Redefinir a social-democracia ou redefinir o socialismo e a democracia? – por Carlos Loures

Há dias atrás, dizia eu que a ideia, que a direita quer impor como axioma, de que a distinção entre direita e esquerda deixou de fazer sentido, teria, a ser aceite, o efeito de diluir a dimensão ética da luta política, reduzindo-a a uma mera discussão técnica em que as chagas sociais seriam abordadas como simples números. Como é mais fácil mudar o texto de manuais de ciências políticas e as entradas dos dicionários, do que suportar uma Revolução, a direita tenta inserir no imaginário dos cidadãos a ideia peregrina de que não há direita nem esquerda – apenas uma sociedade democrática com partidos que querem chegar à justiça social por caminhos diferentes. A despolitização da política, por assim dizer – uma falácia que muita gente de esquerda vai aceitando como boa.

 

Num trabalho da jornalista SãoJosé Almeida, publicado no jornal Público de 7 de Agosto, várias figuras do Partido Socialista, críticas, embora de modos diferentes, relativamente ao papel do paritido sob a direcção de José Sócrates, pronunciam-se sobre o caminho que a social-democracia deve trilhar para se reencontrar com os seus valores fundacionais – a igualdade e a solidariedade.  Ana Benavente,Ana Gomes, JoãoCravinho, Manuel Alegre, Manuel Maria Carrilho e Medeiros Ferreira confluem na necessidade de o partido optar por centrar a sua política em valores ideológicos e abandonar um pragmatismo que o conduziu até águas neo-liberais.

 

Algumas das mais interessantes declarações vêm de Ana Benavente que põe em causa, a actual estratégia política do partido, defendendo a necessidade de recuperar o primado da política sobre a economia e de combater a despolitização.  João Cravinho situa o ponto de viragem à direita da social-democracia europeia quando Tony Blair introuziu a Terceira Via de Anthony Giddens no Partido Trabalhista.

 

Na introdução a “O Pós Socialismo” (“L’Après socialisme”) , dizia há mais de trinta anos Alain Touraine: «O Socialismo está morto. A palavra figura por todo o lado, nos programas eleitorais, no nome dos partidos e mesmo dos Estados, mas está vazia de sentido». Isto foi dito antes de a Europa ter sido percorrida pela onda vitoriosa dos partidos socialistas  –  em 1981, Miterrand vencia as eleições presidenciais francesas e Papandreu as legislativas da Grécia; em 1982, Felipe González ganhava as  legislativas em Espanha e em 1983, Mário Soares, as de Portugal. Sóem Itália Bettino Craxinão vencia.  Touraine enganou-se? Acho que não – ele não falava de  lutas eleitorais. Falava de Socialismo.

 

Num livro mais recente, “Un nouveau paradigme” (2005), Touraine analisou o percurso histórico das difíceis relações entre política, economia e sociedade, assinalando três etapas na laicização e privatização da economia europeia. Na Idade Média, séculos XI e XII o poder político fugia à  tutela da Igreja. Os senhores feudais e as casas reinantes começavam também a sacudir o jugo religioso e a  consolidar as fronteiras e soberanias.

 

Deu-se depois uma aliança entre o poder político e económico. Nobres e mercadores conciliaram interesses. Os príncipes patrocinaram grandes empreendimentos mercantis (nomeadamente os descobrimentos). Só, séculos mais tarde, com o advento da era industrial e do liberalismo, o poder económico ganhou vida própria, fora da esfera do poder político. A economia de mercado faz a sua aparição e estabeleceu o seu império.

 

O fim do séc. XIX e o dealbar séc. XX viram nascer a aliança entre a economia o social, casamento que pode ser explicado pela vida infernal dos trabalhadores e pela conversão de camponesesem proletários. Genteque saiu dos seus tugúrios e se organizou em partidos e em sindicatos, corroendo os alicerces do capitalismo. Era o parto sangrento da sociedade industrial e do movimento que a enfrentou: o Socialismo – revolucionário, punho cerrado, bandeira vermelha, “De pé famélicos da terra”, essas coisas…

 

A  tal cavalgada «socialista» dos anos 80, em França, Grécia, Espanha e Portugal foi ganha por uma estirpe de políticos – Soares, Miterrand, Papandreu, González, que deram ao termo «socialismo» um novo significado e, sob o fogo cerrado da direita, tentaram demarcar-se do socialismo histórico, inventando slogans como «O socialismo de face humana» e «socialismo em liberdade», por oposição ao socialismo de Estado, que tão má reputação dava ao conceito. Mas, na realidade, a deriva ia já adiantada. Nenhum daqueles homens tinha como objectivo a sociedade socialista.  Não se notava tanto, mas já tudo estava perdido. Estes homens é que iniciaram o caminho para a direita.

 

Transformaram em cor-de-rosa o que foi vermelho, o punho irado em amável flor, recusando conotações com o Outubro russo, com a Guerra Civil de Espanha e com outros marcos que os socialistas revolucionários sempre ostentaram com orgulho. Do socialismo conservaram apenas o nome.  Aquilo que esses políticos fizeram, em termos comerciais é designado por uma «usurpação de marca». Com este passe de mágica,  prepararam o socialismo para os novos tempos: pegaram na embalagem e meteram-lhe dentro um produto diferente.  Sócrates ou Zapatero encontraram o trabalho feito e duvido que relacionem o que dizem com a história do socialismo. São pragmáticos.

 

Diz Touraine: «Os que são proprietários do socialismo como se duma marca comercial se tratasse já não sabem em nome do que é que falam; reduzem a politica à táctica; tornam-se estranhos à vida das ideias. São padres pretensiosos de uma religião sem fiéis». Este corte entre o discurso político e a prática partidária, acentuou-se nestas três décadas. Esta evidência de que os actuais partidos socialistas não entroncam na árvore genealógica que vem das lutas heróicas do século XIX  é escamoteada pelos partidos actuais, dirigidos por gente ligada a uma lógica burguesa  e aos interesses do grande capital. Gente com mentalidade empresarial e ambições de fazer carreira, para os quais o partido é uma passagem para lugares de topo no mundo dos negócios. Socialistas, estes partidos? – pura mistificação.   Refundá-los? Para quê?

 

Mais do que redefinir a Social-Democracia e os partidos socialistas europeus, torna-se necessário discutir a própria democracia. Avaliar até que ponto o capitalismo não a moldou aos seus interesses ao ponto de a transformar numa nova forma de tirania. E  parece-me necessário pôr em causa a própria social-democracia que defende uma transição gradual e não-violenta para o socialismo. Será que sem rupturas violentas a direita cederá o seu lugar à esquerda? Quem acredita? Não terá sido a social-democracia um primeiro passo para a destruição do Socialismo?

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