Gaspar Correia (c.1490-1563) gastou a sua mocidade e esgotou a sua vida na Índia, onde faleceu. Autor das «Lendas da Índia», quatro grossos volumes que entregou a D. Miguel da Gama, filho do 2º conde da Vidigueira, para o trazer para o Reino. Este último entrou à barra do Tejo em 1583, todavia o 1º volume da obra evaporou-se misteriosamente. Que teria de “diabolicamente” emocionante ou sugestivo, que abriria de conhecimento súbito e preocupante ao mundo ocidental esse primeiro volume? – Jamais o saberemos…
O judeu Abraão Guedelha, médico e astrólogo (séc. XV), parece ter proporcionado a D. Duarte, quando da sua coroação (1433) e a D. Afonso V (1438) a leitura de horóscopos feitos propositadamente para ambos. Mestre Guedelha, que era homem avisado, entendeu que estas reais personagens gostariam de evitar anos de canseira, pelo que desejariam ter num momento a consciência do Universo. Assim, para o primeiro elaborou horóscopo funesto, segundo consta na tentativa de prevenir o monarca de acções frustrantes. Não sabemos que protestos levantou na Corte, mas que não deveria ter tido vantagens é de prever, pois o astrólogo logo passou a trabalhar o horóscopo de D. Afonso V sobre uma colorida e avantajada previsão. O Facto é que o reinado deste Afonso, dito «o africano», se desenrolou no meio de grandes apertos, contrariando as previsões. Abraão Guedelha tinha, porém, a qualidade dos acautelados, dos que pretendiam salvar a pele a enfadar-se em mil justificações perante o Tribunal do Santo Ofício. Talvez por isso tenha traçado com simpáticas cores o horóscopo de D. Afonso V? – É de crer que sim!
Todavia, o maior problema de Abraão Guedelha era a incapacidade para a moderação, face ao êxito fácil que, além do mais, se manifestou compensador, tendo alcançado uma tença real em favor de sua filha. Impulsivo, terá perdido toda a precaução, e vá de compor um tratado de astrologia em que pretendia explicara leitura do futuro por meio dos astros. A obra causou sensação e deu-lhe uma notoriedade perigosa: – Desagradável comunicação a sua, em contraste, portanto, com a ortodoxia católica apostólica e romana, pois o livre arbítrio não se conciliava com o determinismo astrológico sobre a vida dos homens e a evolução do Universo… E o tratado de astrologia de Abraão Guedelha sumiu-se na “voragem do tempo”, não chegando até nós qualquer indício seu, mesmo mutilado…
Não foi seguramente o medo de um conspirador comprometido com a Reforma, ou de um imprudente contrabandista de especiarias orientais, o que, na véspera de regressar à Pátria (c.1568), inspirou de habilidades a pessoa que espoliou ao nosso épico, o seu «Parnaso de Luís de Camões». Mas que foi então? Tudo o que sabemos desta obra foi-nos dito por Diogo do Couto: «livro de muita erudição, doutrina e filosofia, o qual lhe furtaram» … Que tinha este livro de extravagante para tirar o sono a alguém, se entrasse à barra do Tejo? Nunca saberemos…
Está pois aberta a série de desaparecimentos misteriosos de livros portugueses…