LIVRO & LIVROS – Livros desaparecidos – 3 – por Joaquim Palminha Silva

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            Sempre desapareceram manuscritos e livros impressos em Portugal! – Pensar-se-á que esta afirmação é apenas pesadelo de uma imaginação exaltada?!

            O desaparecimento de uma obra insubstituível é um acidente sem significado cultural e sociológico, esquecido pelo tempo? O facto, é que os clamores de protesto que paulatinamente foram produzidos, podem abafar a voz distraída dos incrédulos. A primeira vítima desta sanha demente de dar sumiço a manuscritos e livros, como não podia deixar de ser, foi a «Torre do Tombo», (arquivo nacional).

            Em volta da Tore do Tombo sempre existiu esta perigosa “agitação”. Já em 1621, o escrivão do dito arquivo nacional, Gaspar Alves de Lousada Machado, enviava ao Núncio uma lista apreciável de livros e documentos que haviam levado sumiço, pedindo à autoridade eclesiástica que passasse uma carta de excomunhão, expressamente redigida contra os infractores… Se descobertos, é claro!

            Eis o que faltava na Torre do Tombo no ano atrás mencionado:

            «[…] Livros de Homenagens de Capellas, de Direitos Reaes, da Nobreza, de Limhagens, de Cortes, muitos de Chacellaria Velha, Bullas, Breves Apostolicos, Sentenças em favor do Patrimonio da Coroa, e alguns Cadernos tirados de Livros, Alfabetos, Cancioneiros antigos, Assentos sobre precedências, Regimentos dos officiaes mayores da Casa Real, papeis tocantes às três Ordens Militares e outros dos Alevantamentos, Juramentos Reaes, Alvarás e Instruções também Reaes para os Embaixadores passados, e para os Viso Reys do Estado da Índia e Governadores, mais ministros dos outros Estados d’esta coroa, cartas e informações de huns e outros pera os Senhores Reys que estão em gloria,[…] e isto por descuido dos officiaes que até agora forão fiarem as chaves da dita casa de seus criados, não somente estes livros e papeis faltarão, senão também outros de muita importância, […] E bem assy faltava na dita Torre a mayor parte da Secretaria […] do anno de 1568 até ao presente, […] entrando também neste numero alguns Livros, chronicas, papeis, e cartas de importância, Instrucções, e avisos que andavam na Recamara do Senhor Rey Dom Henrique ao tempo do seu falecimento, que pellas alterações que logo se seguirão, se furtarão, e perderão, e os Livros e papeis, e cartas de importância que acertarão de ter os guardas-móres e Escrivães que até gora forão da ditta Torre em suas casas ao tempo de suas mortes, principalmente os immediatos aos que de presente servem, por se entender que seus parentes, e criados lançarão mão de muitos deles e os venderão a pessoas curiosas, cujos nomes não sabião […]» (1).

            Pensa-se que foi no reinado de D. João I, através do apuramento crítico das fontes de conhecimento e das citações bibliográficas, que a existência de uma livraria da Coroa (Lisboa) começou a ter existência concreta. De resto, só ela nos poderá explicar em parte a constituição intelectual da denominada «ínclita geração».

            No Paço Real de Évora, construção iniciada por D. Afonso V, erguida a «par de S. Francisco», isto é, colada à Igreja e Convento dos frades franciscanos, terá existido (cerca de 1470) efectivamente a primeira Livraria da Corte (2).

            A livraria de D. João IV, que beneficiou do seu labor de musicógrafo, e a de D. João V, são supostas terem acumulado obras em tal quantidade e proporções jamais vistas, facto que é testemunhado pelo número e categoria dos seus bibliotecários e catalogadores. No entanto, o terrível terramoto de Novembro de 1755 reduziu a cinzas a maior parte dos tesouros da livraria real (Lisboa). O que perdemos na realidade? Ninguém poderá efectuar o inventário das perdas e danos… Todavia, sabemos que perdemos tesouros inimagináveis…

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(1) – In Pedro A. D’Azevedo e António Baião, O Archivo da Torre do Tombo, edição Annaes da Academia de Estudos Livres, Lisboa, 1905.)

(2) – In Túlio Espanca, Inventário Artístico de Portugal, Concelho de Évora, I Volume, Lisboa, 1966.

 

(continua)

 

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