A IDEIA – MANUEL DE CASTRO – OS VERSOS DE GELO – I – por António Cândido Franco

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(1934 – 1971)

(1934 - 1971)Entre as muitas leituras possíveis da pequena grande obra de Manuel de Castro, quase todas por apontar, o que é escandaloso, uma me parece digna de surgir em primeiro lugar – a capacidade que mostra em condensar símbolos colectivos geracionais, por aí se tornando uma das mais representativas da geração em que se insere, o grupo do Café Gelo. O nome de baptismo do grupo tem já um riquíssimo simbolismo. Referimo-nos menos ao lugar, já ele valioso, dada a tradição anarquista que Aquilino algures lhe deixa, e que vinha do século XIX, do que à palavra. Gelo! Aí está uma palavra, miúda, com quatro letras, que na década de 50 do século XX, em plena Guerra Fria, era capaz de dar conta da situação internacional, além da interna, mais imediata, mas não menos fria, a da ditadura salazarista. O alcance da palavra vai ainda mais longe, ou mais fundo, ou até para outro lado, abandonando o contexto histórico ou geracional. O dissílabo cobre a própria transpiração do verbo de Manuel de Castro. É com gelo que ele faz os versos. A poesia de Manuel de Castro é uma poesia líquida, feita de água, mas água sólida, alimentada pelo ardor máximo do frio, do frio que mata. É uma poesia fria e ardente, sólida e transparente.

Helder Macedo, no pequeno memorial que dedica ao grupo, “Raposa branca num campo de neve” (revista Relâmpago, n.º 26, 2010, p. 140) fala do congelador, acertada figuração de muitas coisas. Em primeiro lugar o café do lado ocidental do Rossio, que se chamava Gelo. Não podemos deixar de tomar esta coincidência por uma objectivação casual, isto em época em que M. Cesariny punha em cena o jovem mágico de Pena Capital (1957). Depois o gelo era o país estrangulado pela mão cínica dum homem de sacristia; depois ainda o mundo congelado pelo medo do pugilato atómico das duas potências. Por fim, mais do que todos os outros, mas em concordância com eles, fora do contexto, no centro desses círculos concêntricos, como núcleo, estão os versos do Poeta, feitos eles também com o fogo gelado do gelo. Não há o mínimo visco nos versos de Manuel de Castro. Os seus versos e a sua prosa transvasam um frio que incendeia e gela no mesmo passo. São versos hialinos e finos, incolores e límpidos, que cortam e ferem como o vidro. Glosando de forma diferente o que poeta António Barahona diz dos versos de Manuel de Castro noutra página desta revista, não nos parece haver em portuguesa língua versos tão ardentemente gelados como estes. Têm a transparência do vidro, a finura da lâmina, ao mesmo tempo que irradiam a repulsiva rigidez da morte.

Nenhum outro grupo da época em Portugal, entre todos os que surgiram nas décadas de 50 e de 60, assegura uma universalidade tão ampla e tão representativa como o grupo do Gelo. E talvez nenhum outro poeta do grupo, que os tem em bom número e de excelente qualidade, se tenha adiantado como ele, Manuel de Castro, a escrever uma poesia tão representativa da geração e do grupo. Na verdade nenhum outro poeta do grupo escreveu como ele os versos com um pedaço de gelo. Há muito ardor em geral nos poetas que o rodeiam, ardor e fúria, e basta para isso pensar nos versos de Herberto Helder, nos de António José Forte ou nas linhas de Ernesto Sampaio ou até nas de Virgílio Martinho, mas todos eles tiram o ardor mais do fogo e menos do gelo. Os versos de Manuel de Castro são os únicos que vão buscar o estado de ardor ao gelo, à sua mortalha, e não ao fogo ou ao álcool.

Abro o livro de estreia de Manuel de Castro e leio o primeiro poema, “Paralelo W”, que dá nome ao livro, e nele encontro símbolos geracionais fortes, como a geração angélica e terrível. A locução é forte e aderente – além de ardente. Apetece perguntar: que geração é esta? Reponde por um lado a história do Grupo do Gelo; por outro o poema. É a geração que se vai iniciar e ter um nome diferente e que surge no tempo em que morrem os Príncipes/ e se iniciam os ritos bárbaros da Grande Velocidade. Se os príncipes que morrem podem deixar a pairar no ar, em poesia tão pouco referencial, uma dúvida sobre quem são, já os ritos bárbaros da Grande Velocidade, com facilidade se captam a partir duma situação técnica, que, efeito ainda da guerra, se espalhou no dia-a-dia do Ocidente. É ela a névoa glacial do pesadelo gelado a que se chamou Guerra Fria. Ritos bárbaros da Grande Velocidade, diz ele. Eis um verso escrito com gelo, um verso que, não perdendo ardor e incêndio, gela e mata como veneno. Não se trata dum verso frio – como os do autor de Morte e Vida de Severina podem ser – mas dum verso gelado. Com a mesma matéria hialina se escreve a locução, belíssima de resto, a geração angélica e terrível, o mais directo e certeiro apodo que o grupo do Rossio lisboeta para si tomou, mas que não deixa de produzir um calafrio. Quer a Guerra Fria, quer os versos de Manuel de Castro concebem um inferno de gelo, não de fogo. O que queima, o que castiga, o que mata, não é a labareda mas o grau zero do frio. Inferno, inverno. Logo em vez da tristeza e do seu incêndio, rigidez hirta, sincelo, petrificação, que não é parnasiana ou ática. Há aqui uma transparência que só pode ser ligada à transcendência imanente, uma metáfora da morte abissal que toca o renascimento oculto. Nada pois de estatuária realista mas poesia inspirada pelo real absoluto.

 

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