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FRATERNIZAR – Papa Francisco pesca à linha – por Mário de Oliveira

Imagem1Transcrito de JF, Edição 106, Março 2015

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Helena Lobato vai ser baptizada em Roma

A pintora Helena Lobato, a residir em Setúbal, está a preparar-se para ser baptizada pelo papa Francisco, durante a próxima Vigília pascal, em Roma. É convidada especial do papa. Não é para qualquer um, mulher ou homem. Com este papa, isto já começa a ser banal, de tão repetido. O conteúdo do insólito é que varia, de caso para caso. O insólito deixa de o ser, à força de tanto ser repetido. O papa Francisco foi escolhido, como se sabe, pelos cardeais da Cúria romana e aceitou, de pronto, a incumbência de ser o papa do insólito, no que respeita a gestos e palavras. Não significa que o seu exercício do poder papal seja fecundo. Não é. O exercício do poder nunca é fecundo. A fecundidade é de outra ordem de grandeza. Já o insólito casa bem com o poder. Poder absoluto, insólito absoluto. Está mais do que visto. A Cúria romana, depois de Bento XVI-JP II, precisava de um papa assim, mais do que de pão para a boca. E há sempre uma enorme lista de espera de gente mais ou menos graúda, e alguma miúda, que se prestam a cooperar no show papa Francisco. Também gente de Portugal. A vítima, desta vez, é uma conhecida pintora de Setúbal. Caiu no anzol papal, que Francisco gosta de pescar à linha, mais do que à rede. À linha, o fruto da pesca é garantidamente de encher o olho. Nem que seja um homem da rua, um sem-casa. É insólito, por isso, a notícia é mais do que garantida.

Ficamos a saber que a pintora, de 45 anos a completar este ano, ainda não é baptizada. O papa aproveitou um momento de alguma tristeza e de solidão da artista e lançou o anzol. Helena Lobato, interiormente debilitada, mordeu a isca e caiu no anzol. Por estes dias, já começou a ser notícia na agência Ecclesia, a dos bispos portugueses e do papa de Roma. Que a Cristandade não deixa os seus créditos por mãos alheias. Resta saber se a Helena Lobato-sem-baptismo vai ser diferente da Helena Lobato-com-baptismo. Para cúmulo, administrado pelo papa, que, como todo o poder, nunca dá ponto sem nó. Resta também saber se daqui até à Vigília pascal, dia 4 de Abril, a artista aguenta o catecumenado de adultos que foi “aconselhada” a frequentar na paróquia da Cova da Piedade. A iniciativa não foi dela. Veio do pároco. Em lugar de uma caminhada mais personalizada, indicou-lhe o catecumenado a funcionar na paróquia. Ora, o catecumenado de adultos acaba por ser, vastas vezes, uma decepção tão grande para quem o frequenta, que são muitos os que o iniciam, mas poucos, muito poucos, os que o concluem. E quase sempre os menos dotados de consciência crítica. As crianças que são baptizadas não levantam nenhum tipo de questões ao pároco. A decisão do baptismo nem sequer é delas. É dos pais. Mais da mãe do que do pai. Em muitos casos, mais dos avós maternos do que dos pais. Em não menor número de casos, mais das pressões do ambiente social, do que dos próprios pais. Bem pode dizer-se que é uma opressão institucional, chamada baptismo. Católico ou protestante, tanto faz. Sacramento, não é. Só um rito. Se presidido pelo papa, um rito ainda mais carregado de vaidade, que torna bem mais pequenas as almas/pessoas que se lhe submetem.

 Para já, o catecumenado prossegue. Helena Lobato terá, certamente, muitas decepções. Mas já é difícil ficar pelo caminho. A pressão para que prossiga é enorme. Não é por acaso que o seu caso já é notícia na agência de notícias da CEP-Conferência Episcopal Portuguesa. A artista nem sonha no labirinto eclesiástico mafioso em que se meteu. Aos 45 anos de idade. Quando era mais do que tempo para fugir do labirinto cristão eclesiástico romano, é que vai meter-se nele. Só porque, num momento de mais fragilidade interior, no auge da sua solidão/angústia, decidiu escrever ao papa. Uma carta manuscrita. A desabafar. Havia visto uma reportagem sobre o primeiro ano de poder do papa Francisco e, impressionada com o insólito do seu papado, porventura, mais estéril do que o dos seus imediatos antecessores, no que respeita a mudar estruturalmente o mundo e a igreja, decidiu escrever-lhe. Mais com o coração do que com a inteligência, como ela própria reconhece. Fraquezas de mulher, a que nem as artistas escapam. “Escrevi à mão com a única preocupação de lhe transmitir a minha vida e as minhas dúvidas”. Fi-lo de “uma maneira muito particular, muito chorada”. “Perguntei se o Santo Padre de alguma maneira poderia, na sua oração com Deus, pedir que ele desse uma luz a pessoas como eu”.

 Obviamente, Deus, o do “Santo Padre”, não se fez rogado. Semelhante Deus existe para realizar os milagres que o papa e a Cúria romana precisarem. Não ia, por isso, deixar sem resposta o pedido dele por esta “ovelha” tão tresmalhada, que, aos 45 anos, ainda continua por baptizar. E, pumba! A resposta de Deus veio quase na mesma hora, sem quaisquer protocolos. Que entre o papa e Deus não há protocolos. Só entre o papa e os outros chefes de estado que não resistem a ir ao seu encontro em Roma, para melhor serem vistos pelos seus súbditos e, desse modo, poderem continuar a exercer o poder político que favorece as economias que matam. Tanto mais, quanto o próprio papa Francisco as tem denunciado, não para lhes pôr termo, obviamente, mas para as reforçar ainda mais. O que seria da Cúria romana, sem as economias que matam?! Ou somos tão ingénuos, como parece ser a artista Helena Lobato, que ainda pensamos que o que o papa diz-escreve-encena é para mudar estruturalmente o mundo? Não vemos que é para o corromper ainda mais, como é timbre de tudo o que é insólito?

Na carta enviada a Helena Lobato, Francisco diz que “a luz” que ela procura, chega pelo batismo. E aproveita para a convidar a deslocar-se a Roma, para ser baptizada por ele, na basílica de S. Pedro, a do negador-mor de Jesus e o fanático seguidor do Cristo davídico, juntamente, com S. Paulo, outro que tal e ainda mas fanático. “Estive cerca de dois meses para aceitar de coração o convite que o Santo Padre me dirigiu”. Mas seria preciso, muita força interior, para recusar um convite destes. É um convite envenenado, mas embrulhado em ritos sagrados, os mais indicados para esconder os venenos mais letais. A verdade é que se a pintora Helena Lobato não abrir os olhos e não recuar na decisão já anunciada, lá estará, sábado 4 de Abril em Roma, para ser baptizada pelo papa Francisco. Acompanhada pelo respectivo padrinho – tem 45 anos de idade, mas ainda precisa de padrinho, como qualquer bebé/criança! – precisamente o Pe. José Gil Pinheiro, pároco da nova comunidade cristã que passará a ser também a da artista católica romana. Malhas que a Cristandade ocidental tece, desde que Constantino a fundou e colocou as bases doutrinais, sintetizadas no Credo de Niceia-Constantinopla que Helena Lobato vai ter de aprender de cor e passar a recitar na missa de cada domingo. Até que acorde do pesadelo e salte fora para a liberdade, para a saúde mental, profundamente abalada nela, em consequência desta sua insólita decisão.

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