Há, porém, um certo número de pontos que parecem poder afirmar-se com alguma segurança. O primeiro refere-se ao carácter religioso do pensamento de Jesus: se se considerar religioso o que falar em Deus ou mostrar veneração por um lugar de ritos, certamente que Jesus tem de ser contado entre os religiosos; se, porém, se tomar como atitude religiosa a de uma forte consciência moral em face de todos os problemas universais, a de quem procura uma solução do problema essencial da existência, isto é, do problema do bem e do mal, com todas as suas implicações, procurando ir até aos limites da questão e não recuando perante o que aparece como resultado, o que fez, por exemplo, um Buda, então Cristo não pode apontar-se como um grande mestre religioso; nem uma única vez ele põe a dificuldade e toda a sua força espiritual parece empregar-se no sentido de que se organize a terra de modo que a vida material aos homens não pese sobre eles e as almas possam dedicar-se ao que é verdadeiramente humano; Buda fala dos problemas que existiriam, mesmo para o homem que tivesse toda a parte material da sua existência perfeitamente resolvida: ele próprio é um príncipe que tem tudo quanto quer e que tudo abandona porque sente o trágico da vida, de uma vida que é trágica exactamente porque é vida; a acção, por consequência, aparece como um mal para o Buda; o que encontramos em Cristo é bem diferente: Jesus vem dos pobres, é um deles, e interessam-no pouco as questões metafísicas, como o interessam pouco as questões morais que não signifiquem uma ajuda para o estabelecimento do Reino; a piedade, o amor do próximo, são em Buda uma consequência da vanidade e da dor de viver: deve-se ser bom para tudo o que existe, porque tudo sofre de existir; a piedade de Jesus, o amor que ele reclama são uma força revolucionária, neste sentido de que hão-de apressar a vinda do mundo divinizado: se o rico amasse o seu irmão, pensa Jesus, as riquezas igualmente distribuídas dariam para todos e o mundo seria feliz; mas Buda, ao abandonar a riqueza, não o faz por amor aos outros: sendo pobre sofre menos, porque vive com menos intensidade. Exactamente porque não anseia por nenhum modelo do mundo, mas quer abolir o mundo, exactamente porque não tem de apontar aos homens um padrão de existência e uma esperança de protecção, mas o Nada, Buda não precisa de Deus; em Jesus ele aparece continuamente e tão presente em tudo, nos céus, na terra, nas plantas e nos meninos, que quase poderíamos falar num panteísmo, se, por outro lado, Jesus não mantivesse firme a ideia de um mundo absolutamente distinto de Deus; o que é certo, no entanto, é que o Deus de Cristo não aparece definido com clareza; a ele, que vem pregar uma transformação social, basta-lhe a ideia de um Pai, Senhor do mundo, Criador dos homens, extremamente bondoso e extremamente justo, que ajudará seus filhos a possuírem o Reino e castigará os que se opuserem à vitória dos pobres; quanto ao resto, Deus é a um tempo pessoal e impessoal, transcendente e imanente, e ficam por resolver, até, nalguns casos, por tocar, problemas ligados ao de Deus e tão importantes como o das relações entre o homem e o espírito divino, o do bem e do mal, o do livre arbítrio e do fatalismo, o da conciliação de uma suprema bondade com uma suprema justiça.
Quanto ao homem, pensa Jesus, em primeiro lugar, que ele é, na Terra, um ser superior aos outros; porque tem uma alma vale mais do que os animais e as plantas e todo o mundo é naturalmente o seu servidor: quando os bons possuírem a terra, o homem servir-se-á de tudo o que o mundo lhe apresenta, ou para as necessidades materiais, que sempre terá, o que não quer dizer que lhe absorvam o pensamento, ou para que por meio da criação possa compreender e louvar o Criador; para Cristo, o homem é o centro da vida na Terra e tem o direito de utilizá-la para viver bem; esse viver bem poderá dar-lhe um dia a possibilidade, que não tem hoje, de se comprazer no espírito, de adorar o Eterno, ou tomado como um Deus-pessoa ou tomado como o pensamento do universo; Jesus acha que o homem não tem ao seu dispor outra «linguagem de Deus» que não seja a do mundo, a do conjunto das coisas que lhe impressionam os sentidos, o que pode não ser contraditório com a ideia da existência de uma alma; é esse mundo que tem de conquistar para ser homem, para revelar toda a bondade, toda a beleza que lhe são inerentes. Para Jesus, o homem não é um ser mau, nem aparece nos Evangelhos a ideia de uma queda ou de uma salvação necessária; as criancinhas, não corrompidas pela sociedade, tão naturais ainda como os lírios do vale ou as estrelas do céu, são boas, são afectuosas, aparecem-lhe como o modelo do que deve ser o discípulo perfeito; são as organizações sociais fundadas na injustiça e na opressão que corrompem o homem, o afastam da sua própria natureza, o impedem de ver Deus; para Jesus, a maior desgraça do homem é esse exílio de si próprio, exílio que pode terminar quando a miséria não for mais do que um facto do passado e tão longe de nós que nem a sua lembrança nos possa vir pungir. Simplesmente, para que o Reino venha e firmemente se estabeleça é preciso que os homens façam um esforço pela bondade, se arrependam, ou, melhor, virem de rumo na sua concepção da vida e atendam aos sofrimentos dos seus irmãos homens; tal dever incumbe naturalmente em maior grau aos poderosos, aos dirigentes, aos que têm nas suas mãos o destino dos povos, aos que manejam as riquezas da terra; as invectivas contra os ricos não têm outro significado: Jesus revolta-se contra o seu egoísmo, contra o desprezo em que têm a vida alheia, contra a vontade de se manterem na sua posição, sejam quais forem os sofrimentos dos outros; não quer dizer que na maior parte das vezes os pobres não sejam tão maus como os ricos: a sua frase acerca dos pobres em espírito condena os maus ricos e os maus pobres; mas Jesus sabe também que a realizar-se o ideal da maioria dos ricos — ser rico de qualquer modo — nunca mais se poderá estabelecer o Reino, ao passo que se se realizar o ideal da maioria dos pobres — terem todos o que precisam — o Reino ficará como que automaticamente estabelecido; a moral de Jesus é, portanto, a do desprendimento dos bens terrestres, isto é, a de não trabalhar por eles contra os outros, a do amor dos homens como único culto digno de verdadeiros adoradores de Deus, a do auxílio a quem deseja outro futuro, a da cooperação na obra construtiva que servirá a todos; os inimigos de Deus são, para Jesus, os inimigos do povo: a esses nada os salvará, por muito dinheiro que tenham, nem por maiores que sejam as ofertas no Templo, nem por mais que rezem, nem por muito protegidos que se julguem pela polícia dos sacerdotes ou pela polícia dos romanos.