, degredo ou perda de bens os hereges e falsos profetas, «dissimulados nas peles de ovelhas de seus perniciosos livros», bem como quem quer que tivesse livros estampados ou manuscritos que versassem matéria proibida e, naturalmente, contrária à letra da “verdade apostólica”…
Escaramuçou-se contra o livro em Portugal de forma doentia, às vezes com fúria e celeuma tal que o medo se instalou nos próprios autores. Por que razão ardeu (1739) na fogueira do Santo Ofício (Inquisição de Lisboa) António José da Silva, (dito o judeu), considerado o maior dramaturgo português, entre Gil Vicente e Almeida Garrett? Terá sido apenas por ser considerado pela Inquisição «judeu convicto, negativo e relapso»? Ou por algumas suas obras desmistificarem a lógica formal escolástica? Quantas das suas obras desapareceram?
Em Portugal (e noutros países), o diálogo da Inquisição com os livros tomou a forma abrasadora da fogueira, como se fosse possível queimar ideias! Enfim, chegou-se ao ponto de ser o próprio autor a duvidar do direito de escrever, de publicar o que lhe ditava a consciência.
(continuação)


