Site icon A Viagem dos Argonautas

CARTA DE ÉVORA – Exilados – por Joaquim Palminha Silva

evora

Abandonava-mos a Pátria por razões políticas e também para acautelar a continuação da vida em liberdade, pois a perseguição da polícia acentuava-se.

Imediatamente, uma sensação de insegurança apanhava-nos pelos cabelos e apossava-se de nós, transformando-se numa ansiedade permanente que penetrava no mais íntimo da “alma”, alojando-se nos sentimentos, nos gestos, nos olhares.

Então mudava-se de casa, de mansarda em mansarda, de emprego de acaso em emprego de ocasião, mas a ansiedade mantinha-se, como agonia contínua de doença incurável. Em vão procurávamos semelhanças no estrangeiro com aquilo que amamos no País de origem. Mas tombávamos sobre carradas de diferenças, que nos gritavam quanto éramos exilados no exílio, sem remissão.

Com o tempo, chegamos ao despautério de tomar por base de recordação da Pátria os sinais exteriores do que havíamos então encontrado mesquinho, medíocre, reles.

Entretanto, criávamos laços de solidariedade com outros exilados, frequentávamos os mesmos cafés e alimentávamos a saudade com histórias reais e fantasias. Tínhamos dentro de nós uma cavidade que não sabíamos definir, mas que nada parecia capaz de preencher. Um vazio que nos inquietava tornava-nos hora a hora infelizes como órfãos num conto de Natal. Com os anos, o vazio crescia, acabando por fazer parte de nós, como se fosse um membro suplementar do corpo, uma aberração da natureza.

Se experimentávamos amar ou tentávamos que isso acontece-se, procurávamos na francesa, na belga, na holandesa, na italiana, na latino-americana (também exilada) referências que não existiam senão na nossa memória. Sôfregos, nada apreciávamos na mulher que não fosse o que antecipadamente pretendíamos lembrar. Às vezes usávamos a estrangeira como um anestesiante, para adormecer a ansiedade…

De qualquer modo nunca mais tínhamos sossego. Mudávamos de país. Mas repetiam-se as cenas e as angústias. Tornávamos a mudar de país, tudo se repetia de novo… Insegurança, ansiedade, recordações a esmo, sem critério algum, vazio sem fim…

A determinada altura, apercebemo-nos de algo que nunca tínhamos tido ocasião de sentir com tanta clareza: – Estávamos despegados do solo… como se não tivéssemos onde cair mortos! Pairávamos na atmosfera, seguros por um fio invisível, mas que se poderia quebrar. Eramos papagaios de papel!

Alguns de nós eram tão espremidos pelo exílio e pela solidão que, perdida a fé na religião cívica, e não aguentando o oco da sua vida, finavam-se nas lâminas frias do álcool, nas curvas supostamente imóveis dos estupefacientes, na dissolução sem fundo, convencidos de nada, apenas ansiando o esquecimento. Havia também os que protestavam pelo suicídio, acrescentando o suplementar absurdo da morte à sua juventude.

Havia ainda os exilados que limpavam o suor da desgraça num romance de amor… Que muitas vezes nem era romance e raramente transpirava umas “gotas” de amor… – Pelo contrário, era um despegar-se do exílio, deixando-se escorregar para a obscuridade de periferia, fingindo cada um que é natural deste ou daquele país, desta ou daquela cidade, recusando as falas em português.

Um a um, quase todos se deixaram perder, desorientados. – No exílio ninguém sabe do que é capaz! No exílio, e a partir de certa altura, ninguém sabe o que anda ali a fazer. Plantas de estufa, os exilados resistiam ao tempo, segundo o clima artificial que se proporcionavam uns aos outros… A galeria dos desesperados era imensa e cobria todo o género de espécies. Desde os imbecis aos niilistas sem tréguas; desde os abnegados aos náufragos; desde os organizados em qualquer grupo até aos libertários por convicção.

Cada qual inscrevia-se num grupo político, segundo a fachada da sua conveniência e, vá lá (diga-se), a sua formação política. Terá havido escolhas feitas por catálogo? Tudo é possível.

Pintava tal ou tal grupo um cenário político e, depois, procurava viver de acordo com essa encenação de laboratório, pronto a afastar as circunstâncias adversas e protegendo-se cada um da realidade de proscrito. Cada grupo destas vidas errantes dava à luz o seu sonho, o seu delírio. Ao mesmo tempo, este sonho transformava-os e levava-os a organizarem comissões (executivas), a marcarem reuniões, cronometrarem encontros de esquina, editarem jornais toscos em mau papel, onde explicavam a sua ideologia de panfleto, martelada de frases-feitas. Aos poucos, disciplinas compactas de inutilidade e fanatismo, que não admitiam subterfúgios, faziam do sonho imperativo categórico e exigiam, em relação a ele, uma coerência absoluta. Esta quinta-essência que jazia adormecida e ignorada até então, acabava por vir à superfície através da tagarelice contínua, maçadora, revestida do invólucro da doutrinação política. Esta quinta-essência alastrava-se pelo grupo de exilados e criava a tendência para a desconfiança, depois cimentada pela intriga e finalizada com a cisão.

A coerência destes alucinados, adoradores da frase lapidar, destes revolucionários com um dever de cartão e cola, tornava-se aos poucos patética. Esta coerência poderia ser provocada por uma coisa de nada, por um impulso que vinha das ânsias do desassossego contínuo. Os exilados arreganhavam então os dentes aos exilados! Rebolavam-se histericamente no seu fanatismo de mansarda, como se isso fosse um estado de graça, um nirvana da condição de revolucionário.

Debatiam-se dentro de cada um dúvidas inconfessadas, que só aparentavam ter solução com o regresso à Pátria. Mas qual Pátria?

*

Entretanto, a Pátria da partida ganhava as cores da Pátria de exílio. Esta última, por seu turno, criada na insónia, no desenraizamento, misturava-se às nódoas negras da alma, que o quotidiano feria sobre cada um. Quanto mais tempo passava, mais sonhos se acrescentavam. Às tantas, os exilados arrastavam consigo uma quantidade de próteses. A Pátria real, bem podia gritar com a sua voz, vinda do tépido sul: «Não desvies o olhar!». No entanto, os exilados não podiam ou não queriam ouvir essa súbita voz, que agora se tornava inconveniente. Compreenda-se: tratava-se da sua sobrevivência. Eles tinham de viver com a esperança no nascimento de uma Pátria diferente daquela que os havia perseguido e, de certo modo, proscrito. Entontecidos de desespero, respiravam as cinzas frias das recordações, onde mexiam e remexiam em busca da chama. Então, o sonho petrificava-se. Assumia proporções míticas, tanto mais fortes quanto mais irreais. Haviam doirado na sua memória a Pátria que outrora julgavam sórdida. No exílio edificavam outra terra e outras gentes, saudade após saudade. Mas a Pátria lusitana distanciava-se disso. A terra concreta não coincidia com a dos desejos, demasiado acelerados nos seus sonhos… E a intrusão do sonho nas suas vidas de desterrados, arrastava-os para intransigências de manual, postiças, inverosímeis…

Um dia, dos longes esfumados da Pátria, irrompe a notícia: a ditadura caíra!

Atónitos, não conseguiam perceber porquê… Como podia a História fazer-lhes uma desfeita dessas?! Como podia ela, com todo o seu materialismo dialéctico e histórico, ignorar as inúmeras organizações revolucionárias que a esperavam no exílio?!

A ditadura caiu frente a um golpe militar, com base em reivindicações castrenses, logo seguidas de opções democráticas e, mais adiante, de reivindicações de teor socializante, ziguezagueando entre a autogestão libertária o estalinismo serôdio.

A ditadura havia caído como um manequim desconjuntado, amolgado até à caricatura. À surpresa seguiu-se o desabafo:- A História do manual não batia certo com a História da vida. Uma delas faltava à verdade! A História ludibriara-os, não os considerava úteis na presente situação. Parecia que eram enxotados como cães raivosos…

O que tu lhe fizeste, ó sonho! Alimentaste-lhe o fervor excessivamente. Tornaste-os grotescos e trôpegos. Como voltar a casa nestas condições? – Madrugada de Maio de 1974, sobre os trilhos do comboio, a realidade trepidante fazia em tiras o sonho.

Havia qualquer coisa de imbecil nas mudanças fora do catálogo, como se fossem excedentes das normas e dos procedimentos clássicos. Ainda tentaram envolver-se no movimento, país fora, aos gritos, agarrados às sobras dos sonhos esfarrapados, já no fio. Mas a realidade desprezava-os, e dizia-lhes isso mesmo com estrondo. Levados pelo céu estrelado do processo revolucionário em curso, arrastaram país fora a prática da cisão aprendida no exílio e, com as mãos torcidas de radicalismo, pretenderam empurrar a História para a frente… Mas a conjuntura não os reconheceu. O trabalhador aborreceu-os. O seu arreganho contínuo, a sua inépcia, já não se podia aturar! A esquerda institucionalizada aponto-os às multidões como fantasmas doentios, esquizoides!

No mês dos mortos, o seu vanguardismo militar e o seu socialismo de base encontrou-se completamente só no meio das ruas. Consummatum est!

Com grande cuidado e algum inesperado bom senso, a maioria do país respirava aliviado as delícias enfadonhas da tranquilidade democrática. A vida adaptava-se à vida, a realidade, medíocre, ignorava o catálogo… E a História, obscena, imoral, frenética ou não, mostrava os seus dentes podres aos que lhe satisfaziam a luxúria…

Com as suas impertinências, os exilados cansavam tudo e todos, enquanto a mediocridade envolvente os amarfanhava sem piedade.

Usados, roídos de saudades dos sonhos antigos, vendo mal através do quotidiano democrático, os exilados descobriram que ao regressarem encontraram o pior exílio de todos: o que se vive na própria Pátria!

Entretanto, nunca mais tiveram descanso. Sabem agora que não são de parte alguma. Estão sempre em trânsito…

O último exilado tombou então, caído na linhagem há longo tempo constituída, apertando-se docemente na mediania, adormecendo na floresta apodrecida. O 25 de Abril de 1974, rebolando-se sobre a História com inusitada alegria, estragou-lhes a vida completamente

 

Joaquim Palminha Silva

 

 

Exit mobile version