CARTA DE BRAGA – “a vida antes da morte” – por ANTÓNIO OLIVEIRA

Haverá vida antes da morte?’ é a questão maior da crónica primeira das quatro romenas, saída na ‘Visão’ de 2 de Agosto.

Nesta constavam ou sobravam, os inúmeros e conhecidos conhecimentos (passe o pleonasmo!) do autor, ele próprio o também muito conhecido António Lobo Antunes.

Tudo nomes grandes do mundo dos livros e dos editores, o sonho não concretizado de outros escrevinhadores que nunca saíram dos pequenos, heróicos e estóicos editores que não cobram para os editarem mas a quem eles, por gratidão, solidariedade e compreensão, também nunca se atrevem a pedir contas.

Só cheguei à crónica por alguém me ter avisado que ali estaria (estava!) a pergunta ‘haverá vida antes da morte?

Encontrei-a meia dúzia de frases antes do fim do escrito, depois de ter conhecido os percursos com outros escritores e poetas em encontros e reuniões por salões, bares e até por um campo de futebol, para darem caneladas noutros confrades das mesmas frequentadorias (perdoem o palavrão mas sei que o entendem!), tudo para falar do poeta romeno Dinu Flamand.

Flamand, ‘grande como um camponês dos Cárpatos’ é o companheiro anunciado do ‘loirito de Lisboa’ nas outras três crónicas, o mesmo que lhe atirou com aquela pergunta, já feita por um romeno durante a ditadura terrível de Ceausescu, ‘mais que uma pergunta, é uma angústia e uma dor sem fim’.

A crónica termina afirmando que, quem ler as outras três até ao final, ficará a saber tudo o que o tal poeta romeno ‘grande como um camponês’ e o ‘loirito’ vão passar antes de se irem um dia e, assim, pelo menos continuamos, podem matar-nos não nos conseguem destruir. Quem destrói um homem? Um homem, quando é homem não acaba nunca’.

Nessa mesma tarde, por coincidência ou sincronicidade, veio ter comigo uma edição fac-similada da «Tabacaria», o poema de Álvaro de Campos ‘alto (1,75 m de altura, mais 2 cm do que eu), magro e um pouco tendente a curvar-se. Cara rapada, entre branco e moreno, tipo vagamente de judeu português, cabelo, porém, liso e normalmente apartado ao lado, monóculo’ tal como o descreveu Pessoa.

Como não há mais crónicas para falar de Álvaro de Campos, direi apenas que ‘foi estudar engenharia mecânica e depois naval em Glasgow, fez uma viagem ao Oriente, conforme o poema «Opiário» e trabalhou em Londres, Barrow e Newcastle. Desempregado, teria voltado para Lisboa em 1926, mergulhando num pessimismo decadentista’ (tirado da Wikipedia).

Será desse tempo o poema «Tabacaria», de onde me atrevi a transcrever alguns versos, sem outra preocupação que não o de salientar e confirmar que ‘um homem não acaba nunca!

Não sou nada.

Nunca serei nada.

Não posso querer ser nada.

À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

O mundo é para quem nasce para o conquistar

E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.

Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.

Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,

Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.

Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,

Ainda que não more nela

E, o final deste maravilhoso poema,

O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).

Ah, conheço-o: é o Esteves sem metafísica.

(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)

Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.

Acenou-me adeus gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo

Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu

E assim, o homem da modesta mansarda, o que até o Esteves conhecia, ganhou a grandeza do mundo!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

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