BALADA
como viagem para sítio nenhum
assim a vida me decorre entre frias
lajes
gravemente perdido
gravemente
procurei a nobre solidão
escrever a liberdade e o sonho
viver um personagem incorrupto
entre frias lajes minha face
– a solidão na plana superfície
do mar –
por um período entregue à voracidade das sombras
cujas vozes se vão extinguindo
cujas vozes de cal
habitam a vida de miséria e vazio que nos suporta
o amor deslizou da raiz
até ao dia do homem comum…
da mentira comum
da nossa por agora irremediável cobardia
sem paz
e tíbio e lento foi-se decompondo
o nosso mal
cerce
ao rés da água voga meu rosto
entre frias lajes entre frias
húmidas plantas marítimas
que vibram ligeiramente cantando
ao roçar a minha face morta
entre frias lajes entre frias
mãos indiferentes
na água transparente e mui quieta
perpassa o lívido sopro da morte
varrendo as frias lajes as frias
mãos que me cobrem a face
dum movimento preparado e solene
a nuvem voa rarefeita e gélida
sobre o rosto à flor da água entre frias
lajes
entre frias
eternas
sepulturas
É o último poema escrito. Ora toma que é para não andares a falar na câmara municipal.
E nem viste o resto… Tenho mais… muito mais… em grande… em bom… da melhor fazenda que há…
Escreve e deixa de não ter juízo
Abraço do Manuel
TERCEIRA CARTA [dactilografada, última linha manuscrita; 1 página, folha carimbada com logótipo da Câmara Municipal de Lisboa – Bibliotecas e Museus]
Lisboa, 7 de Abril de 1960
Caríssimo:
Não me tem sido escrever; o ar desta coisa, desta extravagante mórbida cidade deu-me psicoses várias. É uma tristeza… uma náusea lenta que chega a ser física…
Vou abandonar (agora que fiz o livro – sai na próxima semana) o fungágá burocrático.
Como o poema foi escrito depois de o livro estar a imprimir, não será aí publicado. Mas quando sair – dedicar-to-ei.
A minha saída deste estupor de terra não é fácil: – a massa!?! Bem sabes que na Europa já não há lugar para a aventura; a não ser a pequena aventura de torna-viagem. Além de que o dinamismo está muito atabafado pelo ambiente – e não prevejo qualquer libertação para além do salto louco no abismo. O que, nesta época, se torna uma lenta forma e desconfortável de suicídio.
Os pequeninos problemas – pão, cama, – agravam a hipótese. E depois, ainda há isto: o que vou eu fazer para a Europa? Digo fazer, para além do facto de sair daqui. Britar pedra? Colher ameixas da Califórnia?
O ex-grupo do Gelo sobrevive enterrado na intriga literária bem alimentada por Mário (está cada vez mais nervosa esta rapariga), secundada pelo fervor polémico de Pacheco, saboreada por Sampaio, e acolitada pelos outros indivíduos do bando. Grande pobreza económica e decadência espiritual acompanham as manifestações moribundais das gentes. As condições são realmente péssimas e a força de juventude vai sofrendo o desgaste do desgosto. Alguns dos homens vão passar pela prisão, outros por uma rápida morte, outros pelo envelhecimento e tacho precoces e os mais socialmente hábeis escreverão para o Diário de Notícias. Como perspectivas – não optarei. O poeta está a precisar dos mínimos de dinheiro e tempo – para escrever. Até isso tem sido ultimamente feito nas condições de imbecilidade circundante mais agressivas e espasmeantes. Foda-se!…
Mais: a Primavera! Tenho decididamente de abandonar a trampa do camarário emprego velocissimamente… Os meus resíduos de resistência mantêm-se. A coragem é que já não é tanta… e as dificuldades maiores… até porque para esta próxima vez não haverá regresso possível.
Vês alguma coisa de Londres para mim? Ou outro algures?
O ângulo subjectivo de inclinação da cidade é este.
Quanto ao resto… enfim… bastante igual, bastante turístico, muito pequenininho como de costume. E para não fugir à tradição a minhoca domina. A tara sexual desafoga o país e a foz do rio divaga coberta de toda a espécie de anti-concepcionais… O senhor La Palisse manifesta a sua extraordinária ubiquidade através dos milhões portugueses de estilhaços de merda existente… E sobretudo paira o belíssimo céu azul dos cartazes de propaganda e um paradoxal aroma a liberdade e a grandeza…
Notícias humanas de João Vieira. Paris anda na Rua da Amargura. Diz daí. Projectos? Literários ou outros? A savana? Passa por aqui sem intenções.
Abraça-te o Manuel
QUARTA CARTA [dactilografada e última linha manuscrita; 1 página]
Lx, 17 de Maio de 1960
Caríssimo
Espero que a carta e o livro (seguem no mesmo correio) ainda aí te apanhem. É extravagante, mas a recepção que lhe andam a fazer muito diversos sectores está a acontecer duma maneira imprevista. Ainda tenho que pensar no que quererá dizer.
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Perguntaste se era budista. Não. Mas creio que no livro encontrarás uma resposta aproximada duma situação espiritual minha, que, mais do que poderias adivinhar, demonstra a involuntária pertinência da tua pergunta. Digo “involuntária” porque o texto KWY não era significativo sob esse aspecto.
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Vejamos esse romance.
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João Vieira: está mais João Vieira. Passou aqui com as melhores intenções e regressou descansado. Esperemos que consiga fazer o que quer; seria bom para tudo. O José Simões evadiu-se para lá e deve estar a atirar o barro à parede a ver se pega. O que preocupa é o efeito-lima-atira-fora da vida que têm de levar no Paris.
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Quanto a mim não posso ir. O dinheiro, filho?
Mas ainda saio – por não muito tempo, creio – este ano.
É uma coisa que necessita a oportunidade que nesta altura me falta.
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Escreve mais e detalhado. Diz do livro.
Manda a tua morada londrina (importante).
Dentro de alguns dias – o tempo preciso para chegares a Londres – e desde que eu saiba o endereço, envio-te um relatório Lisboetó-português.
Mil abraços do teu Manuel
