A NOSSA RÁDIO “E Deus Criou o Mundo”: proselitismo abraâmico na rádio pública – Conclusão – por Álvaro José Ferreira
carlosloures
A expressão Reino dos Céus ou Reino de Deus que Jesus emprega para designar a humanidade futura não significa de modo algum uma ascensão, após a morte, para um paraíso distante e vago; neste ponto os textos são bem explícitos: é a terra o que os bons possuirão, não o céu, é a nós que há-de vir o Reino e não os homens que terão de ir ao Reino; Reino dos Céus ou Reino de Deus quer dizer Reino divino, isto é, realização na terra do pensamento de Deus; parece que se interpretaria facilmente o que pensava Jesus substituindo-se Reino de Deus por plenitude de vida; o Reino é um momento do mundo, uma fase final de uma longa evolução em que os homens, sem necessidades materiais por satisfazer, se sentirão plenamente de acordo consigo e de acordo com o universo; estarão utilizadas todas as suas possibilidades numa actividade harmónica e bela; o problema de discutir se, realizado todo o progresso material, a Humanidade será feliz, se não haverá outras aspirações, já é outro problema e Jesus não o põe, o que acentua bem o carácter social da sua pregação: a questão urgente é a do material, como base indispensável para uma liberdade de espírito; Jesus entende que é absolutamente necessário que o homem não tenha de pensar, com uma preocupação angustiada e absorvente, nos cuidados do corpo: não só, a não ser em casos excepcionais, virá daí uma perturbação do espírito, como também se impedirá todo o verdadeiro ascetismo que consiste, para Jesus, não num corte do que podemos desejar na vida, mas num dispensar, sem esforço, daquilo que nem desejamos; não há nos Evangelhos um único preceito de ascetismo que envolva violência de espírito sobre o corpo e que tenha por consequência o inevitável estreitamento do espírito; é este último que tem de se desenvolver bastante, que tem de ser forte no grau necessário para que possa não ser dominado pelo corpo; ora as condições económicas da Humanidade, tais como Jesus as conheceu e se mantiveram depois, não deixam que o espírito se exerça e afirme; no Reino não haverá problemas económicos, todos hão-de ser como as flores que não fiam nem tecem e andam com vestuários mais belos do que os de Salomão ou como as aves ligeiras que sempre encontram alimento e lugar para um ninho; no Reino, que se abrirá a todos, sem distinção de nações, de raças, de classes ou de castas, não haverá violências, mesmo as de defesa, nem juramentos, nem posse de bens materiais, nem o homem terá de ser previdente, no contínuo temor da velhice, da doença, da morte; no Reino ninguém terá que trabalhar, o que significa certamente que ninguém terá de se sujeitar a tarefas que vão contra as suas tendências íntimas ou abatem a saúde ou são puras formas de escravatura; no Reino se poderá ter desprezo pelo dinheiro, dado que exista; no Reino não haverá a menor ideia de organização familiar, que Jesus liga, decididamente, a um certo estádio de evolução económica e moral; no Reino não haverá Estado, com príncipes que oprimam os cidadãos, antes cada um será, voluntariamente, por amor e interesse do espírito, o servidor dos outros; no Reino não haverá processos, nem tribunais, nem juízes; no Reino não haverá senão bondade, amor, fervor espiritual, contemplação das ideias, profunda, segura, inabalável felicidade.
Não havia para Jesus ou para os seus discípulos dúvida alguma de que o advento do Reino estava próximo, de que todos os que o escutavam nele se poderiam instalar; o desastre de Jerusalém veio mostrar que o mundo não acolhia os incitamentos de Jesus como ele esperava, e os Apóstolos tiveram que transferir a ideia do Reino da Terra para os Céus; segundo eles, a verdade, que lhes era naturalmente indiscutível, da pregação de Cristo só se salvava falando de uma ressurreição e de um paraíso, de uma ida ao Reino, não de uma vinda do Reino; da doutrina social passava-se à doutrina religiosa e abria-se o caminho a todas as deturpações, a todos os acrescentos; dentro em pouco a Jesus se substituiria S. Paulo, a Igreja apareceria em lugar da comunidade primitiva dos reformadores do mundo; no entanto, o choque da personalidade de Jesus fora demasiado forte para que tudo se abolisse e a cada passo as autoridades tiveram de intervir para sufocar os movimentos subversivos de verdadeiros cristãos; a ideia de um futuro económico melhor, de uma idade de ouro levada para o termo da evolução humana, de um protesto contra as desigualdades sociais, de uma esperança nas possibilidades do homem, mostrava-se apesar de tudo e reviveu com mais pureza, seguindo nisto o primeiro que a formulou, em pensadores que nada tinham que ver com a religião do que naqueles que se apregoavam religiosos. No entanto, a queda de Jesus era inevitável e pode-se talvez defender a afirmação, que parecerá paradoxal, de que tão amigos da humanidade como Jesus foram os que o condenaram e os que impediram que a sua doutrina se conservasse social; o futuro será tão possível pela palavra de Jesus como pelos actos dos que transformaram uma ideia revolucionária numa religião inofensiva para os seus interesses e até, depois de Constantino, favorável aos seus interesses; efectivamente, como os meios de produção eram, no tempo de Jesus, insuficientes para sustentar bem toda a Humanidade, era justo que vivessem melhor os mais capazes de iniciativa, de inteligência, de perseverança; tudo o que havia, repartido igualmente por todos, daria pouco mais do que a fome a cada um e então a Humanidade condenar-se-ia a um vegetar de que nada de bom poderia sair; o sacrifício de milhões de homens deu a alguns a possibilidade de criarem, pelas ciências e pelas técnicas, os meios de produção suficientes para que o resultado de uma divisão equitativa não seja a miséria geral, mas a abastança geral e, portanto, para que possa realizar-se a previsão do Reino; o que Jesus disse do rico e do poderoso só é justo no momento em que, havendo o suficiente para todos, alguns tentam impedir que o Reino se estabeleça; é então que tomam o seu pleno significado as palavras de Jesus quando afirma que não veio a trazer a paz, mas a guerra e fala da probabilidade de o Reino se instaurar só depois de uma catástrofe que pareça abalar os próprios fundamentos do mundo; não há em Jesus, como o quiseram muitos dos seus continuadores, uma resignação absoluta ao mal, uma desistência de todo o combate, um recuo perante a violência que seja preciso empregar se quem adora acima de tudo a riqueza se colocar ante o Reino para impedir que entrem os outros e ele próprio; acima de tudo é-se pacífico e sempre terá paz quem por ela vier, o que não exclui a possibilidade de, cortados os caminhos de entendimento, encontrar as espadas quem pela espada se quiser defender.
(“O Cristianismo”, série “Iniciação: Cadernos de Informação Cultural”, Lisboa: Edição do autor, 1942; in “Textos e Ensaios Filosóficos I”, org. Paulo A.E. Borges, Lisboa: Âncora Editora, 1999 – págs. 67-80)