Por volta dos trinta anos, talvez devido ao exemplo de Baptista, mais seguramente por um impulso íntimo, Jesus começa a pregar, depois de um período de recolhimento e de meditação no deserto, ou, pelo menos, em local afastado dos centros mais importantes; a família de Jesus, mãe e irmãos, não aceitou de bom grado o caminho que tomara Cristo e por várias vezes tentou dissuadi-lo: a oposição dos parentes, que melhor deviam compreendê-lo, parece ter feito em Jesus grande impressão e ter, por certos aspectos, marcado o seu pensamento ou, talvez melhor, a sua atitude; liberto dos seus e mais à vontade em terra estranha do que entre patrícios, Jesus vai pela Galileia, por Gérasa, pela Betsaida, pelos territórios do Sídon e de Tiro e pelas cercanias de Jerusalém, pregando a sua doutrina de uma renovação espiritual e de um reino divino a estabelecer na Terra; seguem-no alguns discípulos, gente humilde, que a personalidade de Jesus, talvez mais que as suas ideias, impressionam fortemente; acreditam num triunfo próximo e vão para Jerusalém cheios de esperança de que Jesus se conseguirá impor. Enquanto Cristo andara pelas aldeias não houvera oposição de importância: Jesus era, possivelmente, olhado pelos dirigentes como uma personagem extravagante, mas de cuja reduzida influência, e ainda assim longe dos centros onde se decidiam as grandes questões religiosas e políticas, nada havia a temer; a vinda a Jerusalém, sobretudo por ocasião da Páscoa, com a grande multidão que havia na cidade e a exaltação religiosa e patriótica que era natural, punha a questão de maneira diferente. A primeira oposição veio dos sacerdotes do Templo, conservadores, dispostos a defender os seus lugares e a sua influência sobre o povo: e se é certo que Jesus provocou tumultos no vestíbulo do Templo, expulsando os vendilhões, mais se lhes devia ter despertado a atenção e apurado o desejo de agir contra o perigoso inovador. Por outro lado, os romanos, que dominavam a Judeia, temiam toda a agitação judaica durante as festas da Páscoa, porque facilmente podia degenerar em revolta: fazia-se o reforço das guarnições e o governador romano estava pronto a agir com toda a energia. Provavelmente por denúncia do conselho de sacerdotes, Jesus foi preso pela polícia romana, ouvido por Pôncio Pilatos, se era ele o pretor; uma manifestação da populaça, talvez organizada pelos sacerdotes, forçou o romano a uma decisão, a de condenar Jesus à morte; é possível, no entanto, que não haja em tudo isto senão uma invenção de evangelista para tornar odiosos os judeus; levado para uma iminência junto da cidade, sofreu Jesus o suplício da crucificação segundo o processo oriental que os romanos tinham adoptado e de que os nossos crucifixos dão uma ideia errada; são bastante suspeitas, em autenticidade histórica, todas as circunstâncias tradicionais do processo e da morte de Jesus.
Se é tarefa difícil a de estabelecer uma biografia de Jesus, não o é menos a de uma sistematização da sua doutrina; o facto mais importante em Cristo não é ele aparecer com um pensamento bem nítido, bem coerente, fruto de uma meditação regular e demorada: o que prendeu os discípulos e o povo da Galileia, o que fez tomar como um guia dos homens foi a sua personalidade, a um tempo cheia de amor e de audácia, foi o calmo, sincero heroísmo que o fez ir em defesa dos pobres, dos humildes, contra uma organização social que os oprimia, foi o entusiasmo, a piedade que o levaram a trazer aos homens a esperança de um magnífico futuro, foi a sua crença de que há um fundo bom na humanidade e de que é possível construir na terra um paraíso; os devotos da Lei, os adoradores oficiais de Deus, estavam longe de mais e apareciam ao povo como mais dispostos a aliar-se com os governantes em tudo que significasse opressão moral ou material, do que a esforçar-se por que surgisse um mundo diferente; era certo que no que falavam ou escreviam citavam muito o amor dos homens e a veneração do espírito divino, louvavam a mansidão e a humildade, mas também não era menos certo que o seu procedimento, quase sem excepção, se guiava bastante pelas linhas contrárias; quando Jesus surgiu tudo foi diferente: o pregador praticava a sua doutrina, manifestava-se contrário, com uma coragem que os impressionava, a tudo que lhes era hostil na vida e não se contentava, como os outros, com uma vaga esperança de que um dia, nos céus, todos seriam recompensados das suas agruras; era na terra, no mundo sólido, tangível, de realidades, no mundo em que eles
tinham fome e sede e sentiam as dores do trabalho, que Jesus lhes prometia uma vida diferente, uma existência de eleitos. Perante estas ideias fundamentais, pouco lhes importava que o pensamento de Jesus fosse ou não sistemático; até foi decerto elemento importante no trabalho de Cristo que o seu ensino fosse tão familiar, tão acessível, tão adaptado, quase sempre, à compreensão dos ouvintes; uma lógica muito estrita, uma apresentação demasiado escolástica tê-lo-iam prejudicado; de resto havia mais em Jesus uma emoção, um sentir directo perante os sofrimentos e as esperanças do povo, um contacto imediato com a essência da sua vida, do que um forte poder de raciocínio, uma clareza excepcional de inteligência. A esta dificuldade intrínseca que vem da personalidade de Jesus juntam-se, para nós, outras que não são menos graves: frequentemente, o pensamento de Cristo apresenta-se-nos contraditório, ou porque o foi na realidade, ou porque há no Mestre e nos seus discípulos duas fontes de ser que se contrariam, a do que traziam como inovadores e a do que recebiam do ambiente, como homens que viviam no seu país e no seu tempo; é possível também que houvesse uma doutrina para os mais íntimos, para os que deviam ser o sal da Terra, outra para o vulgar e que tomemos como moral para todos a que seria apenas a do pequeno grupo destinado a fundar o Reino; por outro lado, seria fácil provar que Jesus não fazia uma distinção clara entre os preceitos que dava para se viver até o grande dia em que tudo se havia de transformar e as suas visões do que seria a vida logo que o Reino se instaurasse; finalmente, temos de contar com a introdução de sentenças pelos cristãos, levados por interesse de proselitismo ou de teologia, e com a inevitável deturpação que fazemos ao ler, com o espírito ouA NOSSA RÁDIO “E Deus Criou o Mundo”: proselitismo abraâmico na rádio pública – por Álvaro José Ferreira os espíritos de hoje, os textos de há vinte séculos.