Vejo Maria a parir num estábulo, em Belém. Ouço profecias de que o recém-nascido será o rei de Israel. Vejo Herodes atormentado, não quer um concorrente. Vejo que manda passar a fio de espada todas as crianças de Belém. Vejo a fuga para o vale do Nilo. Vejo a terra árida. Vejo Maria sentada no jumento, Jesus aconchegado no seu colo, José a puxar a arreata. Vejo que, quatro anos depois, morre Herodes. Vejo a família de Jesus regressar à Galileia. Em Nazaré vejo o menino Jesus a trabalhar a madeira na oficina do seu pai. Vejo que, criança ainda, já começa a trabalhar a alma dos homens, já prega na sinagoga e a todos espanta com a sua sabedoria. Três dias fica a discutir no território sagrado. Maria e José procuram-no, aflitos, e ouço que ele pergunta: não sabeis que estou a cuidar dos assuntos do meu Pai? Vejo-o na plenitude da idade e ouço que recomenda a um homem rico: vende tudo o que tens e dá o dinheiro aos pobres. E a outros ouço que diz: é mais fácil fazer passar uma corda pelo fundo de uma agulha, do que um homem rico entrar no Reino dos Céus. No rio Jordão vejo Jesus a baptizar dezenas e centenas de seguidores. Um deles hesita em receber o baptismo, porque já tem na carne a marca da Lei judaica, é circunciso. Até pela hesitação, que também é minha, nele creio reconhecer Jacob, o meu filho. Ouço que Jesus lhe diz: a água lava as impurezas do corpo. Mas esta água, abençoada por Deus, lava as impurezas do espírito. De todos os espíritos. De homens e de mulheres. Vejo que se decide o indeciso. Ouço que aceita o baptismo e Jesus baptiza-o.Depois ouço um fariseu a censurar Jesus e os seus discípulos por estarem a colher espigas num sábado, dia sagrado de descanso. Ouço que Jesus lhe responde: o sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado. Vejo-o a impedir a lapidação de uma adúltera apenas com uma frase: quem nunca pecou, que atire a primeira pedra. Ouço que diz aos seus discípulos e à multidão que o segue: ama o próximo como a ti mesmo. Sinto e sei que o próximo também pode ser o meu inimigo e Jesus confirma: se alguém te bater na face direita, vira-te e oferece-lhe a esquerda. Ouço que fariseus perguntam quando chegará o Reino de Deus e ele responde: O Reino de Deus está entre nós. O Reino de Deus é assim: um homem espalha a semente na terra. Vai para a cama à noite, levanta-se de manhã e a semente germina e brota. Como isso acontece, ele não sabe, mas acontece. Ouço-o a pregar à multidão: bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles será o Reino dos Céus; os mansos porque possuirão a terra; os que choram, porque serão consolados; os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. No Monte das Oliveiras vejo Jesus a lavar os pés aos seus discípulos. Depois, com três deles, vejo que se retira para o jardim de Ghetsemani. Sei que orando está e os outros dormem, Pai, afasta de mim este cálice. Vejo Judas Iscariote por baixo de uma figueira. Acaba de passar uma corda num dos ramos. Já vejo o laço no seu pescoço. Já vejo o seu corpo a estremecer no ar, convulsões. Agora pára, balançado apenas pela brisa. Sei que Jesus desiludiu a multidão. Sei que todos o queriam como filho de David, Messias de espada erguida. Mas prefere a mansidão. Por isso o abandonam, nele se vingam da frustração. Figueiras não há para tantos pescoços que merecem corda. Sei que os olhos de Jesus em mim cravados, outra vez adormeceste. Enganas-te, ó nazareno, não estou a dormir. É o que tu pensas. Mas é a raiva, a raiva, a injustiça, a traição que te fizeram… Quando todos os homens estiverem acordados, todos serão comigo no Reino do meu Pai. Pergunto: quando tal acontecer, onde então a injustiça, onde a traição, onde a inveja, onde a calúnia, onde a cobiça e a avareza, onde a fraude e a arrogância, onde ricos, onde pobres, onde escravos e senhores, onde as armas, onde a raiva, onde a guerra? Para os homens subirem ao Reino de Deus, primeiro é preciso acordá-los. Começa tu por acordar, dá o exemplo, outros virão depois. E por isso te deixas matar, ó nazareno? Só para acordar os homens? Tu o dizes.