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NA AJUDA, UM BAIRRO CHEIO DE VARIAÇÕES por clara castilho

Todos os dias paro num bairro da freguesia da Ajuda. Tenho visto as obras de requalificação que têm sido levadas a cabo, com resultados muito agradáveis a olho nu.

Bem no cimo. Junto ao Palácio da Ajuda, “coabitam” vários tipos de habitação. As casas a caírem de podre, junto a um bairro social, com as novas faculdades da Universidade Técnica ao longe. É possível ver cabrinhas e cavalos a pastar em pequenos quintais que permeiam as várias casas.

Foi neste bairro que vivi o momento em que melhor compreendi o que era a capacidade de resiliência de uma criança. Foi numa visita domiciliária a uma família que estava sob a “vigilância” da Comissão de Protecção de Crianças e Jovens, na sequência do nascimento de uma criança, cujo acompanhamento adequado se tinha dúvidas. O número de adultos a lá viverem daria um rácio de 4 por divisão (3 a contar com a sala), de dimensões pequeníssimas. As condições de higiene levaram-nos a suspeitar se não sairíamos dali com a companhia de certos insectos. Utilização de caixote de lixo era desconhecida, dado o estado do chão da cozinha. Eram visíveis garrafas de álcool vazias pelos móveis da sala. Um cão dormia em cima de um divã. Duas crianças com menos de 8 anos, uma das quais deveria estar na escola, sorriam para nós, nada incomodadas com a presença de estranhos, em contraste com o nosso sentir de sermos uns intrusos. Alguém lhes tinha dado uma caixa de tintas aguarelas. Entretinham-se a pintar. Como não tinham papel adequado recorriam a um rolo de papel de cozinha. Era uma atitude que contrapunham aos assuntos dos “crescidos”, ficando com aquilo que a uma criança deve dizer respeito.

Não sei qual foi o seguimento desta situação, na altura o meu papel era indirecto. Não quero, de forma alguma, dizer que em todo o bairro isto se passa. Conheço muitas outras famílias que lá moram, essas sim com quem trabalho e estas situações que consideramos de “risco” não se verificam.

Vou continuar a passar por aqui. E novas experiências terei. O grafitti que também ali se encontra, com “all absortion” resume isto tudo.

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