Por diversas vezes temos citado Alain Touraine e a sua afirmação de que o socialismo morreu e transcrito excertos do prefácio do seu livro “O Pós Socialismo” (“L’Après socialisme”). Como este, por exemplo: :«O Socialismo está morto. A palavra figura por todo o lado, nos programas eleitorais, no nome dos partidos e mesmo dos Estados, mas está vazia de sentido». Está vazia de sentido porque a evolução dos aparelhos partidários se deu na direcção inversa à da lógica socialista – estruturada segundo as regras do marketing e prometendo uma consolidação do bem estar segundo a lógica capitalista e não a chegada a um patamar de igualdade, fraternidade que constitua a liberdade de não dependermos de bens de consumo para ser felizes. A felicidade socialista corresponde aquilo a que na sociedade de consumo corresponde à penúria – com um reforço dos equipamentos que permitam que cada cidadão tenha bons serviços de saúde, meios generalizados de difusão da cultura e do saber… – ao diabo com as sapatilhas Nike, com os Mercedes Benz, com os Rolex, com os fatos Tussardi ou com os sapatos da Dolce&Gabana!
OS Descobrimentos, com todo o avanço científico que representaram, ao proporcionar à grandes famílias europeias matérias-primas baratas e mão de obra escrava, revolucionaram toda a lógica mercantil – pondo fim à hegemonia da nobreza e aos vínculos de sujeição feudal proporcionaram uma aliança entre o poder político e económico. Nobres e mercadores conciliaram interesses Os príncipes patrocinaram grandes empreendimentos mercantis (nomeadamente os descobrimentos). Séculos mais tarde, com o advento da era industrial e do liberalismo, o poder económico ganhou vida própria, fora da esfera do poder político. A economia de mercado faz a sua aparição e estabeleceu o seu império.
Parecendo que nada tem a ver com esta perversão do socialismo, o que se esboça nas eleições presidenciais é o facto de o PS não aceitar nenhum dos candidatos socialistas já anunciados – Henrique Neto e Sampaio da Nóvoa defendem ambos princípios socialistas. Porém, estão à margem do aparelho partidário, não são controláveis pelo executivo do partido. Maria de Belém, estreitamente ligada ao aparelho é muito mais «fiável». Aquilo a que ingenuamente podíamos designar por «campo socialista», não interessa. Isto é política de direita, é raciocínio capitalista, é traição ao que naquele distante Setembro de 1973 se programou e prometeu. A direita assumida, sem princípios, apoiada na badalhoquice declarada em que a monstruosidade é coisa normal, «sempre houve pobres e ricos», os ladrões são apenas empresários a quem algo correu mal e toda a parafernália de sordidez que a comunicação social, também ela porca, serviçal e corrupta, nos serve como se de factos normais se tratasse, vai ser mais «pragmática» – saído o exemplar que vai para dez anos ocupa Belém, outro modelo saído do mesmo monstruário, ocupará a cadeira, Eventualmente menos iletrado e tendo lido pelo menos Os Lusíadas, não será o «presidente de todos os portugueses».
Este vaticínio, numa escala de um a vinte, que nota merecerá?