CRÓNICAS DO QUOTIDIANO; SANDRA: QUEM RESPONDE PELA SUA MORTE?! – por Mário de Oliveira
carlosloures
O estágio em Ourense está a um mês do final. Para o frequentar, no âmbito do programa Erasmus, Sandra, licenciada em serviço social, deixa a casa dos pais, os afectos de colegas com os quais cresce em Castelo Branco. Apresentado como uma valia mais para estudantes, o Erasmus não terá resultado no ser-viver de Sandra. De pouco ou nada adianta o recurso a novos meios de formação escolar, quando o essencial, no ser-viver dos jovens, é deixado para lá. Não é o muito viajar, nem a mistura de múltiplas línguas que fazem os jovens crescer de dentro para fora. Essencial, quando falamos na formação de crianças-jovens, é a sabedoria. São os afectos. Os familiares, primeiro. Os recíprocos, entre quantas, quantos se vêem, depois, no mesmo barco. A rivalidade, a competitividade, o carreirismo, o êxito individual, à custa do deixar-para-trás as companheiras, os companheiros de viagem, são sempre fatais. Para quem se isola e vai por-aí-fora, como uma ilha, até cair na rede de uma multinacional qualquer, que faz dele gato-sapato. Para todos os mais que, libertos desse tipo de ambições, projectam para si um dia-a-dia de qualidade, ao serviço da comunidade global de que são membros, grávidos de generosidade, entrega pessoal para o desenvolvimento integral de todos. Sandra é uma destas jovens. Só que recém-formada num país, governado pela tirania do maquiavelismo político da maioria CDS-PSD; integrado numa UE à deriva, que insiste em navegar à vista, sem referências culturais, valores éticos, só financeiros. Segundo a suicidária lógica do salve-se quem puder. Por isso, sem saída profissional no horizonte. Longe dos seus. Sem afectos. Sem confidentes. Com o desânimo por pão de cada dia. E o rio Minho ali à mão. Mai-la correspondente atração pela morte, encarada como o fim antecipado da viagem que mal se iniciara, a que se junta o inconsciente desejo de dar um soco no estômago em todas, todas nós que deixamos para lá. Quem responde, agora, pela sua morte? Somos um país/UE suicida, homicida, se geramos robots de carne e osso. Em vez de mulheres, homens sábios-com-afectos.